Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Dados de inventário
  • O namoro com D.Carlos
  • Beja

    “O namoro com D.Carlos”- Um conde ilude uma jovem com promessas de amor e compromete a sua honra e possibilidade de viver, acaba por se arrepender e salva-a do cadafalso com um esquema ardiloso.

     

    Idalina Cocito; St. Clara de Louredo; Ano de nascimento: 1938; Concelho de Beja.

    Registo 2010.

Transcrição
  • Namoro com Dom Carlos

     

    «Uma (…) [rapariga?] que namorava um rapaz (era Conde). E depois o pai na’(1) queria... E ele, coitado, queria *fazer pouco*(2) dela - nesse tempo era “pouco” que chamavam.

    E ele disse: - Ai, não! Não... Essa noite há-de dormir…- Com ele... E eles iam a jogar... (…) Iam prà(3) aqueles clubes, iam jogar.

    Ele, primeiro, dizia-lhe assim: - Felizarda, Felizarda... - Ela era Felizarda.

    - Felizarda, meu amor, bem podias tu, Felizarda, dormir comigo ao redor.

     

    E ó’ pois(4) ela disse: - Eu dormiria consigo, se não me fosse gabar à mesa dos galderistas(5)(?), onde me’ pai vai jogar! – Que o pai é jogatina(6)! (…) -Do gambaristas(5)!... Chamavam-lhes gabaristas(5)! - Onde o me’ pai vai jogar.

     

    Depois ele chegou e disse: - Esta noite dormi eu com a menina Felizarda!

    Era mais linda que (...)[a mãe?] e mai’ (…) (7) que estava.

     

    O se’(8) pai assim que ouviu, prà casa se retirou. Sua filha assim co(9) viu a bênção lhe tomou. Ele disse:

    - Retira-te, ó minha filha! Já te podes retirar!

    Que as falas que eu hoje ouvi, ainda hoje vais degolar. – (…) degolar: nesse tempo matavam!

    (…)E ó’ pois ela disse:

    - Aqui me ponho eu, meu pai, aqui me ponho a chorar!

    Haja alguns do me’s(10) criados que me possa auxiliar.

    Respondeu um: - Aqui estou eu Menina, estou eu pó(11) que me quiser mandar.

     

    - Vai-me levar esta carta à casa dos Montalvar. – Ele era Carlos Montalvar!

    Depois ela disse: - Se ele ‘tiver(12) a dormir, deixá-lo bem acabar; se ele ‘tiver a passear, *vem, de noite, entregar*(?).

    Em tã’(13) boa ocasião, andava ele a passear. [Disse:]

    - Acudam-me me’s criados, a ferrar os me’s cavalos! Com ferraduras de bron[ze?], com que na’ se possam gretar(14): caminhada de oito dias, ainda hoje tenho de andar!

    Que ela[e] só a recebeu a carta ao fim de oito dias! Já ela ia… Prà matarem! Já ia naqueles carros, (…) naquelas coisas blindadas… - *Contavam no meu tempo(?)/ quando ‘tavam no outro tempo*, - iam pà(15) forca!

    Ele vestiu-se a padre e foi. E ó’ pois, chegou assim:

    - Parai, Justiça, parai, se não faço eu parar!

    Que a menina que aí vai, ainda vai por confessar.

    No meio de uma confissão, ainda um beijo me há-de dar! -O ordigala!

    E ó’ pois ela, ela assomou-se(16) e disse assim:

    - Cale-se lá, Senhor Dom Padre, na’ se queira adiantar!

    Onde Dom Carlos pôs boca, na’ é pra padres beijar! - Depois ela disse:

    - Pelo rir, me parece Carlos de Montalvar.

     

    - Sou eu menina, sou eu! Que à morte a vim livrar.

    Com este punhal de oiro, eu o hei-de atravessar;

    por uma porta há-de sair e por outra há-de entrar!

    Matou o pai dela e casou co’(17) ela! Já ‘tá lá escrito (…) na’ esquece! [Risos].»

     

    Idalina Cacito, Beja, Abril de 2010

     

    Glossário:

    (1) Na’ – não (pronuncia popular, uso coloquial).

    (2) Fazer pouco – neste caso, mais que troçar, é iludir com juras de amor para obter intimidade física e afastar-se, deixando a moça “desonrada”, com a reputação denegrida.

    (3) Prà – “para a” (contração da preposição pra com o artigo ou pronome a; uso popular e coloquial).

    (4) Ó’ pois “depois” (modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).

    (5) Jogatina – viciado no jogo.

    (6) Galderistas/Gambaristas/Gabaristas/ – por hipótese, gabarolas (aqueles que exageram aos outros as suas qualidades ou actos) por similitude com gabanistas, gabarristas, gabanichas – termos populares para ‘gabarola’.

    (7) – que o que (hipótese, por reprodução de pronúncia popular).

    (8) Se’ – seu.

    (9) Co – “com o” (contração da conjunção arcaica ca com o artigo ou pronome o - ca+o -; uso oral, coloquial).

    (10) Me’ s - “meus” (supressão de uma vogal u, redução para reprodução da pronúncia, uso informal e coloquial).

    (11) – “para o”, forma sincopada de prò (contração da preposição pra com o artigo ou pronome o), uso popular e coloquial.

    (12) ‘Tiver – estiver (pronúncia popular do verbo “estar”, uso informal).

    (13) Tã’ – tão (de tal modo).

    (14) Gretar – rachar; fender; desconjuntar.

    (15) “para a” (abreviatura da contração da preposição pra com o artigo ou pronome a; uso popular e coloquial).

    (16) Assomou-se – irritou-se, irou-se, enraiveceu-se.

    (17) Co’ – com (supressão de uma consoante, abreviatura oral por pronúncia popular).

     

    Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:

    Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares do– Alentejo. Porto: Campo das Letras p.97.

    Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p. 211.

    Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.189.

    http://aulete.uol.com.br;http://dicionario.sensagent.com; http://michaelis.uol.com.br;

    http://pt.bab.la/dicionario/portugues-ingles; http://pt.thefreedictionary.com; http://www.ciberduvidas.com; http://www.dicio.com.br;http://www.infopedia.pt; http://www.priberam.pt.

     

     

     

     

     

     

Caracterização
  • Romanceiro: Romances Carolíngios: “Conde Claros em Hábito de Frade”.

     

    Classificação: Isabel Cardigos (CEAO/Universidade do Algarve) em Setembro de 2011

    Fonte da Classificação: Pere Ferré, Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna, vol. I, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2000.

     

Identificação
  • O namoro com D.Carlos
  • Idalina Cocito
  • 1938
Contexto de produção
Contexto territorial
  • St. Clara de Louredo através da Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Actualmente sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja.
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias que participam em iniciativas do Município de Beja. São convidados na iniciativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Lénia Santos
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

PCI Livro

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