Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Maria da Silva

nome:
Mariana Valente
ano nascimento:
 
freguesia: Vila Verde de Ficalho
concelho:
Serpa                                          
distrito:
Beja
data de recolha: 2006
 
 

Dados de inventário
  • Maria da Silva
  • Serpa

    “Maria da Silva”- A história de uma menina encontrada em bebé num monte de silvas por um casal idoso.

    Mariana Valente; Vila Verde de Ficalho; Concelho de Serpa.

    Registo 2006.

Transcrição
  • Maria da Silva/A menina perdida

     

    Chamava-se Maria da Silva.

     

    Um velhote mais uma velhota viviam num monte(1) e depois nunca tinham tido filhos. E tinham muita pena de na’ terem filhos, mas coitadinhos na’ tiveram. E depois, um dia, tinham falta de lenha para o lume e foram à procura de lenha. E depois, quando lá chegaram, o velhote disse assim:

    Escuta lá! Parece que é um bebé a chorar! Aqui no campo? Um bebé a chorar?!

     

    Foram lá. Chegaram lá, ‘tava dentro de uma silva – e é por isso que teve o nome da Maria da Silva –, uma menina dentro de uma alcofinha(2). Ai, eles ficaram tão contentes! Os velhotes vieram para casa com ela. Tão contentes!

    Velho – Atão que nome é que a gente(3) agora põe à nossa menina?

     

    Velha – Olha pomos-lhe Maria da Silva.

     

    Velho – Atão ‘tá bem, pronto. – Calhava bem porque ela ‘tava lá nas silvas.

    Mas ela foi crescendo e eles criaram-na muito bonita, ali naqueles campos do monte. Ela já era uma senhora, tão bonita, mas nunca saia dali porque eles tinham medo – alguém na’ lhe fizesse mal…

    Naquele dia passaram uns senhores à caça e ia lá o rei. O rei foi passar lá ao pé do monte e a menina espreitou. E vira-se e disse-lhe assim:

    Olha que menina tão bonita! Tu não me dás um copinho de água?

     

    Ela foi-lhe buscar a água e ele, quando ela vinha com a água, em vez de apanhar o copo apanhou a mão da menina! Montou-a no cavalo e levou-a. A menina desapareceu dali.

    Os velhotes, coitadinhos, iam *levando fim do sentido*(4), por causa que lhe tinham roubado a menina. Depois, no outro dia, o velhote disse:

    Olha, vamos lá a ver se a gente é capaz de dar com a nossa menina! Vamos andando por aí.

    Foram andando, andando, andando, andando por aí. Viram uma casinha lá muito longe. Foram lá até aquela casinha. Chegaram lá à casinha, bateram à porta. Atendeu uma senhora.

    Velhos – Olhe lá, você *não deu notícia*(5) de passar por aqui ninguém com uma menina assim, assim… Uma senhora –que ela já era uma senhora – muito bonita?

     

    Disse:

    Olhe, foi um rei que, portanto, a trouxe. E atão você agora vai sempre por aí, que ‘tá ali um palácio. Além(6), naquele palácio, é que mora um rei e deve ser para além que ele a levou.

     

    Eles, coitadinhos, foram lá. Os dois velhotes, andando, andando. Chegaram lá, bateram à porta. Veio o rei. Disseram-lhe os velhos:

    Mas atão(7)? Você passou lá pelo nosso monte e trouxe-nos a nossa menina!!!

     

    Ele disse:

    – Atão, não precisam chorar! Entrem lá, entrem lá.

     

    Mandou-os entrar. Tanto a menina como os velhotes eram pobrezinhos e estavam agora num palácio tão bonito

     

    Rei – Entrem lá que agora ficam aqui. Jantam aqui com a gente e a gente agora já não os deixa ir lá para o seu monte. Ficam aqui.

     

    Ela assim que os viu, coitadinha, ficou tão contente, tão contente e abraçou-os. E atão disseram-lhes:

    Bom, vocês depois já não vão para o monte e já ficam aqui sempre com a gente.

     

    E assim tiveram depois eles no palácio. A Maria da Silva ainda teve uma menina e os velhotes ficaram muito contentes.

    E pronto… Acabou-se.

    Mariana Valente, Ficalho (conc. Serpa), Fevereiro 2006.

     

    Glossário:

     

    (1)      Monte: regionalismo do Alentejo. Sede de herdade formada por vários edifícios em torno de um pátio; designação por vezes atribuída à própria herdade.

    (2)      Alcofinha: pequena cesta de esparto, junco ou vime, com uma ou duas asas, que serve para transportar ou guardar coisas.

    (3)      A gente: subentende-se o sujeito “nós”.

    (4)     Iam levando fim do sentido: iam morrendo de tristeza.

    (5)      Não deu notícia: não se apercebeu de; não sabe se.

    (6)     Além: acolá; expressão que designa distância.

    (7)      Atão: regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial, que significa “então”.

     

Caracterização
  • Conto realista (novelescos).

    Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson: ATU 930 A A Mulher Predestinada [esquecido].


    Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Junho de 2007.

Identificação
  • Maria da Silva
  • Mariana Valente
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Serpa e de escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Serpa e de Beja. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

    Em 2010/2011 o Agrupamento de Escolas de Serpa como o projecto "Contos d'Aqui" entrevistou e levou à escola a Susete Vargas, de Vale do Poço e a Francisca Calvilho, de Vila Verde de Ficalho, mais duas contadoras de histórias do concelho de Serpa (ver em "Documentação")

Equipa responsável
  • Marta do Ó
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa
Arquivo
  • 9/07:08 - 10:45
  • 1/Serpa2011/Serpa5

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