Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Cantar e o Grupo

  • Agostinho Miranda Alfaia
  • Data de Nascimento: 1963
  • Residência: Portalegre (Freguesia de São Lourenço)
  • Actividade profissional: Comercial.
  • Função no Grupo de Cantares: Cantor e músico.
  • Entrevista: 2010/2/11_ Portalegre_Sede do Grupo de Cantares

"É uma experiência que vem logo do espaço uterino, não é? Porque realmente lembro-me de (e como isso me tocava), de ouvir a minha mãe a cantar, enquanto passava a ferro. Ela cantava… Lembro-me de alguns passos, lembro-me de ouvir:

“O xaile da minha mãe…”

[trauteia O xaile da minha mãe, fado, interpretado por Amália Rodrigues].

Aquele timbre, aquela maneira dela cantar, ficou-me para sempre gravado

A partir daí, depois há a questão que marca aqui a nossa zona que é o aparecimento do Paco Bandeira, não é? Acho que é um marco aqui… E aí, nessa altura, podemos lembrar-nos dos bailes que se faziam aqui – dos grupos que vinham aqui fazer as apresentações e fazer o baile. [Risos]. Aqui mesmo, também nesta rua. E acho que, em termos de cantigas, não podemos contornar esse aspecto, pelo menos na experiência que me diz respeito.

E lembro-me:

Eu nasci no Alentejo

À beira do Guadiana

Sinto orgulho quando vejo

A paisagem Alentejana!

 

Ó Elvas, ó Elvas

Badajoz à vista.

Sou contrabandista

De amor e saudade

Transporto no peito

A minha cidade.”

[A Minha Cidade (Ó Elvas) – Paco Bandeira]

Acho que isso é incontornável. Tanto que depois fiz um conjunto mais um amigo meu que era o Fernando Elvas e nós recriávamos o baile da rua em espaços mais pequeninos, no nosso quintal. E recriávamos essa situação, marcávamos o espaço do baile [risos] e com um tambor ou dois… E eu lembro-me de estar com o género de uma bateria e que até a maçaneta tocava naquele bombo que está no pé – era uma lata de sardinhas com a tampa perfeitamente improvisada – que se fazia: tum, tum, tum, que era… Lembro-me desse… E eu cantava. Nessa altura era, lembro-me de fazer isto:

Receba as flores que eu lhe dou

Em cada flor um beijo meu.”

[A Namorada que sonhei – Composição Osmar Navarro, Interpretação: Nilton César].

E o meu amigo Fernando fazia: “uauau”. [Risos].

Depois aqui na escola. Lembro-me aqui na escola, a primeira vez que cantei assim foi um bocadinho antes disso, porque terá sido por altura dos meus sete anos. Na Primária, logo na primeira classe, e que acho que a primeira apresentação que fiz a cantar, embora dentro das minhas limitações. [Risos]. Foi aqui naquele estradozinho que aqui está. Ali, aquele palcozinho ali. Cantei uma coisa que já me tentei recordar, era: “Quem tem uma mãe tem tudo e quem não tem mãe não tem nada”… Eu tinha ouvido isso dum coral alentejano (e a professora, a proposta que tinha feito, para nós cantarmos aí) o que me ocorreu (e aquilo que também já da ligação que tinha de ouvir a voz da minha mãe), aquele poema tocou-me e cantei aquilo. Acho que não cantei nada bem, porque a professora depois disse-me assim: “– ah! Devias ter cantado mas era ou Paco Bandeira ou Carlos Mendes ou isso” – que cantava, já andava a ouvir umas coisas dessas assim.

Depois disso eu continuei a ter gosto pelas cantigas sempre. E na Escola Secundária comecei então a reproduzir, de alguma forma, as cantigas do Carlos Mendes já. E lembro-me que os meus amigos da Escola Secundária, um bocado provocado também pelos professores (essencialmente pelo Professor Adriano Capote), eles gostavam de ouvir aquilo e dizia:

“Lisboa tem um vestido azul feito de mar e guerra.

E cheira a laranjas maduras.

Quando as gaivotas trazem no bico
os primeiros pedaços de sol para
acender o dia, Lisboa deixa correr
os cabelos pelo Tejo e o Povo pelas ruas.

[Amor Combate, Joaquim Pessoa]

Mas e depois cantava… E depois cantava essa cantiga:

"Chamar-te a ti, Lisboa, camarada,
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.

[Quinta canção, Joaquim Pessoa, cantado por Carlos Mendes.]

Bom, na altura, reproduzia muito bem! [Risos]. De alguma forma, os professores gostavam. E dizia os poemas, também nessa altura, também sempre gostei. E, enfim, foi uma fase da Escola Secundária. Lembro-me também de ter, numa ocasião, numa festa da escola, de ir lá dizer esse poema – “Vem por aqui” – o Cântico Negro do José Régio

Para chegar ao futebol. Porque jogava futebol, desde também de muito novo, e também comecei aqui neste espaço da escola a jogar futebol. E consegui chegar ao Desportivo Portalegrense! [Risos.] Das escolas do futebol e depois cheguei aos Seniores – um jogador ruim! Mas a verdade é que ainda joguei e fui treinador de miúdos. Ainda ajudei a criar aí uma escolinha dos miúdos, na altura, de futebol.

E cantava no balneário. Aí já cantava Zeca Afonso:

“ Não há machado que corte
a raiz ao pensamento.”

[Livre. Texto: Carlos Oliveira]

E outras coisas de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira.

“Eu fui ver a minha amada lá…”

No balneário! Com um amigo ou dois. Recordo-me do Betinho, que era também (aí o Betinho que era o Costa), baixista aí num conjunto, mas também jogava à bola! Atão, provocávamo-nos muito um ao outro para cantarmos lá no balneário… [Risos] … E saiam essas cantigas.

“Eu fui ver a minha amada
lá prós lados de um jardim

Eu fui ver a minha amada…” E era.

[Cantigas Do Maio (eu Fui Ver A Minha Amada), José Afonso]

Havia, no Desportivo, o massagista. Na altura, era o Sr. José Tomás, que já andava no Grupo de Cantares, pelo menos… E ele: “– É pá! Olha lá! Nós estamos a criar um grupo de cantares, de música tradicional, para recriarmos, enfim, a música tradicional da nossa região…” – E tal… – “E, por isso,... tu não queres lá ir experimentar? – E tal… E foi assim!

Para aí ’82, ’82 talvez, '82 salvo erro. Fui experimentar e digamos que era o realizar, era o poder pôr em prática, todo esse gosto pelas cantigas."

 

 

 

 

 

 

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