Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

António F. Lopes

O Touro

nome: Manuel Henrique Gorducho dos Santos
ano de nascimento: 1958
local: Sobral da Adiça
freguesia: Sobral da Adiça
concelho: Moura
acervo: António Ferreira Lopes
transcrição:

Era uma vez um casal que foi p’ra uma propriadade onde estavom touros bravos. Forom p’ra lá de casêros, e há um’ altura em que nasce um rapaz desse casal, e tamém era muito, gostava muito tamém dos tôros e daquela coisada toda... Portanto, há uma trovoada, e o pai desse miúdo diz:

— Tenh’ qu’ ir a dar volta assim ôs tôros e às vacas e isso...

Chega lá, –– e o pequeno foi com o pai. –– chega lá e ’tava uma vaca..., tinha uma vaca tid’ um bezerro. Mas na trovoada, cai um p’rigo e mat’ á vaca. Mat’ á vaca, fic’ ô bezerro.

Portant’ o bezerro trouxerom-no p’rô monte, tentarom criá-lo a leite e criarom-no. Criarom-no a leite, portant’ o bezerro tornou-se praticamente manso mas na parte do, das pessoas qu’ o tratavom. Portanto p’rás outras pessoas, era tal e qual um tôro mê’m’ qu’ ôs ôtros –– bravo, tinha uma bravura terrível. O rapaz começav’ á brincar com ele já ali na rua do mont’ e tal, com uns panos assim a meter-lhe p’la frente em tipo de capa, e o tôro levava tudo p’la frente.

Até qu’ o tôro chegou a um’ altura que foi adulto, e foi tentado. Foi à tenta, foi tentado, foi o tôro que melhores provas deu de bravura. Entretanto o tôro voltou ôtra vez p’rá manada, e o miúdo mesmo de noite i’ á ver o tôro, andava sempre lá com o tôro.

Há um’ altura em que vai a vê-lo e faz-se–le de noite e já nã consegue voltar a tempos p’ra evitar um ataque dum…, dum leopardo. O leopard’ atacou-o, ele tenta subir p’ra cima duma árvore, entretanto o tôro apercebe-se daquilo, e vai ajudá-lo. O tôro fica todo arranhado porque é um leopardo n’ éi? O tôro fica tod’ arranhado, mas enveste com o leopardo e acaba por o matar. Pronto, o moço volta p’ô monte, cont’ ôs pais o que se tinha passado e tal, e começ’ á ter pronto muita feiçã’ pelo tôro, gostava muito do tôro.

Entretanto, o tôro, chegou a altura dele de ser vendido, e teve que ser vendido, entretanto com os ôtros. O rapaz chora muito, chora muito, e que nã qu’ria de maneira nenhuma, e o pai fêzi-o ver:

–– Ó filho não éi... ... Ó filho nã pode ser e tal, porque os tôros nã sã nossos…

Portanto, pronto fez ver o filho que o tôro que na era dele, mas o miúdo nã se conformava de manêra nenhuma.

Pronto, chegou a altura, veio uma camioneta, carregarom os tôros, e os tôros forom caminho da praça, lá p’a sê’ tôreados.

Entretanto, saiu o primêro e o segundo, (e ele, o miúdo quando, portanto quand’ os tôros forom, ele tentou... Havia um portão, havia um portão assim à saída da quinta e ele pôs-s’ em cima do arco do portão, e pulou p’ra dentro do curro com o tôro e foi com o tôro. Foi com o tôro, quando chegou lá ô destino ond’ os tôros erom tôreados, saiu. Saiu e f’cou dent’ da praça. F’cou ali, pronto...) Saiu o pr’mê tôro, saiu o segundo e depois foi anunciado:

–– Atenção, vai sair um tôro muito bravo, e tal, que se lhe dá p’lo nome de Cigano. –– o tõro tinha o nome de cigano porque nasceu numa noite de trovoada e tal, pronto.

O tôro levava tudo p’la frente e mais alguma coisa. Mandou logo o tôrero p’ô hospital; o cavalo, debulhou o cavalo todo, bem... Já nã’ conseguiom de manêra nenhuma, o tôro ser tôreado, o qu’ é que se dá? Chamom uma, uma força policial, na éi, p’ra matar o tôro. E ali quando vão a matar já o tôro, ele pula p’a dentro da praça, e assim qu’ ele pula p’a dent’ da praça, as pessoas começou tud’ a gritar pensand’ qu’ o tôro qu’ ia mesm’ a matar o moço, começou tud’ a gritar, a gritar; o tôro arrenca direit’ a ele mesmo p’ra investir mesm’ ô máximo, e cheg’ áli, e cond’ chega que reconhece o miúdo, ficou queto. Ficou, ficou-lh’ acoçando, o moço assim acoçando a testa, e el’ a lembê-lo, o moço e tal, pronto.

Depois já, já ele começou a chorar p’ra nã matarem o tôro, e o tôro já nã foi morto. Perdoarom a mort’ ô toro.

O tôro voltou p’ra, precisamente p’rá mesma propriadade, e ficou em semental, e já nã foi morto. E o rapaz f’cou muit’ agradecido àquelas pessoas que lhe perdoarom o ... E assim foi a história.

 

 

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