Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Dados de inventário
  • Deolinda e o patrão
  • Beja

    “Deolinda e o patrão”- Um dialogo em verso entre um patrão que “assedia” uma criada com promessas materiais e que vais tendo umas surpresas nas respostas que recebe.

    Mariana Bicho; Salvada; Ano de nascimento: 1938; Concelho de Beja.

    Registo 2010.

Transcrição
  • Deolinda e o patrão

     

     

    Mas escute, mas havia, com’à(1) Dona Ilda já disse que o pai dela, o me’(2) pai, esta gente não(?) deixavam ir a gente servir(3)! Chamavam servir: era criadas e assim-assado(4) e os… Coisos…

    E atão(5) havia um, um patrão e tinha uma criada. (…) Vou-le(6) contar isto (…) e ela chamava-se Deolinda. E ele, muito engraçado, (…) disse assim:

     

    - Se tu soubesses, Deolinda,

    a dor qu’ o(7) meu peito sente.

    Entro em casa não te vejo,

    logo não fico contente!

    Eu ouvindo a tua fala

    mudo logo, de repente!

     

     

    A graça do me’ patrão!

    Dá-me vontade de rir!

    Na’(8) meter com chalaças(9)

    que a patroa pode ouvir!

     

     

    A patroa ‘tá(10) deitada,

    na’ ouve o que a gente diz!

    Dá-me um beijo, ó Deolinda!

    Comigo na’ perdes nada,

    dou-te prendas de valor,

    deixarás de ser criada.

     

     

    Be’jar(11) um homem casado!

    Pouco ou nada me aprove’ta(12).

    A patroa é minha amiga

    eu na’ le faço essa desfe’ta(13)!

     

     

    Dá-me um beijo, ó Deolinda!

    Comigo serás feliz.

    No dia dos me’s anos

    irás comigo(14) a Paris!

     

     

    Pra(15) fazer essa viagem

    p’ecisa(16) muito dinheiro.

    Eu só tenho três em prata

    fechados num meálhe’ro(17)!

     

     

    É *esses três*(18), ó Deolinda,

    que tu tens em teu poder,

    qual será o dia(?)

    em que tu mos deixarás ver?

     

     

    A patroa também tem:

    um meálhe’ro já ósado(19)!

     

     

    Há uns dias que lo(20) vi,

    está um pouco descangalhado(21).

     

     

    Com o peso do dinheiro

    que o patrão lhe tem deitado(?)!

     

     

    Toma lá estes três contos(22)!

    Compra o que te apetecer,

    se esse na’ te chegar

    tem dinheiro a valer.

     

     

    O patrão da minha terra!

    Eu dele na’ tive medo!

    Os três contos já cá vêm(?)

    e agora chucha no dedo(23)!

     

     

    [Risos].

    Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010

    Glossário:

    (1) Com’à – como a (houve supressão da vogal o e acentuação do a para reproduzir a pronúncia).

    (2) Me’ – meu (houve supressão da vogal u para reproduzir a pronúncia).

    (3) Ir a gente servir«Os trabalhadores assalariados ou servos adstritos a um patrão ou senhor que exerce a sua autoridade e os remunera, tinham remotamente ocupações diferenciadas: nas habilitações domésticas ? Para trabalhos caseiros, com a designação que ainda hoje se mantém de criados ou serviçais. São geralmente do sexo feminino, mulheres adestradas em preparar no lume os alimentos; ou em se entregarem aos arranjos domiciliários ? as criadas-de-quarto ou criadas-de-fora. Havia também as amas-de-leite, que amamentavam as crianças alheias e as amas-secas, que tratavam de meninos de peito, nutridos estes com o leite materno. As antigas criadas portuguesas, zelosas, fiéis e afeiçoadas, que acompanhavam a vida doméstica em comum, servindo obedientemente várias gerações com nobre dedicação, a ponto de quase se integrarem nas famílias, são legado de um passado remoto que o decorrer dos anos extinguiu.» Felgueiras:1981:91).

    (4) Assim-assado – neste caso específico, expressão para referir “estes e aqueles” de um determinado espectro de profissões.

    (5) Atão“então”, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial.

    (6) -Le ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).

    (7) Qu’o – que o (houve supressão da vogal e para reproduzir a pronúncia).

    (8) Na’ – não (houve supressão da vogal o para reproduzir a pronúncia).

    (9) Chalaças – «Dito gracioso e picante» http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&pesquisa=1&palavra=chala?a.

    (10) ‘Tá – está (pronúncia popular do verbo “estar”, conjugado).

    (11) Be’jar – beijar (houve supressão da vogal i para reproduzir a pronúncia).

    (12) Aprove’ta – aproveita  (houve supressão da vogal i para reproduzir a pronúncia).

    (13) Desfe’ta – desfeit. Houve supressão da vogal i para reproduzir a pronúncia. Significa: «insulto; ofensa; desconsideração» http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa-ao/desfeita.

    (14) Cómigo – comigo (houve acentuação do ó para reproduzir a pronúncia).

    (15) Pra – “para” (redução da preposição “para”, sua forma sincopada,usadano registo popular, informal - reprodução da pronúncia).

    (16) P’ecisa – precisa (houve supressão do r para reproduzir a pronúncia).

    (17) Meálhe’ro – mealheiro  (houve acentuação do a e supressão do i para reprodução da pronúncia). Um mealheiro pode ser um « Artefacto oco de barro com uma fenda estreita por onde se vai enchendo aos poucos com o dinheiro que se pode juntar. 2. Qualquer outro artefacto semelhante para idêntico fim. (…) 4. Pé-de-meia; pecúlio.» http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=mealheiro

    (18) Esses três – «Cal. Virgindade sexual.» http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=três

    (19) Ósado – usado.

    (20) Lo, la, ? «por o, a. Expressões arcaicas portuguesas. «Eu não lo vi. «Eu não la vi». Procurei-lo.» Neves, Henrique das. (1897-1899). Glossário de palavras, locuções e anexins.Revista Lusitana,Volume V, Lisboa: Antiga Casa Bertrand,224.

    (21) Descangalhado – escangalhado (danificado, estragado, desconjuntado).

    (22) Contos – cada conto remete para a quantia de mil escudos (o escudo foi substituído pelo euro); pode remeter também para um milhão se a moeda ainda for os réis.

    (23) Chucha no dedo – ficas sem o que esperavas; foste logrado. 

    Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:

    Barreiros, Fernando Braga. (1917). Vocabulário barrosão. Revista Lusitana, Volume XX, Lisboa: Livraria Clássica Editora, Lisboa. p. 141.

    Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.

    Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.

    Felgueiras, Guilherme. (1981). Divagações Etnográficas. Amos, Criados e Moços de Servir. Revista Lusitana. Nova Série 1. Número 1. Instituto Nacional de Investigação Científica, p.91.

    http://aulete.uol.com.br;http://michaelis.uol.com.br;http://www.ciberduvidas.com;

    http://www.infopedia.pt;http://www.mirandadodouro.com/dicionario/;

    http://www.priberam.pt

     

     

     

     

     

     

     

Caracterização
  • Cantiga Narrativa

     

    Fonte: Carlos Nogueira (IELT)

Identificação
  • Deolinda e o patrão
  • Mariana Bicho
  • 1938
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Junta de Freguesia da Salvada através da Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Actualmente sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja.
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias que participam em iniciativas do Município de Beja. São convidados na iniciativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

 

Visite a nova exposição virtual!

PCI Livro

PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL
MEMORIAMEDIA e-Museu - métodos, técnicas e práticas

+ MEMORIAMEDIA