Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Dados de inventário
  • História das laranjas
  • Serpa

    “História das laranjas”- Uma intervenção milagrosa da Virgem Maria devolve a vida a um menino morto pela sua mãe cruel.

    Mariana Valente; Vila Verde de Ficalho; Concelho de Serpa.

    Registo 2006.

Transcrição
  • História das laranjas

     

    Era uma mãe que tinha dois filhos: um menino e uma menina. A menina chamava-se Periquita e o menino Periquito. E a mãe era muito má! E um dia disse-lhes assim:

    Olhem lá filhos, vocês vão a fazer um recado à mãe. Mas esse que chegar cá primeiro, eu dou-lhe uma coisinha! Um vai ao azeite e outro vai ao vinagre.

     

    Foi. Eles foram fazer o recado à mãe. Foram os dois a correr, coitadinhos! Foram os dois a fugir.

    E quem havia de vir primeiro foi o menino. A mãe era muito má (e o pai andava trabalhando) e ela o que fez? Matou o menino e fez comida pra mandar ao marido. E quem havia de levar a comida ao marido? Foi a menina quando chegou.

    Periquita – E o nosso Periquito?

    Mãe – Ora, o nosso Periquito ainda não veio. Tu é que agora vais levar o almoço ao pai. Mas não destapes a panela! Não destapes a panela!

    Ela foi. Quando ia no caminho pensou: “a minha mãe disse que não destapasse a panela?! Mas eu vou-a destapar!”. Foi destapar e viu umas manitas(1) de alguém ao de cima. E conheceu que eram as manitas do irmão. Começou a chorar, a chorar, chorar… Ali, sentada ao pé da panela, a chorar.

    Apareceu uma velhota.

    Velhota – Porque é que é que tu choras, menina?

     

    Periquita – Oh! Porque minha mãe mandou-me a mim ao azeite e o meu manito(2) ao vinagre e ao que chegasse primeiro dava-lhe uma coisinha. E agora, a minha mãe o que fez? Matou o meu irmão. E tenho aqui a comida feita pra meu pai comer!

    A velhota disse-lhe assim:

    Olha, na’ tenhas medo. Eu sou Nossa Senhora(3). E atão(4) tu agora vais, e chegas lá, não comes! Se o teu pai te disser para comeres, tu não comes! Dizes que na’ queres. E os ossinhos todos que o teu pai deixar, tu apanha-los todos, guarda-los e depois deixa… Quando chegares a casa… Tu não tens lá nenhuma árvore no quintal?

     

    Periquita – Tenho uma laranjeira.

     

    Velhota – Atão, lá debaixo da laranjeira, sem ninguém ver, tu pões lá os ossinhos do teu irmão. Todos lá metidos, ali num bocadinho de terra, debaixo da laranjeira. – A laranjeira tinha muitas laranjas, muito bonitas.

    E ela foi. Chegou lá, o pai disse-lhe:

    Anda comer Periquita!

     

    Periquita: – Não. Eu na’ quero comer.

    Pai: – Pra quê que tu andas apanhando os ossinhos?

     

    Periquita: – Pra eu brincar. – Agarrou-os todos, meteu-os dentro de um lencinho. Guardou-os.

    Chegou cá a casa, foi pô-los lá onde a Nossa Senhora lhe tinha dito. Ali. Ela enterrou-os ali, todos os ossinhos debaixo da laranjeira.

    E, no outro dia de manhã, apareceu o menino com um grande ramo de laranjas!

    A avó chegou lá ao pé dele:

    Ai! O nosso menino com umas laranjas tão gordas! Dá-me uma, filho!

    Periquito: – Não, não quero. A mãe, primeiro.

    Mãe – Dá-me uma, filho!

     

    Periquito – Não! Não quero! Que me mataste!

     

    Depois disse a avó:

    Periquito, dá-me uma!

    Periquito – Não quero! Que me esfolaste!

     

    Depois foi a menina a dizer:

    Ai mano! Dá-me uma a mim!

    Ele deu-lhas e disse:

    Periquito: – Toma-as todas, que me salvaste!

     

    Mariana Valente, Ficalho (conc. Serpa), Fevereiro 2006.

    Glossário:

     

    (1)    Manitas: mão pequena; mãozinha.

    (2)    Manito: pequeno irmão; irmãozinho.

    (3)    Nossa Senhora: Designação da Virgem Maria na Igreja Católica Romana.

    (4)    Atão: regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que significa “então”.

     

Caracterização
  • Contos maravilhosos.
    Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson:ATU 720 Minha Mãe Matou-me; Meu Pai Comeu-me (O Zimbro).

    Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Junho de 2007.

     

Identificação
  • História das laranjas
  • Mariana Valente
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Serpa e de escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Serpa e de Beja. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

    Em 2010/2011 o Agrupamento de Escolas de Serpa como o projecto "Contos d'Aqui" entrevistou e levou à escola a Susete Vargas, de Vale do Poço e a Francisca Calvilho, de Vila Verde de Ficalho, mais duas contadoras de histórias do concelho de Serpa (ver em "Documentação")

Equipa responsável
  • Marta do Ó
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

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