Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Banho Santo

nome:
Abílio Cerqueira
ano nascimento:
1941
freguesia: S.Bartolomeu do Mar
concelho:
Esposende
distrito:
Braga
data de recolha: Outubro 2010
 
 
 

 

Dados de inventário
  • Banho Santo
  • Esposende

    "Banho Santo" - Explicação dos procedimentos do Banho Santo, ritual religioso popular típico em S. Bartolomeu do Mar.

    Abílio Cerqueira, Ano de Nascimento 1941, S. Bartolomeu do Mar. Registo 2010

Transcrição
  • Banho Santo[1]

     

    Antigamente as pessoas vinham muito a pé. Vinham muito a pé e vinham de longe. E alguns já vinham a tocar a concertina, a cantar e a dançar, lá com um garrafãozito enfiado numa bengalazita, e com a cestica... Por volta das sete horas aquilo começa a juntar logo gente. Porque já havia as excursões. Porque havia camionetas, por exemplo de Ponte de Lima, Barcelos, Arcos de Valdevez; do Minho vinha muita gente. E as camionetas tinham que fazer duas vezes duas viagens – e largavam no adro. Pronto. Largavam no adro as pessoas, não é? Com as suas mochilazinhas…

    Entravam na igreja, lá traziam o frango preto. O frango era, de preferência, naquela altura, preto. Mas agora já não ligam nenhuma a isso. As mães vinham com as crianças – com as crianças ao pé delas, não é? Entravam na igreja e, se houvesse missa, assistiam à missa; se não, entravam, faziam… Entravam na igreja, faziam as romarias – depois saíam, faziam as romarias de volta. De preferência era com o frango preto, mas a criança, porque para quem elas prometiam as romarias era por causa da criança. E a criança às vezes é que levava o frango, mas o frango… O frango vinha com as pernas atadas. Ou então vinha dentro de uma saquinha. E a criança, geralmente, as mães davam sempre à criança para ela levar. Mas eles às vezes não se sentiam bem e fugiam! Mas eram caçados logo, porque estava tanta gente!

    As pessoas que por acaso prometessem o frango – fazer romaria com um frango – nós tínhamos um galinheiro (chamavam um galinheiro, um capoeiro, vá!) ao lado, numa porta. Lá está então uma mesa com santo, um santo mais pequenito, a receber as esmolas. E elas, como não traziam frango, diziam que queriam que o miúdo levasse o frango – fizesse a romaria com um frango preto. E então estipulávamos um preço do valor do frango. E a senhora alugava o frango – e nós já lá tínhamos frangos, não é? Alugava o frango por x (três escudos ou cinco escudos), pagava o valor do frango mas depois deixava o frango na mesma! Ficava o dinheiro e ficava o frango. Mas se por acaso ela não deixasse o frango, ficava pago! Não perdia nada!

    Dali caminha-se para a praia. Depois da romaria, e tudo, caminha-se para a praia. Pronto. Na praia, lá estavam os banheiros. Um deles era o meu falecido pai. Era o meu falecido pai, a Rosa do Cadete, a Tia Albertina, o Tio Patrocínio... pronto. Banheiros mas a sério! De maneiras que, com a sua branqueta[2], o seu chapeuzinho… devidamente uniformizados – o que não acontece agora.

    E então eu, naquele tempo, em 1956, eu devia ter os meus 16 anos; 16, 17 anos, não tinha menos que 16… Nós tínhamos o meu pai e os outros lá em baixo e nós, – eu e a minha mãe – como iam as pessoas com os filhos para dar o banho, iam pela estrada abaixo e nós íamos ao encontro das pessoas assim:

    - Ó, a senhora vai dar banho aos meninos? -e tal…

    - Ah, vou, vou…

    - Ah, então… Banheiro jeitoso… -e tal, não sei quê… -O meu pai… -e tal… -já há muitos anos que dá banho… -e tal, tal…

    Mas eu, eu vinha e depois ia com eles! Depois entregava à minha mãe, a minha mãe levava ao meu pai (aquilo naquela altura não se pagava quase nada). Mas como fazíamos nós, faziam outros. Os banheiros de lá, as esposas desses banheiros faziam na mesma! Vinha, entregava ao meu pai… E a minha mãe levava para baixo, entregava ao meu pai. E eu vinha outra vez para cima. Mas se visse uma pessoa só com uma criança, já não falava. Mas se visse duas, uma pessoa com duas ou três para dar banho, já lhe falava!

    E então eles lavavam, era o quê? Com o chapéu, lá iam dar o banho. Era bom quando o mar estivesse mais em cima, porque quando estava mais em baixo, ia muito comprimento e as ondas não inundavam tanto. E eles usavam o chapéu porquê? Porque havia miúdos e, quando as ondas viravam, o miúdo agarrava-se à branqueta. Agarrava-se à branqueta e agarrava-se ao pescoço dele e ele era obrigada a mergulhar nas ondas com o miúdo! Está a ver? Que tinha que dar três – três, pelo menos três. Era três, sete ou nove, mas normalmente era sempre três. Que é como eu costumo… É sempre três. Tem de ser ímpar por causa das novenas. As novenas também são nove vezes, são nove novenas.

    E o chapéu aí protegia. Porque o miúdo ficava logo a escorrer água, mas o banheiro não! O banheiro, o chapéu – que é o que eu tenho usado. Eu tenho a branqueta, tenho o chapéu, tenho tudo ainda. E pronto. O miúdo chorava muito, é claro. Mas pronto, lá estava a mãe ou o pai com a toalha: logo que o banheiro viesse, enxugava-o. Enxugava-o; e já não chorava mais. Depois até ficava a gostar! Depois até só queria era vir para a água, por ali. A branqueta era dum tecido que se tornava… O miúdo não chorava tanto com a branqueta. Depois mais tarde veio aquele sistema das capas. Eram as capas. Porque nós utilizávamos isso no sargaço, que eu também… também tirei muito sargaço e furei muitas ondas… Veio a capa porque a capa, por cima da branqueta, torna realmente o frio. Mas o miúdo agora… Por exemplo, quando chegava à branqueta não se assustava tanto, mas agora quando se chega à capa, a capa está fria e o miúdo começa logo a berrar.

    Depois, no fim… Por exemplo, também uma explicação que às vezes fazem os jornalistas: diziam que o frango era rematado e que era para o padre. Não. O frango era sempre rematado e revertia a favor da festa.

    O Banho Santo livra do medo, da gota, da paralisia… Uma série de coisas que há muita gente que tem devoção com isso, acredita nisso – e eu também, também sou crente, portanto… não sei.

    O banheiro, quando recebe a criança, faz o sinal da cruz. Essa não me lembrava. O banheiro, naquela altura – agora não, mas naquela altura todos os banheiros faziam o sinal da cruz ao miúdo, à criança, quando o iam mergulhar.

     

     

     


    [1] Ritual religioso popular que característico de S. Bartolomeu do Mar, ocorrendo anualmente no dia 24 de Agosto e que consiste em mergulhar as crianças no mar para as livrar de medos, doenças e outras maleitas.

    [2] Traje de trabalho feito em burel branco usado pelos sargaceiros de Apúlia.

     

Caracterização
    • Celebrações e Rituais
Identificação
  • Banho Santo
  • Abílio Cerqueira
  • 1941
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Esposende, Biblioteca Municipal Manuel Boaventura
Contexto temporal
  • O Banho Santo realiza-se anualmente, no dia 24 de Agosto na praia de S.Bartolomeu do Mar
Manifestações associadas
  • Orações, romaria
  • Igreja de S. Bartolomeu do Mar
  • Praia de S. Bartolomeu do Mar
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Comunidade de S. Bartolomeu do Mar e Município de Esposende.

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Ana Sofia Paiva
  • Documentário - Realização Filomena Sousa
Arquivo
  • 82/24:55 - 33:09
  • 1/Esposende2012/Esposende82

PCI Livro

PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL
MEMORIAMEDIA e-Museu - métodos, técnicas e práticas

+ MEMORIAMEDIA