Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

O Rancho

nome:
Maria da Restauração
   
freguesia:
Matacães
concelho:
Torres Vedras
distrito: Lisboa
data de recolha: 02/2010
   
 
 
 

Dados de inventário
  • O rancho
  • Torres Vedras

    "O rancho"- Relato de um episódio em que uma mulher foi perseguida por um vitelo no rancho onde trabalhava.

    Maria da Restauração, Ano de nascimento 1936,Matacães, Torres Vedras, Registo 2010.

Transcrição
  • O rancho

     

    Eu tinha dez anos quando fui para Vila Franca, para o arroz; arranjar chão para arroz. Arranjar chão e depois dispor, não é? E nós dormíamos numa casa casa ampla, digamos, como esta. Mas ficava longe do trabalho, saíamos de manhã e vínhamos à noite. E depois como aquilo era muito longe, o que é que o patrão destinou? De arranjar assim uma cabana qualquer mais no sítio do trabalho para a gente lá ir. Íamos para lá na Segunda e vínhamos à Sexta para o quartel.

    Aquilo era feito com caniços e era… Como sabem, em Vila Franca havia muito gado bravo. Agora já não há tanto, não é? Mas antigamente havia muito gado bravo. Quer dizer, depois era assim: a gente lá dentro da cabanazeca e os bois com os cornos enfiados a furar os caniços! E a gente, quer dizer… Aquilo era no meio do campo e a gente para fazer xixi tínhamos que vir à rua, não é? Durante a noite. E depois, e depois? Eles andavam ali de roda, de roda da cabanazeca e a gente às vezes lá íamos duas e três a espreitar… Agora ia uma fazer, depois ia outra fazer. E lá fazíamos aquilo. Depois quando nós de manhã nos levantávamos para ir para o trabalho, os animais andava ali tudo de volta. A gente depois era de gritar! Gritar para nos virem tirar os bois que a gente queria ir para o trabalho. Quer dizer, o caseiro é que chamava o pessoal.

    Bem, havia lá uma vaca que tinha um vitelozinho e vai correr atrás de uma tia minha. E o homem que tomava conta do gado:

    - Deite-se, deite-se, deite-se!

    Porque quer dizer, o animal, se a pessoa se deitar e não respirar, ele esgravata mas pensa que a pessoa está morta e vai-se embora. E ele diz:

    - Deite-se, deite-se!

    Ela deitava-se mas era uma gaita! Não se deitava. Cada vez corria mais! Corria mais, mas a mulher lá se desengonçou e caiu. Caiu e depois a vaca, quer dizer, esgravatou, esgravatou, foi-se embora. Foi-se embora e aquilo depois chegou o […] e sacudiu-a. Mas ela diz:

    - Ai, filhas… Ai, filha, que eu ia morrendo aqui com um susto tão grande…

    E depois diz ela assim:

    - Ai, ó senhora minha tia, está morta! Ai, ó senhora minha tia, está morta!

    E de maneira que depois ela diz assim:

    - Eu nunca mais para aqui venho! Nunca mais para aqui venho!

    Mas a gente precisava de ganhar o pão para comer. Eu era caneca, tinha dez anos quando para cá vim. Ela é que, pronto, já era uma mulher feita, não é? E então ela é que mais ou menos vinha tomar conta de mim e da minha irmã, porque ela era irmã do meu pai. Mas aquilo… Mas o homem:

    - Deite-se, deite-se!

    - Eu deito-me mas é uma bola!

     

     

    Maria da Restauração, Torres Vedras, Registo 2010.

     

     

     

Caracterização
    • Episódio de história de vida
Identificação
  • O rancho
  • Maria da Restauração
  • 1936
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Matacães
Contexto temporal
Manifestações associadas
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Encontros em festas e actividades promovidas pelo Município e Junta de Freguesia

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Ana Sofia Paiva
  • Documentário - Realização Filomena Sousa


 

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