Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

O espírito mau no morro

nome:
Tia Desterra
ano nascimento:
 
freguesia: Póvoa de Varzim
concelho:
Póvoa de Varzim
distrito:
Porto
data de recolha: 2007
 
 

Dados de inventário
  • O espírito no monte
  • Póvoa de Varzim

    "O espírito no monte" - Relato do encontro de três irmãs com um espírito no cimo de um monte.

    Ti Desterra, Póvoa de Varzim, Registo 2007

Transcrição
  • O espírito no monte

     

    Mas naquele monte… Estou-me a lembrar duma coisa naquele monte… Era eu, a minha irmã Maria e a minha irmã Mila, todas três. Mas eu era muito pequenina. Mas eu gostava sempre de andar atrás. Eu gostava sempre. E aquilo era, da Póvoa a Crestelo, às casas, eram três horas a andar. Mas eu gostava de andar. Gostava de ir com elas. E a minha mãe diz assim:

    - Mariazinha… -que era a minha irmã. -Mariazinha! -a outra chamava-se Maria Emília. Ide a casa de fulano e sicrano, ide levar isto, filha. -qualquer encomenda que a minha mãe tinha. -Ide, filha, que já trazeis para a ceia. Assim já trazeis para a noite.

    Ia levar aquilo aos lavradores, os lavradores davam sempre pão, batata… davam sempre alguma coisa. E depois sabiam que a minha mãe não ia vender, porque não havia peixe, ainda mais pena tinham.

    O meu irmão, que era abaixo de mim, também queria vir connosco. Mas as minhas irmãs, como ele era mais pequeno, tinha três anos a menos que eu… Faz uma pequena ideia o que era, uma criancinha.

    - Não, tu não vens, tu não vens, tu não vens.

    E ele chorou muito. Gritava:

    - Eu quero ir, eu quero ir!

    Teve que ser o meu falecido pai:

    - Aqui já!

    E o meu pai também não me queria deixar ir a mim, mas eu disse:

    - Pai, deixe-me ir…

    Amarrei-me à minha irmã, à Maria:

    - Maria, deixa-me ir, eu quero ir…

    E a minha irmã:

    - Ó paizinho, deixe vir a ‘terra, deixe vir.

    E fomos. Ou que as minhas irmãs fossem impressionadas por os rapazes gritar tanto… Sei que chegámos àquele monte e vimos um menino tal e qual como o meu irmão. Tal e qual como o meu irmão: a roupa do meu irmão, tudo. E então chamava por a minha irmã Mila.

    - Mila! Mila! Anda-me buscar, Mila!

    E ficámos ali todas três, que nem andávamos para trás, nem andávamos para a frente. Ficámos ali todas três… E eu era a mais pequena, não é? Nem sequer pensei em nada e disse:

    - Ai, eu vou buscar o Domingos. Vou buscar o nosso Domingos! -chama-se Domingos. -Vou buscar o nosso Domingos.

    E a minha irmã Maria:

    - Não é o nosso Domingos, Terra, não é o nosso Domingos! Não é o nosso Domingos, Terra, não pode ser o nosso Domingos! Então tanto caminho, se fosse o nosso Domingos já estava à nossa beira? Não é o nosso Domingos!

    E era um redemoinho de poeira, um redemoinho de vento…Aquele pó, aquilo é tudo… Era um monte mas tinha assim terra! Aquele pó de volta, de volta, de volta, de volta, de volta… E nós agora, podemos andar? Nós não podíamos andar. A minha irmã Maria, a mais velhinha, não é, mais velha do que nós, começou então a chorar. A chorar muito, a chorar! E começou a rezar. A rezar, a rezar, a dizer o credo…Dizia para nós:

    - Rezai!

    E a gente podia rezar, o quê? A gente podia abrir a boca? E ela dizia assim:

    - Em pensamento! Na vossa cabeça! Rezai o credo na vossa cabeça, que para Deus é tudo válido!

    E nós a rezarmos e a minha Maria:

    - Benzei-vos muito! Vós benzei-vos a fazer o sinal da cruz!

    E eu, quase que nem podia fazer o sinal da cruz… Estivemos ali, sem exagerar, uns dez minutos, uns quinze minutos. Nem para trás, nem para a frente.

    Nisto chega um senhor, que era moleiro, com a burra e com os saquinhos da farinha. E veio. Nós… Faz uma pequena ideia como nós estávamos, não é?

    - Que foi, poveiras? Que foi, meninas? -parece que estou a ver o Tio Zé. -Que foi, meninas?

    A minha irmã Maria a chorar, as lágrimas:

    - Ó Tio Zé…

    - Ó meninas, vinde embora. Vinde, meninas, vinde embora. Ó meio-dia, porque é que subiste o monte nesta hora, meninas? Vinde embora, meninas.

    Eles conheciam todos as histórias! Nós é que não conhecíamos, está-me a compreender? Portanto, diz que não havia coiso? Havia. Diz que é mentira! Hoje, os meus filhos assim:

    - Ó mãe, porque é que hoje não aparece?

    Já lhes tenho explicado: hoje ainda aparece, mas não aparece à luz do dia, que não pode aparecer à luz do dia. Hoje é como já lhe dissemos e voltamos a repetir: faz-se muitos sufrágios[1], faz-se muitas coisas para que as almas sosseguem mais, ao menos, e que não seja à vista dos nossos olhos. Então, estamos no século XXI, ainda as almas vinham para aqui fazer penitência? Isso assim era um escândalo, não é? Isso era um escândalo, não é? Mas que ainda há certas coisas, ainda há. Mas… Deixamos passar.

     

     


    [1] Preces para sufragar a alma dos mortos.

     

Caracterização
Identificação
  • O espírito no monte
  • Ti Desterra
  • Actividade piscatória - comércio
Contexto de produção
  • Comunidade piscatória
Contexto territorial
  • Póvoa de Varzim, Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim.
Contexto temporal
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Actividades promovidas pelo Município da Póvoa de Varzim, Biblioteca Municipal e Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim.

    Comunidade piscatória  da Póvoa de Varzim

Equipa responsável
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • Ana Sofia Paiva
Arquivo
  • 73/49:53 - 54:30
  • 1/P. de Varzim2012/P. de Varzim73

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