Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

A filha varão

nome:
Mariana dos Santos Pacheco (Mariana Bicho)
ano nascimento:
1938
freguesia: Salvada
concelho:
Beja                                           
distrito:
Beja
data de recolha: Outubro 2010
 
 

Dados de inventário
  • A filha varão
  • Beja

    “A filha varão”- Um rei não têm filhos. Sua filha mais nova disfarça-se de homem e peleja durante sete anos na guerra. À excepção do filho de uma capitão, ninguém desconfia que ela é mulher, mas este homem não desiste de tentar saber a verdade porque acha que o “barão” tem olhos de mulher…

    Mariana Bicho; Salvada; Ano de nascimento: 1938; Concelho de Beja.

    Registo 2010.

Transcrição
  • [A filha varão]

     

     

    Ai, de mim, que já estou velho, e as guerras me vencerão,

    sete filhas que aqui tenho, sem nenhuma ser barão.

    Respondeu logo a mais nova, com tamanha descreção(5).

    – Venham armas e cavalos, que aqui ‘tá(6) se’(7) filho varão.

    – Filha, tens os pés pequenos, a conhecer-te vão.

    – Meteríamos umas botas, que de lá na’ sairão.

    – Filha, tens as mão pequenas, a  conhecer[-te vão].

    – Meterias numas luvas, que de lá não sairão.

    Filha, tens os peitos grandes, a conhecer-te vão!

    – Meteria num espartilho, que de lá não sairão.

    Filha, tens os olhos ramudos(9), a conhecer-te vão.

    – Quando olharem para mim, inclinarei-os prò(10) chão.

     

    E lá abalou prà guerra! Montada num cavalo.

    Mas havia um, que era o filho do capitão, que dizia que ela que era mulher e homem não! E atão ia prà mãe, dizia-le(11) assim:

     

    Ó minha mãe, minha mãe, minha mãe do coração,

    os olhos de Dom Barão são de mulher, de homem não.

    – Convida-o tu, ó me’ filho, para contigo jantar,

    se for mulher, homem não, que se há-de envergonhar.

    – Convida-o tu, ó me’ filho, para contigo jantar,

    se for mulher, homem não, o pão ao pe’to(12) há-de arrumar.

    Mas Dom Barão, como esperto, o pão ao peito na’ arrumou,

    sem o ficar o conhecer, pà(13) sua guerra voltou.

    – Ai minha mãe, minha mãe, minha mãe do coração,

    os olhos de Dom Barão são de mulher, de homem não.

    – Convida-o tu, ó me’ filho, para contigo ir à feira,

    se for mulher, homem não, eleva-se na[s] fitas vermelhas

    – Pràs senhoras se enfeitarem, lindas espadas e grilhões

    para na guerra brilhar.

    – Ai minha mãe, minha mãe, minha mãe do coração,

    os olhos de Dom Barão são de mulher, de homem não.

    Convida-o tu, ó me’ filho, para contigo dormir,

    se for mulher, homem não, de ti se há-de encobrir.

    Mas Dom Barão, como esperto, à frente se foi deitar,

    pondo um lenço ao meio, na’ se puderam arrumar.

    – Mãe! Ó minha mãe, minha mãe, minha mãe do coração.

    os olhos de Dom Barão são de mulher, de homem não.

    – Convida-o tu, ó me’ filho, para contigo nadar,

    se for mulher, homem não, de ti se há-de envergonhar.

     

    Depois, quando foi pra ir nadar, puxa por um lencinho e na’ foi prò banho, pois com certeza! Na’ foi prò banho e ele disse:

     

    Que tens ó Dom Barão, que ‘tás tão triste a chorar?!

    – Os sinos da minha aldeia, que soam aí a dobrar…,

    o me’ pai que já morreu, e a minha mãe ‘tá a falecer.

    E atão, se me queres saber quem eu sou…

     

    Nessa altura declarou-se. E atão abalaram os dois. Chegou à mãe, disse:

     

    Ó minha mãe, minha mãe, uma coisa lhe vou contar,

    trago um marido para mim, e um genro para lhe dar. – [Risos].

    Sete anos andei na guerra, na guerra de Mavinhão,

    ninguém ficou sabendo se era mulher, homem não,

    senão o filho do capitão.

     

    – Pois, ele na’ a deixava! Via que nos olhos dela que era mulher e não homem.»

    Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010

     

    Glossário:

    (1) Prà – para a (contração da preposição pra com o artigo ou pronome a; uso popular e coloquial).

    (2) Atãoentão, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial.

    (3) Na’ – não (houve supressão da acentuação e do o para reproduzir pronúncia popular, uso coloquial).

    (4) Me’ – meu (supressão da vogal u para reprodução da pronúncia, uso coloquial).

    (5) Descreção – discrição (relato, enumeração).

    (6) ‘Tá – está (pronúncia popular do verbo “estar” conjugado, uso coloquial).

    (7) Se’seu (houve supressão do u para reprodução de pronúncia, uso coloquial).

    (8) Pra – para (redução da preposição “para”, sua forma sincopada,usadano registo popular, informal).

    (9) Ramudos – densos (sugestão: pestanudos).

    (10) Prò – para o (contração da preposição pra com o artigo ou pronome o; uso popular e coloquial).

    (11) Le – ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).

    (12) Pe’to – peito (houve supressão do i para reproduzir a pronúncia popular).

    (13) – para a (forma sincopada de prà – contração da preposição pra com o artigo ou pronome a –, uso popular e coloquial).

    (14) Nisto e naquilo – nestas e em outras coisas, neste caso específico.

    (15) À da – ir à casa de alguém (aqui refere-se à casa da mãe). Expressão recorrente no Alentejo.

    (16) Ma’ – mas (houve supressão do s para reprodução de pronúncia, uso coloquial).

    Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:

    Barreiros, Fernando Braga. (1917). Vocabulário barrosão. Revista Lusitana, Volume XX, Lisboa: Livraria Clássica Editora, Lisboa. p. 141.

    Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares do Alentejo. Porto: Campo das Letras p.38.

    Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.

    Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.

    http://aulete.uol.com.br;http://michaelis.uol.com.br;

    http://motoxaparros.webs.com/comodizquedisse.htm;

    http://www.ciberduvidas.com;http://www.infopedia.pt; http://www.priberam.pt

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

Caracterização
  • Romance: A Donzela Guerreira

     

     

    Classificação: Isabel Cardigos (CEAO/Universidade do Algarve) em Setembro de 2011

    Fonte da classificação: Aliete Galhoz em Idália Farinho Custódio, Maria Aliete Farinho Galhoz, Isabel Cardigos, Orações : Património Oral do Concelho de Loulé, vol. III, Loulé, 2008, CM Loulé, pp. 82-89.

Identificação
  • A filha varão
  • Mariana Bicho
  • 1938
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Junta de Freguesia da Salvada através da Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Actualmente sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja.
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias que participam em iniciativas do Município de Beja. São convidados na iniciativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • transcrição Filomena Sousa e glossário Maria de Lurdes Sousa
Arquivo
  • 10/23:14 - 25:40
  • 1/Beja2011/Beja1

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