Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

António F. Lopes

A Metade de Pinto

nome: Francisca Valente Calvinho
ano de nascimento 1928
local: Vila Verde de Ficalho
freguesia: Vila Verde de Ficalho
concelho: Serpa
acervo: António Ferreira Lopes
transcrição:

Era uma vez uma ametade de pinto que estava esgravatando numa esterqueira ( como cá se chamava antigamente ) e então encontrou um papelinho que dizia assim: «Vou à do senhor rei a buscar o meu par de solas e os meus trinta mil réis.»º Diz ele:

–– Oh , que coisa tão boa! Com a falta que eu tenho de dinheiro e tenho aqui alguns sapatos rotos e vou à do senhor rei.

De maneira que lá vai ele, andando, andando, andando, andando,chegou a uma ribeira. Na ribeira estavam umas mulheres a lavar e diz-lhe a ribeira assim: (Era naquele tempo em que os animais e as ribeiras e tudo falavam.)

–– Onde é que tu vás Ametade de Pinto?

–– Eu, vou à do senhor rei a buscar o meu par de solas e os meus trinta mil réis.

–– Ah, um’ ametad’ pinto! Atão e se a gente te afogar agora aqui na ribeira?!

–– Oh , oh ; primeiro que tu me afogues a mim engulo-te eu a água toda.

Truca , truca , truca. Pôs-se a beber, e bebeu a água toda e deixou as mulheres sem água na ribeira. As mulheres coitadinhas tiveram que se ir p’ra casa sem terem a roupa lavada.

Bem, lá vai ele a andar, andar, andar mais e encontrou um lobo. Diz-lhe o lobo assim:

–– Onde é que tu vás Ametad’ Pinto?

––Vou à do senhor rei a buscar o meu par de solas e os meus trinta mil réis.

–– Ai, então e se eu agora te comer?

–– Oh , oh ! Primeiro que tu me comas, engulo-te eu a ti. –– engoliu o lobo.

Vai mais p’ra diante, mais p’ra diante, encontra uma raposa. Diz-lhe a raposa:

–– Onde é que tu vais Ametad’ Pinto?

–– Vou à do senhor rei a buscar o meu par de solas e os meus trinta mil réis.

Diz-lhe a raposa assim:

–– Áh , mas é que eu agora vou-te comer.

–– Tu? Primeiro que tu me comas a mim engulo-te eu a ti. –– truca, engoliu a raposa .

Vai mais p’ra diante, encontra uma rocha, uma pedra assim muito grande. E diz-lhe a pedra assim:

–– Olha lá, onde é que tu vás Ametad’ Pinto? Por aqui sózinho. Onde é que tu vais por aqui agora a estas horas? –– ( já era tarde).

Diz ele assim:

–– Eu, vou à do senhor rei a buscar o meu par de solas e os meus trinta mil réis.

–– Ah , ah! Mesmo agora te caio para cima e esborracho-te.

–– Oh,oh ! Primeiro que tu me esborraches a mim te engulo eu a ti. –– engoliu a pedra .

E lá vai ele andando andando andando, até que chegou à porta do senhor rei. Bateu à porta do senhor rei, veio a criada. E diz-lhe a criada assim:

–– Ai, atão o que é que tu queres, Ametad’ Pinto, a esta hora ?

–– Eu, venho a buscar o meu par de solas e os meus trinta mil réis. E o senhor rei tem que mos dar.

–– Ai, atão espera aí que eu vou a dizer ao senhor rei.

Foi lá para dentro e diz ao senhor rei:

–– Está ali à porta uma ametad’ pinto que diz que vem a buscar o par de solas e os trinta mil réis, que está escrito num papelinho que ele achou.

–– Eu, an, an ... Manda-o lá entrar e mete-o lá na cabana dos cavalos e dos burros, na cavalariça, que eles pateiam-no todo e matam-no. Ficamos livres da metade de pinto.

A criada assim fez, foi buscar a Metad’ Pinto:

–– Entra, entra, entra. Olha, ficas aqui.

Pegou nele –– aquilo também era uma ametad’ pinto que não pesava nada –– um pinto é poucochinho quanto mais uma metade –– pegou na Metad’ Pinto e pô-la lá na cavalariça. Oh ! Ele assim que lá chegou o que é que faz? Vomitou o lobo e o lobo comeu os cavalos, comeu os burros, comeu tudo quanto lá estava, quanto eram esses animais.

Bom, a criada no outro dia de manhã vai lá e diz:

–– Ai senhor rei que desgraça tão grande! Olhe, a Metade de Pinto vomitou um lobo e está lá o lobo e está a Metade de Pinto, e o lobo comeu os cavalos e comeu os burros e comeu tudo.

–– I Jasus, mãe da minh’ alma! Pega lá nele e mete-o lá na capoeira das galinhas. As galinhas não o conhecem, nem os galos, começam a picá-lo todo e matam-no.

De maneira que vai ela, pegou nele e meteu-o dentro da capoeira das galinhas. Oh, ele assim que chegou lá, quem é que ele vomitou? («Vomitou a raposa.» (crianças )) E a raposa o que faz? A raposa come as galinhas todas. No outro dia a criada:

–– Ai senhor rei, que desgraça tão grande! Ai, mas o que será isto, desde que entrou aqui esta Metad’ Pinto isto é fora do normal: vomitou uma raposa e não há lá nem uma galinha . Ó meu Deus, e agora o que é que a gente lhe faz?

–– Mete-a lá dentro do pote do mel. –– tinham um pote muito grande, cheio de mel. –– Ele morre afogado no mel; a gente fica sem mel mas deixá-lo, há aí muito mel. –– era o rei, tinha muito mel.

De maneira que vai, a criada pega nele: «truca», p’ra dentro do pote do mel. Ele chegou lá, vomitou a rocha. A rocha, a rocha partiu o pote, e ele ficou em cima da rocha cantando:

–– Cu cu ru cu , cu cu ru cu ...

Vai a criada:

–– Ai senhor rei, ele vomitou uma rocha muito grande, a rocha partiu o pote e ele está em cima da rocha cantando.

–– Ei mãe da minh’ alma, mas ainda assim o que é que entrou aqui neste palácio? Olha, pega lá nele, acende o forno, –– é claro, aquilo tinham tudo, onde coziam o pão. –– Mete-lo lá dentro do forno e ele morre lá assado.

Han, a criada acendeu o forno, pega na Metade de Pinto e mete-a lá dentro. A Metade de Pinto vomita a ribeira, e apagou o forno. Ficou a Metade de Pinto lá dentro e muita água, muita água, muita água. A criada vai lá:

–– Ai senhor rei a Metade de Pinto! Vomitou uma ribeira, porque aquilo é tanta água, tanta água, olhe, apagou o forno e ela está lá muito descansadinha, sem lhe ter acontecido nada.

–– Ei mãe da minh’alma, isto dá cabo de mim, isto dá cabo de mim; bem isto dá cabo do rei. Faz uma coisa: vás matá-lo e vás-mo fritar que eu vou comê-lo.

A criada matou a Metade de Pinto, depenou-a, fritou-a, e pô-la na mesa do senhor rei para o senhor rei a comer. O senhor rei disse:

–– Anda-te, daqui agora é que tu não te escapas, agora vou-te comer e então agora é que tu não te safas, que agora não podes fazer mais nada.

Acabou de comer a Metade de Pinto e daí a bocado quando ele começa:

–– Ai que mal disposto que estou; que me dói a minha barriga! Mas o que é isto que eu tenho?! Que mal disposto que estou.

Nem lhe deu tempo para ir à casa de banho. (Estás a perceber?)1 Fez ali no caminho as necessidades. O que é que faz? Como lhe deu aquela grande dor, vai fazer as necessidades, e sai a Metade de Pinto inteira pelo rabo do rei. Condo a Metade de Pinto diz assim:

–– Ah ah! Cu cu ru cu, que eu já vi El rei por o cu!

Diz ele assim p’rá criada:

–– Eh, dá-lhe lá já os trinta mil réis e o par de solas e manda-o embora que eu já não o quero ver. Pronto, e o conto acabou-se, e ele lá foi, e ele lá foi com as meias solas e os trinta mil réis. Pronto e o rei lá ficou. Era muito esperto mas ele venceu o rei.

E a esta hora lá estarão comendo pão com “jimão” e arroz com cação.

 

1 - Para uma menina da assistência.

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