Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

As 3 filhas

nome:
Mariana dos Santos Pacheco (Mariana Bicho)
ano nascimento:
1938
freguesia: Salvada
concelho:
Beja                                           
distrito:
Beja
data de recolha: Outubro 2010
 
 

Dados de inventário
  • As 3 filhas
  • Beja

    “As 3 filhas”-Três moças não saem de casa e não falam com ninguém por imposição da mãe. Existe uma razão…

    Mariana Bicho; Salvada; Ano de nascimento: 1938; Concelho de Beja.

    Registo 2010.

Transcrição
  • [As três filhas]

     

    «Havia uma mãe… Também que era môral(1). Os môrais tinham boas coisas. (…) Era um casal – viviam num monte(2) e a mãe tinha três filhas. Aquela (…) senhora tinha três filhas. (…) Mas as moças na’(3) apareciam à rua… (…)

    *Mas e(?) assim*(?):

    - Mas eu parece que ela tem três filhas e ná’(3) aparecem à rua?! - Vi a velha lá lavando num poço, disse assim:

    - Eu vou-le(4) bater à porta!

     

    Bateu. Vê uma! (…) Bateu à porta e ele disse-lhe assim:

    - Olhe menina, fazia favor, dava-me uma gotinha de água?

     

    Ela nunca le disse nada! Voltou pa’(5) dentro foi buscar. Foi buscar uma pucarinha(6) (…) em barro (…) e deu-le a água. Ma’(7) na’ lhe disse nada!

    Que é que ele faz? Deixou cair a pucarinha! [Risos]. Quando ela vai, diz assim:

    - Ai! Patiu-se a putarinha!

     

    Responde a outra:

    -Patissa na’ atissa, a nossa mãe na’ disse que na’ falassi(8)?

     

    Responde a outa:

    - Eu ‘tou cá atás(9) da pota(10), a pota, afiando a roca, a roca, sem dizer nada a ninguém! [Risos].»

     

    Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010

    Glossário:

    (1) Môral – moiral («contracção de maioral «principal pastor do gado. No ms. 1º. acha-se escrito moural. Num doc. do sec. XIII, publicado pelo snr. Gabriel Pereira nos seus Doc. da cidade de Evora, lê-se mayoral de gaados (pag.28).» Vasconcelos, J. Leite de. (1890-1892). Dialectos alentejanos. Revista Lusitana. Volume II, Livraria Portuense, pp.22-23).

    (2) Monteregionalismo do Alentejo - «Cada herdade, com raríssimas excepções, contém uma casa ou edifício denominado monte - talvez por ser construído sempre no alto duma colina ou ondulação do terreno, - no qual, além da parte destinada à habitação do proprietário e do seu feitor, ou guardas, existem os celeiros, as arrecadações da ucharia ou dos aparelhos agrícolas, as cavalariças, o forno, a abegoaria, etc. Em algumas herdades há, ainda, outras casas, alugadas aos jornaleiros ou criados da lavoura, designados então por caseiros, - termo de sentido bem diverso do que lhe compete ao norte do Tejo, onde significa feitor.» Gonçalves:1921: 128-129).

    (3) Na’/ná’ – não.

    (4) -Le – ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).

    (5) Pa’ “para” (em próclise, usadode modo informal e coloquial).

    (6) Pucarinha – «vasos para beber água ou para a tirar do pote; têem uma só asa, (…) e sempre de barro,» Viana, (1888-1889: 216).

    (7) Ma’ – mas.

    (8) Falassi – falasse.

    (9) Atás – atrás.

    (10) Pota – Porta.

     

    Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:

    Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares doAlentejo. Porto: Campo das Letras. p.128.

    Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254

    Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.

    Chaves, Luís. (1916).Folclore de S.ta Vitória do Ameixial. Volume XIX. Lisboa: Livraria Clássica Editora, p.320.

    Gonçalves, Luís da Cunha. (1921). A vida Rural do Alentejo. Breve estudo léxico-etnográfico. II - O regime da propriedade rural. A terra e a habitação. O lar e a alimentação. Sistema usual de explorar a terra. Os salariados e os salários. Horário do trabalho rural (pp.128-136). Academia das Sciencias de Lisboa. (1926). Boletim da Classe de Letras (Antigo Boletim da Segunda Classe). Actas e Pareceres Estudos, Documentos e Notícias. Volume XV. 1920-1921. Coimbra: Imprensa da Universidade (p.128-129).

    Nunes, José Joaquim. (1902). Dialectos Algarvios (Lingoagem do várlavento)(Conclusão). Revista Lusitana: Arquivo de Estudos Filológicos e Etnológicos Relativos a Portugal, (1ª Série), Volume VII, Lisboa: Antiga Casa Bertrand.  pp. 250.

    Pires, A. Tomás. (1907). Vocabulário alentejano. Revista Lusitana. Volume X, Lisboa: Imprensa Nacional, p.96.

    Vasconcelos, J. Leite de. (1890-1892). Dialectos alentejanos. Revista Lusitana. Volume II, Livraria Portuense, pp.22-23).

    Viana, Gonçalves. (1888-1889). Matrizes para o estudo dos dialectos portugueses. Revista Lusitana. Volume I. Livraria Portuense, p. 216.

    http://www.infopedia.pt; http://www.mirandadodouro.com/dicionario.

     

     

     

     

Caracterização
  • Conto Jocoso: Ciclo “Em Busca de um Marido”: Tipo 1457, As Manas Tartamudas (The Lisping Maiden).

     

    Classificação: Isabel Cardigos (CEAO/Universidade do Algarve) em Setembro de 2011

    Fonte da classificação: Isabel Cardigos, Paulo Correia, J. J. Dias Marques, Catalogue of Portuguese Folktales, “F.F. Communications nº 291 “ Academia Scientiarum Fennica, Helsínquia, 2006.Elaborado a partir dos catálogos internacionais, nomeadamente o “Aarne-Thompson” (The Types of the Folktales, “F.F.C. nº 184, Helsínquia1961) e a recente reformulação de Hans-Jörg Uther, The Types of International Folktales: A Classification and Bibliography, “F.F.C. 284-286”, Helsínquia 2004.

Identificação
  • As 3 filhas
  • Mariana Bicho
  • 1938
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Junta de Freguesia da Salvada através da Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Actualmente sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja.
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias que participam em iniciativas do Município de Beja. São convidados na iniciativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa
Arquivo
  • 11/28:30 - 30:00
  • 1/Beja2011/Beja2

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