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Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

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e-Museu do Património Cultural Imaterial

Dados de inventário
  • Os dois irmãos
  • Mora

    "Os dois irmãos" - Dois irmãos ceiam e pernoitam na casa de um moleiro com o intuito de pedir a sua filha em casamento. A noite revela-se, no entanto, atribulada e quem sofre com os mal-entendidos é a dona da casa…

    José Manuel ; Brotas; Concelho de Mora, Évora

    Registo 2007.

Transcrição
  • Os dois irmãos

     Eram dois irmãos: um era estudante e o outro era um charragáz qualquer... E atão aquele que era charragáz andava sempre com um alforge às costas, *fazia colheres de pau* e coisa, andava sempre a fazer aquelas engenhocas.

    Um belo dia, disse para o irmão que era estudante:

    – Ó irmão! Queres ir lá a casa do moleiro, pedir a filha em casamento?!

    Estudante – Ah! Vamos agora pedir a filha!!!

    Cabreiro – Vamos! Pedir a filha em casamento que eu também quero casar!

    Estudante – Bom, 'tá bem!

    Bom, aquele que era estudante todo bem-posto(6), todo preparado, e o outro com o alforge às costas... Chegaram lá a casa do moleiro, lá trataram da ceia (nesse tempo era ceia, na' era jantar), que era prò depois, no fim, terem a conversa de pedir a filha em casamento. O que é que havia de ser pà ceia? Umas *papas de farinha de trigo*. Prantaram uma colher a cada um. Aquele que era charragáz meteu a mão ao alforge, puxou de uma colher de pau e aventou(10) com a colher que era lá de casa do moleiro para cima da mesa e com a colher de pau dele é que foi *malhar as papas*... Bom, o outro, coitadito, que era todo estudante, cheio de vergonha já daquilo.

    E atão sobrou um prato de papas e a mulher lá do moleiro meteu-as lá numa gaveta. Lá foram e tal e lá passaram o serão. Bom, foram-se deitar. Lá às tantas da noite, começou aquele que era charragáz a dizer prò irmão:

    – Ó irmão! Tenho fome! – A ceia tinha sido valente...Eram umas papas! – Tenho fome!

    Estudante – Ó pá! Cala-te homem! Eu já estou cheio de vergonha de ti!

    Cabreiro – Mas eu tenho fome!

    Estudante – Olha, tens fome vai lá onde a velha deixou as papas, lá dentro da gaveta. Trá-las e come-as!

    Bom, a casa do moleiro era assim uma parede e tinha três portas: tinha uma que era onde eles 'tavam deitados, tinha outra que era o quarto da filha e tinha a outra onde 'tavam o moleiro mais a mulher. Bom, o gajo vinha com as papas na mão. Chegou lá, já nem trouxe o prato! Aquilo 'tavam já frias, prantou-as em cima da mão e vinha a comer mesmo de cima da mão. No lugar de entrar prò quarto dele, entrou prò quarto da velha e do velho!

    'Tava a mulher do moleiro co rabo de fora das mantas e o gajo começou a andar de roda do cu da mulher e dizia-lhe até assim:

    – Ó irmão! Queres papas?

    E a velha abanou o rabo – pfffffff! Deu uma bufa! E dizia-lhe o charragáz assim:

    – É pá! N' assopres que elas 'tão frias, homem! Come papas, homem! Isso sim!

    Até que o gajo zangou-se: truz! Deu com as papas no cu da velha e abalou porta afora. Foi pò quarto onde 'tava o irmão. Daqui a bocadinho começou a dizer pò irmão:

    – Ó irmão, eu tenho sede!

    Estudante – Eh! *Raios ta partam*! Cala-te, homem!

    Cabreiro – Tenho sede, homem! Quero beber água!

    E atão o velho 'tava a dormir, estendeu a mão por cima do cu da velha e achou a velha toda cheia de papas. Disse-lhe assim:

    – Eh, mulher! 'Tás toda cagada! As papas fizeram-te mal! 'Tás toda esborteada! Vai-te lavar lá pò açude! – Aquilo tinha o açude que era onde o moinho trabalhava.

    Bom, a velha lá levantou-se, foi pò açude ali co rabo de fora, a rebaixar-se ali no açude...

    Cá o charragáz começou a dizer pò irmão que tinha sede...Disse-lhe o irmão assim:

    – Olha! Vai lá aos cântaros, bebe água e foge por aquela porta, que eu fugo já aqui por esta!

    Bom, o cabreiro chegou lá (o cabreiro ou o charragáz), meteu a mão dentro do cântaro pra ver se ele tinha água – ó'pois já não foi capaz de tirar a mão! Abalou com o cântaro na mão direito ao açude.

    Chegou lá 'tava a velha a lavar o rabo no açude, pensava que aquilo que era uma pedra – truz! – com o cântaro no cu da velha! A velha – trás! – pra dentro do açude!

    Bom, o moleiro (já há muito tempo que na' aparecia a velha) chegou lá ao açude, andava a velha co rabo prò ar! Disse o moleiro assim:

    – Eh pá! Na' sei se é uma abóbora ou se é o cu da 'nha mulher!

    Pronto! Acabou-se a história!

    José Manuel, 87 anos, Brotas, (conc. Mora), Junho 2007.

     

Caracterização
    • Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson:ATU 1775 O Padre Esfomeado. [Nas versões portuguesas os protagonistas nunca são padres].

     

    • Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Julho de 2007.
Identificação
  • Os dois irmãos
  • José Manuel
  • 1920
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Mora, Casa da Cultura de Mora
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Mora e escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Mora. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas. Participam em iniciativas do Fluviário de Mora e da Casa da Cultura. Destacam-se as seguintes actividades desenvolvidas desde 1999:

    - Encontro de Contadores e Histórias - 1999 a 2005

    - Ti Tóda - Conta-me eum conto, estafeta de contos - 2001 a 2004

    - As lendas vão à escola - 2005

    - O Talego Culto - 2007

    - O Talego ambiental - 2007 a 2008

    - Comunidade do Canto do Lume

Equipa responsável
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

 

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