Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Dados de inventário
  • A raposa e o lobo
  • Cuba

    “A raposa e o lobo” - A raposa ensina ao lobo como entrar numa queijaria, mas a avidez do lobo logo o deixa em sarilhos…

    António Caeiro; Vila Ruiva; Concelho de Cuba.

    Registo 2006.

Transcrição
  • O lobo e a raposa na rouparia

     

    Eram uma raposa e o lobo, né(1)? E então a raposa, muito espertalhona que era, descobriu a maneira de conseguir entrar dentro da rouparia(2). Por um buraco lá de uma janela ia-se aos queijos do roupeiro(3) e * mamava-lhe os queijos *(4)!

     

    O roupeiro chegava lá, achava falta dos queijos. Via pistas(5) no soalho: “que raio?! Mas que raio de bicho é que entra aqui, pá?!

     

    E a raposa andava gorda! E o lobo magrinho! Dizia o lobo:

     

    Ó comadre raposa! Mas o que é que tu fazes pa’ andares…?

     

     

    Raposa: – Olha(6) vou ali à rouparia do roupeiro e encho a barriga de queijo!

     

    Lobo – E como é que consegues…?

     

    Raposa – Entro lá por aquele buraco… – Lá lhe ensinou. – Vai lá também!

     

    Assim foi. Eh! O lobo andava cheiinho de fome, assim que lá chegou, não ‘teve com meias-medidas(7). Ah! Mas a raposa, esperta que era, quando via mais ou menos que estava já bastante cheia, vinha experimentar se passava no buraco. Se conseguia ainda voltava atrás, ia comer mais um queijo. E assim fazia até passar pelo buraco – já na’ comia mais, vinha-se embora.

     

    O lobo assim que se apanhou lá na rouparia, cheiinho de fome como ‘tava… Oh! Comeu, comeu, ficou com uma pança enorme! Quando veio para se vir embora a cabeça passou, mas a barriga já não passou.

     

    O roupeiro já andava desconfiado, veio à procura do bicho. Apanhou-o lá! Deu-lhe uma sova com um pau. O pobre do lobo lá teve que, de qualquer maneira, passar pelo buraco.

     

    Foi-se queixar à raposa:

     

    Aaaaaahhhh! Ó raposa! Tu enganaste-me!

     

    Raposa – Enganei nada! Atão(8)?

     

    Lobo – Atão na’ vês…

     

    Raposa – Foste um bruto! Comeste até mais não querer! Depois apanhaste porrada(9) do roupeiro!

    António Caeiro, 73 anos, Vila Ruiva (conc. Cuba), Fevereiro 2006.

     

    Glossário:

     

    (1)    Né? Contração do advérbio não e da forma verbal é “não é”?

    (2)    Rouparia: divisão especial que existia nos montes alentejanos destinada ao fabrico do queijo. Tal nome deriva dos imensos panos (roupa) usados no fabrico do “queijo de Serpa” – usavam-se, por exemplo, panos de lã para filtrar o leite, tiras de pano-cru para cingir o queijo ou fraldas para escorrer o requeijão, etc. Cuba é uma das zonas de produção deste queijo.

    (3)    Roupeiro: regionalismo que designa o artesão que faz queijos de ovelha. Assim conhecido por trabalhar na “rouparia”.

    (4)    Mamava os queijos: ingeria em grandes quantidades e com avidez.

    (5)    Pistas: rasto de animais no solo.

    (6)    Olha: escuta! Ouve! Presta atenção!

    (7)    Não esteve com meias-medidas: não hesitou.

    (8)    Atão: regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial, que significa “então”.

    (9)    Porrada: sova de pau.

    Para execução deste glossário consultaram-se os websites e dicionários: http://www.ciberduvidas.com/;

    http://www.seleccoes.pt/article/10900http://www.seleccoes.pt/article/10900; http://www.cm-serpa.pt/artigos.asp?id=1127; http://www.infopedia.pt/; http://www.priberam.pt/ e Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. 2ª. Edição, Dicionários D. Quixote; 34. Lisboa: Publicações D. Quixote.

     

     

     

     

     

     

     

Caracterização
    • Conto de animais.
    • Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson:ATU 41 O Lobo Come Demasiado na Cave.

     

    • Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Junho de 2007.
     
Identificação
  • A raposa e o lobo
  • António Caeiro
  • 1933
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Vila Ruiva, casa de António Caeiro
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja/Cuba, escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Cuba e de Beja. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Marta do Ó
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

 

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