Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Dados de inventário
  • O pedido de casamento
  • Mora

    "O pedido de casamento" - Um cabreiro quer pedir a mão da filha de um moleiro em casamento, mas a sua falta de jeito com as palavras torna o seu desejo impossível.

     

    José Manuel ; Brotas; Concelho de Mora, Évora

    Registo 2007.

Transcrição
  • Pedido de casamento

     

    Havia uma ocasião um gajo que era cabreiro e queria casar. E atão disse pa' mãe:

    – Ó mãe! Eu quero casar!

    Disse-lhe a mãe:

    – Ora filho! E atão quem é que quer casar contigo?!

    Cabreiro – Olhe, 'tá lá a filha do moleiro... A ver se ela quer casar comigo!

    Bom, a mãe lá foi e disse pò moleiro:

    – Atão, olhe lá! O meu filho quer casar ca sua filha. Você deixa casar a sua filha co meu cabreiro?

    Moleiro – Deixo, sim senhor!

    Bom, a mãe foi pra casa e disse-lhe assim:

    – Olha! Eu já falei com o moleiro e atão podes ir lá pedir a rapariga em casamento!

    Bom, o cabreiro disse pa' mãe:

    – Ó mãe! Atão como é que eu hei-de pedir a rapariga? Qual é a entrada pra eu pedir a rapariga ao moleiro?

    Disse-lhe a mãe assim:

    – Olha filho chegas lá, começas aos pulos no meio da casa e o moleiro ó'pois diz-te assim "ei! O que é que você quer que anda aqui aos pulos?! A'pois tu dizes: "Olha, pedir a sua filha em casamento..."

    Bom, lá foi. O cabreiro chegou lá à noite à casa do moleiro e vá de pulo pra um lado, pulo prò outro... E diz-lhe o moleiro assim:

    – Atão, o que é que você quer?

    Mas o que é que havia de haver, nesse dia, lá em casa do moleiro?! Tinha morrido a mulher do moleiro! 'Tava amortalhada(5) lá no meio da casa. Chegou lá o cabreiro começou aos pulos de roda da mulher. E disse o moleiro assim:

    – É páaa! Anda você aí aos pulos... Atão... Tenho aqui a minha mulher morta! Aqui no meio da casa e você anda aqui aos pulos de um lado pò outro! Ah, seu malandro...Puxo aqui já de um xipó e dou-lhe já aqui uma!

    Bom, o cabreiro abalou, foi-se embora. Chegou lá, disse-lhe a mãe assim:

    – Atão, filho?! Já pediste a rapariga?

    Cabreiro – Na' senhora!

    Mãe – Atão?! Atão o que é que 'tava lá em casa?!

    Cabreiro – Oh! 'Tava lá a mulher do moleiro morta, no meio da casa! Amortalhada.

    Mãe – Ai, filho! Havias de chorar! Andavas de roda dela e dizias: "ai, valha-me Nossa Senhora! Ai, pr'aqui, pr'ali!" E ó'pois pedias a rapariga!

    Cabreiro – Amanhã vou lá outra vez!

    Bom, no outro dia, lá vai o cabreiro outra vez a casa do moleiro pa' pedir a rapariga. Chegou lá o que é que o moleiro havia de ter? Tinha um porco gordo pendurado ao telhado. Tinha matado um porco, 'tava pendurado ao telhado, que eram os sentimentos da mulher que tinha morrido! Quer dizer que chegou lá, o cabreiro começou a andar de roda do porco a chorar:

    – Ai! Valha-me Deus! Nossa Senhora! – Que era o que mãe lhe tinha dito! – Valha-me Deus!

    Disse-lhe o moleiro assim:

    – Ó seu filha da puta! Atão, ontem, ia aqui a minha mulher morta, andava aqui aos pulos no meio da casa! Hoje tenho aqui uma morte de alegria e anda-me aqui a chorar de roda do porco! Ah, seu malandro que eu dou-lhe aqui já duas fueiradas... – Lá abalou o cabreiro outra vez de rabo ripado.

    Chegou lá, disse-lhe a mãe:

    – Atão, filho?! Atão hoje é que já pediste a filha?

    Cabreiro – Na' senhora!

    Mãe – Atão?

    Cabreiro – Ah! Atão o moleiro tinha lá um porco pendurado ao telhado...

    Disse-lhe a mãe assim:

    – Ora filho! Havias de dizer: "sentes ao pé desse?! Sentes ao pé desse?"

    Cabreiro – Amanhã, vou lá!

    Outro dia, lá abalou o cabreiro outra vez. Chegou lá 'tava o moleiro ao canto do lume a curar um bichoco numa perna! Começou o cabreiro a andar de roda dele:

    – Sentes ao pé desse? Sentes ao pé desse?

    O moleiro levantou-se além, disse assim:

    – Ah! Seu filha da puta, atão você... Eu estou a curar isto, pra ver se isto seca, e você diz "sentes ao pé desse? E sentes ao pé desse"? – E o cabreiro! Leva de fugir!

    Chegou lá, disse-lhe a mãe assim:

    Mãe – Ó filho! Atão o que é que foi lá?

    Cabreiro – Ah!

    Mãe – Atão? O que é que o homem 'tava a fazer?

    Cabreiro – Oh! 'Tava a curar um bichoco numa perna!

    Mãe – Ah, filho! Atão havias de lhe dizer: "Deus queira que isso seque! Deus queira que isso seque!".

    Cabreiro – Amanhã vou lá, outra vez!

    No outro dia abalou o cabreiro outra vez. Chegou lá, andava o moleiro a dispor uma figueira lá numa horta, a fazer uma cova pa' dispor a figueira. Começa o cabreiro a andar de roda dele e a dizer assim:

    – Deus queira que isso seque! Deus queira que isso seque!

    Moleiro – Oh! Seu filha da puta! Atão eu ando aqui a dispor a figueira, pra ver se ela pega, pra ver se isto dá figos prà gente comer, e você aparece-me aqui a dizer "Deus queira que isso seque"! – Eh! O malandro puxa da enxada! Vai o cabreiro... A unhas!

    Chegou lá, disse-lhe a mãe assim:

    Mãe – Atão, filho?! Hoje é que já pediste a rapariga?!

    Cabreiro – Eu... Na' senhora!

    Mãe – Atão?

    Cabreiro – Ah! Atão o moleiro andava a dispor uma figueira lá na horta. Eu comecei a andar de roda dele a dizer-lhe: "Deus queira que isso seque! Deus queira que isso seque!" Ele já me queria pregar com a enxada em cima!

    Mãe – Ai, filho! Havias de dizer assim: "Deus queira que coma muito do que está a pôr! Deus queira que coma muito do que está a pôr!".

    Cabreiro – Amanhã vou lá ainda!

    Oh! No outro dia ele voltou pra lá! Chegou lá, 'tava o moleiro atrás de uma moita a dar à calça! Chegou o cabreiro e começa de roda dele:

    – Deus queira que coma muito do que está a pôr! Deus queira que coma muito do que está a pôr!

    Moleiro – Oh! Seu filha da puta! Ripe já aqui... O malandro! Atão você... – O cabreiro abalou estremuntado.

    Disse-lhe a mãe:

    – Atão, filho? Atão?

    Cabreiro – Ah, pá! Atão o homem 'tava a dar à calça lá atrás de uma moita, comecei a andar de roda dele: "Deus queira que coma muito do que 'tá a pôr! Deus queira que coma muito do que 'tá a pôr!" Nunca mais lá vou, que pa' outra vez, mata-me!

    Pronto, 'tá a história acabada! Andou sempre a pedir a rapariga e nunca teve a rapariga pedida!

    José Manuel, 87 anos, Brotas, (conc. Mora), Junho 2007.

Caracterização
  • Classificação:

    • Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson: ATU 1696  O que é que eu deveria ter dito? (Feito?).

     

    • Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Julho de 2007.
Identificação
  • O pedido de casamento
  • José Manuel
  • 1920
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Mora, Casa da Cultura de Mora
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Mora e escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Mora. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas. Participam em iniciativas do Fluviário de Mora e da Casa da Cultura. Destacam-se as seguintes actividades desenvolvidas desde 1999:

    - Encontro de Contadores e Histórias - 1999 a 2005

    - Ti Tóda - Conta-me eum conto, estafeta de contos - 2001 a 2004

    - As lendas vão à escola - 2005

    - O Talego Culto - 2007

    - O Talego ambiental - 2007 a 2008

    - Comunidade do Canto do Lume

Equipa responsável
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

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