Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

A praga do boi

nome:

Mariana Monteiro

ano nascimento:

1942

freguesia: Pereiro de Palhacana (em Mata de Palhacana)
concelho:
Alenquer
distrito:
Lisboa
data de recolha: 2013
 

 

Dados de inventário
  • A praga do boi
  • Alenquer

    "A praga do boi" - Relato de um homem ciumento que lançou uma praga ao próprio filho, que terá nascido com corpo humano e cabeça de bezerro.

    Mariana Monteiro, Ano de Nascimento 1942. Mata de Palhacana. Pereiro de Palhacana. 

Transcrição
  • A praga do boi

    "Olhe, eu tinha um vizinho meu que era muito malandro. No tempo que eu era novinha, no tempo do pai dos meus filhos. E ele disse:

    - A minha mulher, se... Se…

    Mas isto é verdade.

    - Se a minha mulher…

    Foi castigo, ele depois teve um grande castigo; matou-se. Ele depois matou-se. Ele disse:

    - O filho da minha mulher, se for meu, tem que trazer… É metade… Metade do corpo bom e a cabeça dele vai ser a cabeça dum boi, se ele for meu filho.

    Então não é que a cara do rapazinho era um bezerrinho e uns corninhos? Um bezerrinho e uns corninhos. E ele matou-se. Então, isso… Teve que ser abatido, essa criança, no hospital. Foi abatida. Foi morta. Deram uma injecção, que aquilo não podia viver, não é? É verdade. E ele matou-se, o homem. Essas baboseiras que diziam pela boca fora – e na altura que ele disse, foi uma coisa que foi bem apanhada para um castigo, para ele ter um castigo. Porque a senhora era uma senhora séria, uma senhora boa e uma senhora séria. E ele dizia isso. Era desconfiado, era muito desconfiado. Pois.

    Depois eu, quando engravidei, dizia para o meu marido:

    - Ai, credo! Ai, Deus queira que eu não tenha assim uma criança…

    - Ó rapariga, cala-te, não digas isso! -dizia ele: -Ele é que fez a baboseira.

    Parece que eu ainda estou, parece que estou a ver o retrato da criança. Depois a gente foi visitá-la ao hospital. A criança ainda esteve quinze dias em [incubadora]. Esteve quinze dias assim num vidrinho e a gente via através do vidro. Tinha… Não eram uns cornos saídos, era assim um jeitinho duns corninhos e a carinha dele era um bezerrinho, era um bezerrinho! É verdade. Parece que estou a ver aquele filme.

    Mas ele, também, foi ver o filho, chegou a casa, meteu-se logo dentro dum poço. Olha, foi bem feito. Não tive pena nenhuma dele. Que isso não se diz! É, é.

    Havia coisas… Muita gente que se matava; por qualquer coisa, matavam-se. Os meus avós mataram-se com vinte e oito anos os dois no mesmo dia, os pais da minha mãe. É verdade. Não é do meu tempo, mas as minhas tias diziam. Está lá a campa em Santo Quintino, a data que eles se mataram e tudo. Eles matavam-se; por qualquer coisa, matavam-se. Uma rapariga: o rapaz não queria saber dela e ela, pumba: matava-se. Era noutro tempo. Era pior do que é agora. Não digam que não."

     

     

Caracterização
    • Relato sobre práticas culturais
Identificação
  • A praga do boi
  • Mariana Monteiro
  • 1942
  • Trabalhadora agrícola
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Mata de Palhacana, café local
Contexto temporal
Manifestações associadas
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Histórias partilhadas nos tempos de lazer e em festas e romarias. Actividades promovidas pelo Município.

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Ana Sofia Paiva
  • Documentário - Realização Filomena Sousa