Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Ceia de Natal

nome:
Tia Desterra
ano nascimento:
 
freguesia: Póvoa de Varzim
concelho:
Póvoa de Varzim
distrito:
Porto
data de recolha: 2007
 
 

Dados de inventário
  • Ceia de Natal
  • Póvoa de Varzim

    "Ceia de Natal" - Relato de memórias e tradições da Ceia de Natal poveira.

    Ti Desterra, Póvoa de Varzim, Registo 2007

Transcrição
  • Ceia de Natal

     

    Então, no Natal a minha mãe fazia as rabanadas, fazia aletria, que ainda hoje eu faço aletria como a minha mãe. É muito antiquada mas é muito boa. Às vezes tenho muita gente a comer na minha casa, começa tudo: Como fizeste a aletria? Eu digo: É a aletria da minha mãe. E então a minha mãe fazia isso à noite.

    A minha mãe botava palha no chão. Tínhamos assim uma sala… A casa só tinha assim: abria-se a porta, a porta do postigo, uma sala grande; neste lado, ficava a cama dos meus pais; depois tinha umas escadinhas para ir para cima e tinha um sótão do tamanho da casa toda; tinha uma cozinha muito grande – cozinha em terra! Nunca me esquece isso. Então… nasci ali. E já o meu pai tinha nascido naquela casa. E então, em cima, tinha uma divisão – uma divisão feita de pano. Para aqui dormiam os rapazes, para aqui dormiam as cachopas. E então dormia-se três a três, e às vezes eu ainda me ia pôr na cama de uma outra irmã, que já estavam lá três! Eu punha-me lá no tempo do frio, que era para eu estar mais quentinha! Era assim. Isto era assim, temos de dizer a verdade.

    E então a minha mãe punha ali na sala palha. Punha mantas. Mantas tecidas, que a gente cobria-se com essas mantas. Era com um cobertorzinho e depois eram mantas em cima, para fazer peso. Não havia muitos cobertores, que eram muitas camas… Botava tudo no chão numas bacias de barro. Eu ainda hoje tenho uma bacia de barro da minha mãe. Então, por exemplo: os mais novos comiam aqui todos, e os mais velhos comiam à beira do meu pai (que o meu pai sempre comeu de garfo). E depois, quando os meus irmãos cresciam, eram grafos de ferro; o cabo era redondo. Nunca me esquece! A gente, naquele tempo não havia esfregão, era com uma borralha que se esfregava. E nós comíamos à mão. Nós comíamos à mão.

    E a minha mãe fazia-lhe depois em cima o molho de colorau, que se chamava molho fervido. Todas as casas poveiras tinham aquele molho, faziam aquele molho. E a minha mãe punha por cima, como umas sopas – os cantinhos dos cacetes, as rabanadas, em baixo, punha aquele molho por cima e nós comíamos.

    O meu pai dizia assim: Uma posta de bacalhau para cada um. Ninguém podia comer o que era dos outros. Acabávamos de comer, levantava-se aquela bacia, a minha mãe, e então punha-se as castanhas noutra bacia: igualmente para os grandes, igualmente para os pequenos. Depois vinham as nozes, o meu pai botava assim as nozes – as nozes, as avelãs, os figos – em cima da manta e a gente ia partindo. Os mais pequenos adormeciam.

    Depois, no fim, vinham os vizinhos. Ali tinha doze caseiros, doze casas. Depois, no fim, vinham os vizinhos para a nossa casa. Então aí o meu pai pegava numa viola e punha-se a cantar o “Deus Menino”, os outros vizinhos com gaitas de boca, as mulheres todas a bater palmas e a cantar, e era assim.

    Chegava ali à meia-noite em ponto, o meu pai dizia assim: Agora vamos botar aqui uns cânticos ao menino Jesus. O meu pai, um irmão ou um rapaz cantava. E havia uma tradição muito bonita aqui na Póvoa – isso também se perdeu e é pena. Eu às vezes lembro-me, eu queria ser pequena… Eu queria ser pequena. E então estávamos assim todos e os rapazinhos vinham cantar, como hoje se vai cantar as Janeiras. Hoje são ranchos de pessoas grandes; naquele tempo eram, os maiores, aí 16, 17 anos, daí para baixo; não iam mais velhos. Chegavam ali à porta, diziam:

    - Vai ou não vai?

    Se da parte de dentro não tivesse morrido ninguém no mar e estivesse tudo bem:

    - Vai!

    Iam, abriam um bocadinho a porta e eles punham-se a cantar.

    Quando havia alguém que morreu, ou que havia tristeza em casa:

    - Não vai!

    Eles já sabiam – punham-se ao largo.

    Depois, acabavam de cantar, davam cinco tostões, três tostões, dois tostões… Pouco, conforme se pudesse.

    E então o meu pai era muito engraçado. O meu pai era assim:

    - Vós já comestes?

    - Não senhora.

    - Então vinde comer aqui rabanadas!

    E o meu pai dava o que estava na mesa, oferecia aos rapazinhos. Lá se iam embora. Era uma coisa… Prontos, era bonito.

     

     

Caracterização
    • Dados etnográficos – tradições de natal
Identificação
  • Ceia de Natal
  • Ti Desterra
  • Actividade piscatória - comércio
Contexto de produção
  • Comunidade piscatória
Contexto territorial
  • Póvoa de Varzim, Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim.
Contexto temporal
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Actividades promovidas pelo Município da Póvoa de Varzim, Biblioteca Municipal e Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim.

    Comunidade piscatória  da Póvoa de Varzim

Equipa responsável
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • Ana Sofia Paiva
Arquivo
  • 72/01:51 - 14:29
  • 1/P. de Varzim2012/P. de Varzim72

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