Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

António F. Lopes

A Cachamorra de Ferro

nome: Francisco Rodrigues Galamba
ano de nascimento: 1921
local: Vila Verde de Ficalho
freguesia: Vila Verde de Ficalho
concelho: Serpa
acervo: António Ferreira Lopes
transcrição:

Era um homem que tinha um af’lhado, um rapazito qu’ er’ af’lhado dele, e depois morrerom-lh’ os pais, e o padrinho acareou o rapaz lá p’ra casa.

E o padrinho tinha um traçado, uma ’spada, chamavom-lh’ um traçado naquele tempo, grande. E tinh’ ô já lá em exposição: dava um moitão de contos a quem fosse capaz d’ o abrir, desembainhar o traçad’ aquele. E atão já o tinha lá em exposição.

–– Pago a tanto a quem for capaz de desembainhar o traçado. S’ abrir, leva tanto, se não o abrir paga tanto.

Ia lá muita gente, desses gajos graúdos e tudo, pagavom “um xis”, qu’ ele dava um moitão de denhêro, a quem fosse capaz d’ o abrir. Largavom lá a moela e ninguém o ( ). O af’lhado começou a ir sendo assim, assim já homen…zinho…

–– Mê padrinho tem p’r’ áqui isto, tem p’r’ áqui o traçado, (...) ind’ ássim o qu’ é isto?

Agarrô além, zás.1 Foi só agarrá-lo...

O padrinho vem, vêi-o ele fazer aquilo... (...)

–– Tchi! Tã...Tu fostes ca... Fostes tu qu’ abristes isto?!

–– Pois fui.

O padrinho ficou (...)

–– Tã toma lá. Dê’-lh’ o talêgo, enchê’-lh’ o talêgo de d’nhêro, e dê’-lh’ o talêgo de d’nhêro e disse-lhe:

–– Levas o traçado e este talêgo de d’nhêro e vai-t’ embora, vai-t’ a governar a vida p’r’ áonde tu quêras, qu’ eu em minha casa, na quero gente mais valente do qu’ eu.

O rapaz abalou, foi-s’ embora daquele povo, chigou lá a ôtro povo, mandou a fazer uma cachamorra de ferro com dezoito arrobas. Pôs o traçado aqui na cintura e a cachamorra de ferro às costas. Vá, ele aí vai esses caminhos adiante... Cond’ ele chega lá muit’ adiante, já lá muito longe, vêi um no meio duns penhêros, uns penhêros qu’ erom um desparate, uns penhêros grandes, chegav’ além, fazia-lh’ aqui assim, zás, arrencav’ ôs penhêros. Diz o ôtro:

–– Éi! Aquel’ ind’ é mais valente qu’ eu! Ó amigo, faça lá favor. Atão ond’ éi aqui o caminho que vai p’ra tal parte... –– lá p’ra onde diss’ ele.

O ôtro jog’ além as unhas a um penhêro, pega-lh’ aqui assim na rama, ó nas raízes:2

–– Vá por aí adiante até lá à frente, aparta ôtro caminho p’r’ áli p’r’á direita, mais adiante aparta ôtro p’rá ’squerda e adepois sigu’ em frente...

Diz:

–– Éi! Aquel’ é mais valente qu’ eu.

–– Faça lá favor, venh’ até aqui homem, acender um cigarro.

O ôtro veio. Diz-lhe:

–– Abra lá este traçado. –– nã foi capaz.–– Mexa lá esta cachamorra. –– tamém na foi.

Diz-lh’:

–– Olhe, ê vou a correr mundo mas tenh’ aqui denhêro. Mas você, p’lo qu’ ê ’tou vendo, você é quase tã valente c’mo eu. Se quer vir comigo, se quer acompanhar-me, venha comigo.

–– Ó, e ê vou.

Agarrou ali um penhêro daqueles grandes, pô-lo às costas, e toca que aí vão os dois... Sempre p’ra diante, sempre p’ra diante, sempre p’ra diante... Lá mais adiante andava um lavrando com uma junta de vacas. Diz ele:

–– Ó amigo, tão o caminh’ aqui p’ra tal parte...?

O ôtro peg’ aqui no rabo da charrua, faz assim:3 levanta as vacas...

–– Olhe, váia p’ra diante.4 Váia p’ra diante, depois lá aparte p’rá direita e depois p’rá esquerda, e depois váia sempr’ em frente… 5

–– Venha cá, faça lá favor, venh’ á fazer um cigarro com a gente.

Lá lhe ’teve dezendo:

–– Abra lá este traçado. –– nã foi capaz. –– Tão, levante lá esta cachamorra. –– tamém na foi. Diz:

–– Olhe, a gente passô-s’ isto, e vamos embora (...), a gente vai a correr mund’ e vocêi, se quiser acompanhar a gente, você tamém é um homem valente.

–– Vou. Vou tamém com vocês. Vou, mas vou além lev’ uma vaca.

Chegou além, soltou as vacas, agarrou [uma], cortou o ganhot’ à vaca, agarrou a vaca, pô-la às costas. Toca qu’ eles aí vão sempre p’ra diante, sempre p’ra diante...

Chegarom a uma vila, entrarom, nã virom ninguém, nada, nem um... nada! Pronto. Não havia nada, nada, nada. Entrarom por uma ponta, saírom por a ôtra e nada. Diz ele:

–– Óh, mas ind’ ássim o qu’ é qu’ é isto?! Estavom (?) as portas dos comércios abertas, (...) saírom. Entrarom por um lado, saírom por o ôtro, lá à saída havia um’ ázenhêra, assim fora do (...) um’ ázenhêra grande, com ’ma rocha ali ô péi, diz esse tal qu’ er’ ô que mandava, qu’ er’ ô mais valente:

–– Olha é aqui adonde nós, vamos a ficar aqui dormind’ esta nôte. E amanhã, temos qu’ ir a dar volt’ aí à cidade, a ver o qu’ é que se passa... A ver o qu’ é que se pass’ aqui na cidade, tem qu’ haver aqui alguém! Ó a ver o qu’ é que foi isto.

Bom, de manhã, esfolarom a vaca...

–– Temos qu’ c’mer a vaca.

Cortarom (?) um pedaço, forom ali a um comércio, levarom os tachos e levarom o azeite e levarom, os tempêros que faziom falta. Tav’ á port’ áberta, não havia lá ninguém, aviavom-s’ à vontade... Um tacho grande... Diz:

–– Bom, agora fic’ áqui um, fazend’ o c’mer, e vamos, os ôtros, ôtros dois, vamos a dar volta à cidade.

Quem havia ficar? Er’ ô da vaca. O que levou a vaca ficou fazend’:

–– Ó, tu trouxestes a vaca, és tu o primêro que fazes aí o rencho... Acuátela--te na venha p’r’aí algum cão, qu’ os cães andom por aí abandonados, e vá a comer, o guisado.

O ôtro foi, pôs o corno da vaca p’r’ áli a jeito, se viess’ algum cão, o sacudisse com o corno da vaca ... Ali quando, o guisado ’tav’ além chêrando bem, que estava já pronto e além, cond’ ele vêi fazer assim à rocha.6 A rocha levanta, fica encostada p’rô ôtro lado, sai um gigante, a coisa mais...

–– Chêra-m’ a carn’ humana e a sangue real! Chêra-m’ a carn’ humana e a sangue real! Ê qu’er’ c’mer!!!

O ôtr’ arrada-s’ além p’rô lado:

–– Tá aí o guisado. Come.

Oh!, uai que come, palmou o guisado...

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–– Era a vaca toda.. ?.

–– Não. Era um bocado. Era um pedaço. Um pedaço, da vaca.

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Ele lembeu o tacho, rapaz, palmou aquilo tudo, já ele tinha mamado o pessoal da aldeia aquela ou vila.

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–– Que rocha era essa onde estava o gigante?

–– Era uma rocha, e depois fazia um alçapão p’ra baxo. A rocha voltô-s’ e fazi’ aquel’ alçapão.

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Os ôtros chigarom, fazendo conta d’ irem a comer um bom guisado, tav’ ô tacho lembido.

–– Atão? Eh, atão o c’mer???

–– Eh, calem-se... Nem sequer me digom nada! Atão cond’ o guisado tava pronto, vou além a fazer um mandado, cond’ volti, os (...) cabrões de dois cães, o que nã tinhom c’mido derramarom, estragarom tudo, ’stragarom no c’mer todo. O qu’ eles nã c’merom, tiv’ qu’ atirar com aquilo, pronto.

Diz o Arranca P’nhêros:

–– Amanhã fic’ eu.7 Amanhã fic’ eu, virás tu c’m’ ôs cães nã arrimom aqui.

Pôs-s’ a fazer o guisado, e pôs log’ o pinhêro ali perto, qu’ era p’ra se viess’ algum cão, dava-lhe com a “varinha”. Manêras qu’ além condo o guisado estava chêrando bem, ’stava já pronto, cond’ ele vê a rocha fazer assim,8 sai o bicho:

–– Chêra-m’ a carn’ humana e a sangue real! Quer’ comer!

–– Ai, ai, come!

Palmou aquilo, catrapuz. P’ra debaxo da rocha. Vai p’ra debaxo da rocha, diz:

–– I Jasus, uai o qu’ ela (...). Na era mau os cães do ôtro... ...(...)

Cond’ os ôtros chigarom:

–– Atão??

–– Óh, atão. El’ ontem dêxou habituar aqui os cães, hoje... Oh, mal me descuidi, vierom os cães ôtra vez, –– mas o ôtro já sabia o qu’ er’ áquilo.

Diz o da cachamorra de ferro:

–– Amanhã, amanhã fico eu. Vamos lá a ver se os cães, se os cães comem, comem o guisado, amanhã fico eu.

No ôtro dia de manhã:

–– Vá, vão vocês a dar a volta à cidade, a ver s’ encontrom p’raí alguém, vivo, qu’ ê fic’ aqui.

Pôs a cachamorra ali ô péi, e o traçado, cond’ o guisado chêrava... É rapaz, vê el’ a pedra dar volta:

–– Chêra-m’ a carn’ humana e a sangue real!

–– Chêra-te bem, mas vai-t’ a saber mal! –– agarr’ á cachamorra «BUU!»

El’ assim que viu aquilo, zipa-te, e ó cava, desapar’ceu, e não apareceu mais. «Mas vai-t’ a saber mal, nã levas daqui nada (...)»

Bom, vierom nos ôtros...

–– Que desculpa dará ele? Ele dêxa comer o guisado tamém.

Manêras que cond’ eles vierom, iom já lá chigando, diz ele:

–– Vá. Venhom que hoje, hoj’ há aqui c’mida. Nã era mau os cães, mas vocês deviom-me tê’ dito logo o primêr’ dia, é qu’ é que me deviom tê’ dito, qu’ ele só tinha comid’ um ensopado, nã comia mais nenhum.

Comerom, dêtarom-se, no ôtro dia de manhã, diz ele:

–– Bom, agora, ê nã saio daqui. Vocês vão a dar volta, vão aí a um c’mércio, (os comércios havia muntos), trazem um moitão, –– porqu’ ele deu uma cachêrada, uma cachamorrada na pedra, e a pedra fez-s’ em poeira e f’cou aquele alçapão p’ra baxo, e aquilo sabe Deus a fundura que taria. –– vom dar volta, trazem um cavanejo, (havia cavanejos, naqueles ’stab’lecimentos, daqueles grandes grandes qu’ havi’ entigamente p’rá palha), trazem um cavanejo daqueles grandalhões, e trazem, …9 trazem um moitão de cordas de carregar, muitas, as que puderem trazer, e um cavanejo grande, e um chocalho. Trazem um chocalho.

Eles fizerom isso, e ele ficou ali. Já não arradou dali. Manêras que cond’ os ôtros vierom com as cordas:

–– Bom, agora, vá, tu, Alevant’ Arados. –– (alevant’ Arados, aquele que alevantou o arado com as vacas.) –– Vá Alevant’ Arados, vás tu. Tom’ ô chocalho, vás p’ra baxo, temos que ver ond’ é que ’tá o gigante...

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–– Ia pelas cordas abaixo com o chocalho...

–– Dentro do cavanejo, e o corno da vaca lá dentro, er’ a arma qu’ ele tinha er’ ô corno da vaca. E ele dentro do cavanejo e o ch’calho na mão.

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–– ... Vai p’ra baxo, em tendos medo, toc’ ó ch’calho, vens p’ra cima. Temos que descobrir ond’ é que ’stá o gigante.

O homem mete-se lá dentro do cavanejo, rapaz, inda nã tinha chigad’ aqui assim, inda nã tinha ’scondid’ o peito, “tlanca, tlanca”, o chocalho tocando...

–– Vá p’ra cima qu’ este já tem medo. –– tirou-o.

–– Bom, tem medo... Vá, agora vai o Arranca Penhêros. Vá, Arrenca Penhêros, o ch’calho, vás p’ra baxo, em tendos medo, tocas o ch’calho.

O ôtro ainda ’scondeu a cabeça assim ’ma coisinha assim p’ra dentro do buraco, “tlanca, tlanca”...

–– Vá, p’ra cima, que tem medo. Vá agora as cordas aí tudo ligado, e agora a cachamorra dentro do cavanejo, e o traçado e eu. Agora, cont’ mais ê tocar, mais p’ra baxo me vão a dêxar ir, até vocês saberem que já está em descanso, até chegar... (..)

(...) As cordas iom-s’ acabando, atavom ôtras, com ’mas pôcas de cordas de carregar p’ra baxo, ele chigou lá, viu além três portas, depois havia um corredor, foi além a uma porta,«BUU», ’ma cachêrad’ além na porta. Assim qu’ a porta s’ abre, uma moç’ além, uma princesa qu’ era mais linda qu’ havia.

–– Atão?

–– Ai! Éh, você por aqui, logo vem a minha guarda e mat’.

–– Tã quem é a sua guarda?

–– É o Gigante.

–– Áh, é o Gigante?

–– E ele cond’ vem, vem fazendo muito barulho?

–– Ai se vem fazendo muito barulho! É uma coisa má. Vem gritando “chêra-m’ a carn’ humana!” É ’ma coisa má.

–– E de que lado vem ele?

–– Vem daqui.

Pôs-s’ ali detrás da porta, com a cachamorra, cond’ chigou lá à hora d’ ele vir, vinha ele:

–– «UUUU!» Chêra-m’ a carn’humana, e a sangue real!

Vai a meter a cabeça, o ôtro volt’ aqui a cachamorra «BUU!», uma cachêrada no alto (?) da cabeça, matou o homem. Matou-o, ela prega-lh’ um salto, ficou-lh’ agarrad’ ô pescoço:

–– Já você me desencantou. –– ela ’tav’ encantada.

–– Aí ’tão mais duas ermãs minhas. –– aquela parece-me qu’ er’ à mais nova.–– ’Tão aí mais duas ermãs minhas.

Ele foi além, e él’ apois ’teve-lhe dezendo que ’tavom encantadas tamém.

–– Dêxa-te estar aqui:

Foi-s’ além à porta da ôtra, «TURUZ», (...). A ôtra disse-l’ a mesma coisa:

–– Êi, você por aqui?! Logo vem a minha guarda...

–– Tã quem éi a sua guarda?

–– A minha guarda, é o Rei do Vento.

–– Tã e em vindo vem fazendo muito barulho?

–– Óh, se vem!!! Vêm nas portas batend’ umas nas ôtras e «tuca, tuca, tuca»...

–– E de que lados vem?

–– Vem daqui.

–– Tá bém, dêxa.

Pôs-se detrás da porta, com a cachamorra, rapaz, daê nada começom nas portas «UUU; tuca, tuca, tuca, UUU». Além cond’ el’ entra que met’ a cabeça: «BUUU!», uma cachamorrada p’la cabeça... Abaxo! Matou-o logo.

–– Ôh, tá aí ôtra minh’ ermã, tamém tá encantada...–– erom três, três princesas.

Diz-lh’ ele:

–– Bom, dêxa.

Uma caquêrada na porta, ficou ôtra moça, ess’ é qu’ er’ á mais nova. Era a última. E a ôtra fez-lh’ o mesmo, cond’ ele matou o vent’, apanhô-s’ a ele tamém:

–– Já você me desencantou. Há tanto tempo que estou aqui encantada.

Dá a cachimbada na port’ á ôtra:

–– Ai, (...) vem a minha guarda e mat’ ó. (...)

–– Quem é a sua guarda?

–– Ai, a minha guarda é o Demónio. –– er’ ô Diabo. –– É o Demónio.

–– Tã e ele cond’ vem, vem fazendo muito lavarito?

–– Na senhor, ele cond’ vem vem balhand’ assim.10

(...) A cachamorra ali ô lado e o traçado, diz ele:

–– Este tem que ser d’ ôtra manêra.

(...) Pôs-s’ ali ô lado da porta, daí a bocado ele. Levant’ áqui o traçado «TURUZ!», manda-lh’ uma cacetada com o traçado, apanha-lh’ aqui ’ma orelha, cortô-lhe ’ma orelha. E ele, ó patinhas! Ele foi agarrou a orelha, meteu-a na alzebêra. Diz a ôtra:

–– Já você nos desencantou!

Diz-lhe a ela:

–– Bom, agora vão p’ra cima, primêro vai tua ermã, e vão p’ra cima. Agó’ vai ela, é a mais velha, vai primêro, e depois vai a ôtra. Ê dou sinal a eles p’ra irem p’ra cima. E depois vou eu. –– diss’ a todas. –– Agora vão vocês e depois vou eu. Ê sou o último.

Lá deu sinal p’las cordas, (...) os ôtros puxarom...

–– Éh, pá uma princesa!

Lá f’cou aquela, e diss’:

–– Oh!, ainda faltom mais duas ermãs minhas, ’tão lá mais duas ermãs.

Meterom o cavanejo p’ra bax’ ôtra vez, foi a ôtra. Saiu aquela...

–– Falt’ á ôtra.

Manêras qu’ ele diss’ á ôtra mais nova:

–– Agora, levas este traçado...

Erom três princesas e aquela disse:

–– Desencantou-me, e vocêi é qu’ é o meu marido, há-de ser o meu marido.

E ele foi e disse:

–– Não, ê na posso sair daqui. Porqu’ eles a mim nã me tirom. Agora vás tu, e depois vou eu. Mas tu vás...

Ela disse:

–– A gente, procur’ á gente na Torre do Ouro.–– qu’ era lá onde era o reinado do pai delas, lá é qu’ elas viviom e tinhom sid’ encantadas de lá.

E ele disse-lhe p’ra ela:

–– Agora vás e levas este traçado. E tu não te casas, não cases com pessoa nenhuma, sem ser com um que seja capaz d’ abrir este traçado. Porqu’ este traçado, ninguém o abre senão eu. E pode ser qu’ ê lá váia um dia ainda. E ê na poss’ ir agora, porqu’ ê se for eles matom-me. Mas agora vás tu. (...) nã te cases. Levas o traçado p’ra tua casa, não entregas a ninguém e se alguém te pedir, dizes ó tê pai, que só casas com o homem qu’ abrir o traçado.

Bom, tirarom-na além p’ra cima...

–– Tão agora falt’ ô homem. Tir’ o homem. Vamos a tirar o homem.–– deziom elas. –– Falt’ ô homem que nos desencantou.

Meterom o cesto p’ra baxo, ele mete lá a cachamorra, dê’ sinal, eles puxarom p’ra cima, el’ arradô-se p’rô lado. Eles vá de puxar, vá de puxar... Cond’ calcularom qu’ aquil’ i’ áli p’rô meio ou antes, largarom as cordas, «BOUU!» aquilo cai lá em baxo (...). É por isso qu’ ele nã foi. Os ôtros abalom dali com as princesas, –– pensarom que o matarom, qu’ ele que tinha morrido, –– elas indicarom-lhe p’r’ áond’ era, aquilo tiverom que correr muito a pé, até arrenjarem um estramporte, e depois tiverom qu’ apanhar barcos e coisas dessas, aquil’ era numa ilha muito grande, e o país aquele era cercado d’ água. E atão, eles cond’ chigarom lá ô pé do pai...

–– Olhe, desencantámos as suas filhas!

E elas:

–– Oi, os homens que nos desencantarom!

E a ôtra nã dezia nada. Calada. As ôtras deziom:

–– Pai, nós casamos é com os homens [que nos desencantaram].

E ela diss’ ô pai:

–– Pai, eu só caso com o homem qu’ abrir este traçado. Elas podem casar com os homens que desencantarom a gente, mas eu só caso com o homem que abrir este traçado.

Agora dêxamo-los lá a eles, e voltamos cá ô do buraco.

O ôtro foi p’r’ áli descobrindo, descobrindo, e aquilo havia por uma frestazinha duma rocha, duma coisa qualquer, uma talisca qu’ ali a uma certa hora, entrava lá o sol e dava lá num bocadinho de chão, e havia lá umas ervinhas, uma relvazinha, e ele descobriu aquilo e ia p’r’ áli, qu’ aquil’ era debaixo do chão. Descobriu aquilo, às tantas lá andava p’r’ áli, aparece-lh’ o tal:

–– Dá-m’ a minh’ orelha. –– qu’ ele nã se podia apresentar no Inferno com a falta da orelha. Sem apresentar a orelha, não se podi’ apresentar no Inferno.

–– Tira-me daqui p’ra fora.

–– Ah!, nã posso.

–– Se nã podes, nã levas a orelha.

No ôtro dia a mesma coisa:

–– Dá-m’ a minha orelha.

–– Tira-me daqui p’ra fora, e põe-me na Torre do Ouro. Senão não apanhas a orelha.

Bom, aquilo durou assim uns dias, até que o Demónio lhe diss’:

–– Olha, ê nã sei ond’ é que fica a Torre do Ouro, mas posso-te levar é à Casa do Pasto, que fica numa ilha. A Casa do Pasto é aquela ilha, chamom-lh’ a Casa do Pasto, qu’ é ali onde vêm a pernoitar as águias, e esses pássaros avens, quase todas essas avens que voam muito: águias, grifos e corvos e essa passarada, vai tudo, tudo, tudo lá a dormir. E ê poss’ é levar-te a essa Torre do Pasto, à Casa do Pasto. Pode ser que algum pássaro saiba ond’ é que fica a Torre do Ouro.

–– Tã vomos.

Manêras que lá o tirou dali, montô-se nele até chegar à beira mar.

–– Agora, temos que passar o mar lá p’r’ áquele lado. Amontas-t’ aqui em cima dos mês ombros –– disse-lh’ o Diabo –– e cond’ ê desser: «aqui tem o mar tantos metros de fundura», tu dizes: «arre Diabo».

Manêras que o ôtro pula-lh’ aqui p’rôs ombros, monta-se no bicho, lá foi enquant’ aquil’ ia dando péi, chegou lá mais adiante:

–– Aqui tem o mar tantos metros de fundura.

–– Arre Diabo.

Ali mais adiante:

–– Tem o mar tantos metros de fundura.

–– Arre Diabo.

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–– Mas iam nadando, ou iam pelo ar?

–– Ele ia de péi, o Diabo ia de péi.

–– Em cima do mar.

–– Andand’ entarrad’ em água. Ia de pé e com o ôtr’ aqui. 11

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Assim forom. Forom sempre dezend’ aquilo, sempre, sempre, até chigar lá àquele lado. Chegarom lá, derigirom-s’ à casa maior qu’ er’ onde tava o Rei dos Pássaros. Bradarom p’lo Rei dos Pássaros. Veio.

–– Dêxa lá qu’ ê pergunto.

O Rei das Avens ’teve perguntando, é, mas aquilo era já ali quase já ô querer-se fazer de nôte.

–– Eles já devem ter vindo todos.

’Teve perguntand’ a todos, ninguém sabia ond’ era a Torre do Ouro.

–– Olha, ninguém sabe. Mas inda falta, falta ’ma águia, qu’ é a águia mais velha, a águia mais velha qu’ exist’ aqui, é a que falta. E s’ essa nã sôbéra, atão os ôtros ninhum sabe.

Lá esperarom um bocadinho, lá veio a águia toda cansada, vinha toda cansada, diz-l’ o Rei das Avens:

–– Atão, águia, tu sabes ond’é a Torre do Ouro?

–– Ói, se seio! De lá venh’ eu. Venho de lá farta de tripas, dos festejos que lá hai. Vão-s’ a casar as filhas do rei, vão-s’ a casar com os homens qu’ as desencantarom.

Diz ele: «Ah ladrões! Quem as desencantou fui eu.» –– p’ra ele próprio.

–– Tão e tu és capaz de levar lá este homem?

–– Ó, isso vai a ser muito mau. –– tinha qu’ atravessar ôtra perna porqu’ aquilo era (...) uma perna de mar grande. –– Tem que se atravessar um bocado de mar grande, mas talvez. Vamos lá a ver s’ ê consigo.

Ele qu’ arrenje aí dois carnêros, compr’ aí dois carnêros grandes, bem grandes, e mate-os, e pendurom-mos aqui do pescoço...

E atã lá ’teve dezend’ ô homem o qu’ haviom de fazer. Ele comprou dois carnêros, atô-lh’ as patas além umas às ôtras, pendurou-os no pescoço da águia, a águia disse:

–– Leva uma navalha na mão, e em ê te dezendo: «dá-me carne», corta um pedaço de carne e mete-ma no bico ...(...)

Bom, assim foi. Forom indo, atravessand’ o mar...

–– Dá-me carne!

Ele cortava um pedaço de carne, «bumba». D’ além a ôtro pedacinho:

–– Dá-me carne!

Até que foi indo, foi indo, foi indo...

–– Dá-me carne.

–– Já não há. Olha, come aí da minha perna.

–– Dêxa lá a ver s’ ainda samos capazes d’ alcançar.

Manêras que foi, foi, foi, lá foi assim, foi a cair mesmo lá na berma já da areia, à ponta já donde dav’ á água. Vá lá ainda te salvámos.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

–– Não chegou a cortar da perna?

–– Não chigou a c’mer da perna; el’ é que disse p’ra ela espenicar d’ali da perna. Fez assim à perna: 12“com’ aí da minha perna.”

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Diz:

–– Olha, além é a Torre do Ouro.

Manêras que o (...) ia assim bem arrenjado, logo logo não o conheceu.

–– Atão é além a Torre do Ouro?

–– Éi, vão-s’ a casar as filhas do rei. As duas filhas com os homens qu’ as desencantarom. E a ôtra, na sei se casa se não. Se casar é com um marquês ô –– não sei quem não sei que mais, um qualquer qu’ andav’ à roda dela, mas ela...

–– Atã e eles nã têm cá um traçado em exposição a ver s’ alguém é capaz d’ abrir?

–– Têm além um traçado, mas ninguém... Tem ido além tanta gente. Têm vindo os reis de tod’ á parte, e marqueses e duques e ninguém foi capaz d’ o abrir, p’ra casar com a mais nova. As que se vão casar é as ôtras duas.

–– Ê vou lá.

Foi, entrou, pedi’ lecença:

–– Atã não há um traçad’ aí em exposição?

–– Há sim senhor. –– era a guarda, (...) p’ra na dêxarem entrar.

Mas ele procurou d’ ir à hora d’ a menza ’tar posta, e de estarem ali a comer ô a enregar a comer. Manêras qu’ el’ entrou:

–– Atão não há um traçado p’r’ aí assim que têm à exposição e tal?

–– Há sim senhor. –– apanhou-o.

–– Ó, ist’ é muito mau assim...

E eles ’stavom nos dois, o rei estav’ áli, e eles ’stavom nos dois assentados aqui ô lado direito do rei, os tais “que tinhom desencantado as princesas.”

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–– E não o conheciam?

–– Não o conheciom. Nem ela o conheceu.

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Manêras qu’ ele foi, foi, foi s’ aproximando dos ôtros...

–– Isto é mau. Isto deve ser mau: uma coisa destas, nunca vi isto...

Foi-s’ aproximando, aproximando, agarrou além, «ZÁS», «TURUZ», «TURUZ», cortou a cabeça dos ôtros dois, com o traçado.

Diz o rei:

–– Éh! Est’ homem está preso! Est’ homem está preso!

A filha, a mais nova, dá um salto:

–– Tá preso! Tá preso que o prendo eu! Est’ é que foi o homem que desencantou a gente. E os ôtros não o matarom porque não calharom... Tá preso! Quem o prende sou eu!

Pronto. E os ôtros dois forom p’ra debaxo do chão, e ele casô-se e ficou sendo o rei daquela nação.

 

1- Gesto de desembainhar a espada.

2- Apontava com o pinheiro como se de uma vulgar vara se tratasse.

3- Gesto de apanhar um cabo com uma só mão, levantando arado e bois com um só braço.

4- Risos do contador.

5- Risos dos ouvintes.

6- Gesto com as mãos abertas e juntas, abrindo-se progressivamente mais , à medida que se elevam descrevendo um arco, a mostrar o emergir da rocha.

7- O contador pronunciou [fikeu]. O apóstrofo dá conta apenas da omissão do “o”.

8-  O contador fez o mesmo gesto mencionado na nota 6.

9- A pausa e posterior repetição do verbo deve-se à interrupção causada pela entrada da esposa do contador, a quem este se dirige: “Senta-t’ aí hom’. Ô traz aquela cadêrinha, c’mo quêras.”

10- Gestos de mãos no ar, a produzir estalos por fricção do polegar com o indicador.

11- O gesto a indicar em cima dos ombros.

12- Gesto indicador de que o herói esticou a perna para a frente.

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