Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

António F. Lopes

O Menino Baguinho de Milho

nome: Maria das Pazes Soares Valente
ano de nascimento: 1929
local: Vila Verde de Ficalho
freguesia: Vila Verde de Ficalho
concelho: Serpa
acervo: António Ferreira Lopes
transcrição:

Era uma vez... ... e depois a mulher tinha muito desgosto de nã ter filhos e depois dezi’ ássim:

–– Ai não queria senão ter um menino ’indas que fosse tamanho dum baguinho de milho.

Bom, a mulher, daê nada:

–– Ai, na queria senão ter um menino, ’indas que fosse tamanho dum baguinho de milho.

Foi, a mulher tev’ um menino tamanho dum baguinho de milho. Opois o pai com um filho, muito contente porqu’ era tamanho dum baguinho de milho mas estavom contentes. E o pai foi à fêra e trouxe-lhe uns safanitos, trouxe-lh’ um pelico e trouxe-lh’ um coisinho, um coiso p’rá cabeça (um coiso nã é nada), um gorrinho p’rá cabeça, p’ra el’ ir lá p’rá horta –– tinhom uma horta, e tinhom lá coisas semeadas, tinhom couves, tinhom hortaliças, tinhom... — e el’ ia lá p’rá horta a gôrdar os bois...

O rapazinho, uma manhã foi e havia muito frio, muito frio, e levou o gorro, e levou o pelico, levou os safões, levou tudo lá p’rá horta e foi p’ra lá. E depois havia tanto frio, tanto frio e o rapazinho meteu-se dentro duma couve p’ra tapar ... p’ra não ter frio.

Foi e er’ o boi, e o boi chamava-se o Boi Carrapato, e o boi foi comendo, foi comendo, foi comendo, chigou ali à couve, comeu a couve, e o rapazinho, comeu-o; comeu o rapazinho, e era já de noite e o rapazinho sem vir.

–– Ai e agora na vem, e agora na vem...

O pai pôs-se cá:

–– Ó Antonico, ó Antonico!

–– Ó pai, mat’ o nosso boi Carrapato que já lhe rendeu mais de quatro.

–– Ai o rapaz está na barriga do boi!...

Foi, otra vez:

–– Ó Antonico! Ó Antonico!

–– Ó pai, mat’ o nosso boi Carrapato que já lhe rendeu mais de quatro.

Foi, o homem veio cá a casa e disse:

–– Olha, o nosso menino tá dentro da barriga do boi.

–– Ai, e agora?

Bom, forom a chamar a vezinhança e levarom coisas: facas e garfos p’ra matarem o boi, chigarom lá, matarom o boi, abrirom-no e tirarom o rapazinho. Tirarom o rapazinho cá p’ra fora e veio tudo muito contente e fizerom uma festa muito grande, e trouxerom a música, e ele ficou o povo em festa por causa do rapazinho. (...) a procissão e tudo muito engraçado.... e eu acho que aqui qu’ acabou...1

 

1- Risos.

 

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