Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Dados de inventário
  • Perdizes ao almoço
  • Mora

    "Perdizes ao almoço" - Um caçador convida um compadre para um almoço de perdizes, mas a sua esposa e uma vizinha adiantam-se e comem-nas…Uma desculpa tem que ser inventada para o sucedido…

     

    Luísa de Jesus; Mora; Concelho de Mora, Évora

    Registo 2007.

Transcrição
  • [Perdizes para o almoço]

     Era no tempo que se caçava todos os dias e que havia muita caça. Agora não há nada, só caçadores! E atão vão dois compadres e um era caçador e o outro não era. O compadre que era caçador matou duas perdizes e disse assim:

    – Olha compadre, ontem matei duas perdizes.

    Compadre – Ehh, compadre! Eu gosto tanto de perdiz!

    Caçador – Gostas?

    Compadre – Gosto. Gosto muito de perdiz. Até tenho pena de não ser caçador.

    Disse o caçador:

    – Bem, matei duas.

    Chegou lá a casa e disse pa' mulher:

    Caçador – 'Tive a dizer ao compadre que matei duas perdizes. E ele disse-me "Ai! Gosto tanto de perdiz!". Ó mulher, se calhar vou convidar o nosso compadre a vir comer uma perdiz mais a gente! Resquintas aí as duas perdizinhas, à moda da casa como tu sabes, e eu vou convidar o nosso compadre pra ele cá vir comer mais a gente.

    Mulher – Atão, vá!

    Caçador – E vou dar outra volta.

    Mulher – Atão, não lhe disseste logo pra vir?

    Caçador – Não. Eu na' sabia se tu querias fazer isso. Atão vá, eu vou dar outra voltita amanhã à caça, vou ver se mato mais uma peçazita, e passo por lá e convido o nosso compadre. Fazes cá as perdizes, que ó'pois vimos almoçar.

    E atão assim foi, ela ficou a fazer as perdizes. Mas tinha lá uma vizinha muito gulosa! Deu-lhe o cheiro, era porta com porta, disse assim:

    Vizinha – É vizinha, o que é que está a fazer? Ah, cheira-me tão bem! Ehhh! Que cheiro tão bom! Ai, que bem que me cheira!

    Mulher – Olhe, melhor há-de saber a quem as há-de comer! 'Tou a fazer aqui duas perdizes –já tinha a mesa posta e tudo –, que o meu marido convidou o compadre para vir cá almoçar mais a gente, que ele gosta muito de perdiz.

    Vizinha – Ai, vizinha! Desculpe, mas deixe-me provar um bocadinho! Ah! Cheira tão bem! Ó vizinha, deixa-me provar um bocadinho!

    Mulher – Na', senhora! Isto é pa' gente almoçar mais o meu compadre. Se fosse sozinhos, até deixava.

    Vizinha – Ai vizinha, mas eu tenho que provar!

    Mulher – Ora! Eu na' quero as perdizes defeituosas, vizinha! É para vir o meu compadre almoçar...

    O que é que ela fez? Arrancou logo uma perna à perdiz e toca a comer!

    Mulher – Ai, Jesus me valha! Atão agora já tenho a perdiz defeituosa! Atão, o que é que eu ponho na mesa?!

    Vizinha – Ah, vizinha! Coma também, senão vê-a ir! Coma, senão vê-a ir!

    Vá de comer bocados!

    Vizinha – Ah! Sabe tão bem!

    Disse a mulherzinha assim:

    – Se calhar sempre tenho que comer... Senão vejo-a ir! – Como ela dizia!

    Vizinha – Ah, vizinha, sabe tão bem! Coma, vizinha! Na' faça cerimónia!

    Toca a comer.

    Mulher – Atão e agora o que é que eu hei-de...

    Vizinha – Ora vizinha, o que é que tem?! A gente agora vamos comer a outra!

    Começou a comer a outra! Eram duas, era uma a cada uma! Começaram a comer a outra!

    Disse a mulher:

    – Ai, Nossa Senhora! Atão agora tenho a mesa posta, na' tenho nada pò almoço! O que é que digo ao meu marido, que o meu compadre vem cá almoçar...

    Vizinha – Ora vizinha! Na' se rale que eu venho cá pregar uma mentirinha! Quando eles chegarem venho cá pregar uma mentirinha!

    Mulher – Mentirinha?!

    Deitaram-se à perdiz as duas, comeram-na logo num instante! Aquilo sabia tão bem!

    E atão acontece que assim que os viu vir, a mulher chamou a vizinha:

    Mulher – Ah! Vizinha! Venha cá pregar a mentirinha, que já lá vem o me' compadre e o me' marido pa' não almoçar! Ai, Jesus me valha!

    Disse ela assim:

    – Eu, vizinha?! Ir pregar uma mentira à casa de uma vizinha!? Quando eu prego mentiras que seja na minha!

    Nunca lá quis ir! A mulher agarrou-se à cabeça e disse:

    – Ai, Nossa Senhora! Agora o que é que eu faço?! Ai, Jesus! Vou pôr ali o alguidar no quintal...

    Entrou pa' porta do quintal.

    Mulher – Vou ali pôr um alguidar e as facas e hei-de estudar a mentira pra quando o meu marido chegar... O compadre já além vem...

    Mesa posta e o cheirinho das perdizes ainda lá estava, mas as perdizes... viste-las!
    Já se haviam sumido!

    A mulher é que teve de estudar a mentira e disse assim:

    – Olhe compadre, assente-se! Faça favor, a casa é toda sua! Assente-se! Anda cá marido, vamos lá ali ao quintal.

    Chamou o marido.

    Caçador – Atão, o que é que queres?!

    Mulher – Ó homem, vem lá ali amolar as facas. É uma vergonha, não temos uma faca que corte! – Ele foi lá pò quintal.

    O compadre, coitadinho, ficou ali a olhar para as paredes e pa' mesa, mas as perdizes não as via, e disse assim:

    – Atão, o compadre 'tá a fazer o quê?

    Mulher – Ai, compadre! Nossa Senhora! Vossemecê fuja! O compadre 'tá a amolar as facas e diz que é para lhe cortar uma orelha! É para lhe cortar as orelhas!

    Compadre – Ai! Nossa Senhora, mas atão o que é que deu no compadre?!

    Mulher – Olhe! 'Tá a amolar as facas que é para lhe cortar as orelhas!

    Compadre – O compadre?!

    Mulher – Fuja enquanto é tempo, antes que aconteça o desastre!

    Começou a fugir o compadre e a mulher foi dizer ao marido:

    – Olha marido, o nosso compadre já fugiu com as perdizes!

    Ela é que 'teve de estudar a mentira!

    Mulher – Fugiu cas perdizes!

    O homem largou as facas e foi a correr.

    Caçador – Ó compadre! Dá cá nem que seja só uma!

    Compadre – Qual uma, nem duas! Quem quiser orelhas, corte as suas!

    E o homem fugiu, fugiu...

    Caçador – Ó compadre, por amor de Deus, dê-me cá homem! Dá-me nem que seja só uma!

    Compadre – Qual uma, nem duas! Quem quiser orelhas, corte as suas!

    Nunca ninguém mais o apanhou e, coitadinho, o compadre ficou sem perdizes... E elas comeram-nas!

    E bendito louvado, o meu continho está acabado e desculpem se na' é do vosso agrado!

     

    Luísa de Jesus, 76 anos, Amieiras (conc. Mora), Junho 2007.

     

     

Caracterização
    • Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson: ATU 1741 Os Convidados do Padre e as Galinhas (*Perdizes) Comidas

     

    • Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Julho de 2007.
Identificação
  • Perdizes ao almoço
  • Luísa de Jesus
  • 1931
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Mora, Casa da Cultura de Mora
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Mora e escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Mora. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas. Participam em iniciativas do Fluviário de Mora e da Casa da Cultura. Destacam-se as seguintes actividades desenvolvidas desde 1999:

    - Encontro de Contadores e Histórias - 1999 a 2005

    - Ti Tóda - Conta-me eum conto, estafeta de contos - 2001 a 2004

    - As lendas vão à escola - 2005

    - O Talego Culto - 2007

    - O Talego ambiental - 2007 a 2008

    - Comunidade do Canto do Lume

Equipa responsável
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

 

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