Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Sete mestres

  • Nome: António José Carrapiço

  • Ano de nascimento: 1923

  • Residência: Freguesia de São Lourenço – Portalegre

  • Actividade profissional: Reformado (Serralheiro)

  • Função na Sociedade Musical Euterpe: Antigo músico, sócio

  • Entrevista: 2010/2/9 Portalegre Sede da Sociedade Musical

"Eu toquei debaixo da regência de sete mestres. (..) O primeiro mestre foi o fundador (que está escrito aí em todo o lado) Perdigão. O nome que tenha assim Perdigão. Foi o fundador mais um dos outros sujeitos. Não conheci.

A seguir a esse mestre foi um outro que se chamava Lavara, também não conheci.

A seguir que foi um Sebastião Guerra, que era primeiro-sargento da banda militar, não é? Era assim pequenino, mas tocava um grande instrumento! Era o contrabaixo. Lembro-me bem da cara dele, mas também não foi meu mestre. Acho que foi do meu irmão.

A seguir ao Sebastião Guerra entrou então o tal primeiro mestre que eu tive, que me ensinou o solfejo (…) o Sr. Garção. Ora, dizendo alguma coisa sobre o mestre Garção pouco me lembro, mas sei que era uma excepcional pessoa. Era uma excepcional pessoa.

Então, depois, a seguir ao Sr. Garção veio o Sr. Pathé. Foi o Sr. Pathé, foi.

O Sr. Pathé esteve na banda vinte e dois anos. Não ganhava quase nada! Era primeiro-sargento também da banda militar de então e era um belo mestre!

A seguir ao Sr. Pathé foi um músico que também era primeiro-sargento da banda militar, mas que tocava cá na banda. E quando o Sr. Pathé faleceu, quer dizer (tenho ali então escrita sobre ele), entrou esse tal Baptista, que era primeiro-sargento aqui… Esse já era uma pessoa assim rija, muito malcriado [risos], um palavreado.

Sei que realmente era muito rijo, quer dizer, era brincalhão! Quer dizer dizia as coisas de brincadeiras mas muitas vezes ofendia, não é? O Baptista era aquilo que a gente sabe, era muito malcriado [risos], mas enfim lá remediou aí a banda por algum tempo (que eu não sei dizer o tempo que foi).

Foi António Baptista e depois foi o Joaquim Casaca! Era já assim um senhor de idade, assim meio velhote, meio coiso e tal. Já com pouca paciência e tal, mas era um bom mestre! Era um bom mestre! E a banda não deixou de fazer figura! Como nunca fez! Não me lembro, nestes setenta e dois anos, da banda ter feito má figura! Não me lembro de ter ficado envergonhado! De ter tocado mal. Não me lembro, não me lembro disso.

Mas enfim… Depois do Mestre Casaca foi o Manuel Pires, depois Armando Reigota – um grande mestre. Este foi um grande mestre. O António Fandango – que é músico ainda presentemente na nossa banda, que também foi aí uns três anos ou mais mestre da banda. Antes do Reigota. Lembro-me de algumas vezes termos ido a Cáceres por intermédio da regência do mestre Fandango onde fazíamos uns serviços excepcionais. Uns serviços excepcionais!

Depois destes mestres todos apareceu um Armindo Santana. Um rapaz ainda novo, carteiro (fazia carteiro, distribuía a coisa aí pela cidade). Pouca habilitação, apenas tinha uns cursos de INATEL que nesse tempo faziam para ser mestre, não é? E, então, este Armindo Santana, mesmo com estas poucas habilitações, foi um grande homem na vida da Sociedade. Para mim foi um grande homem na vida da Sociedade! Eu, em certa altura, em conversa lembro-me de ele me ter dito que tinha ensinado à volta de duzentos elementos da Banda Euterpe. Nos quinze anos que ele cá esteve a ensinar! Primeiro ele começou a ensinar o solfejo e depois, mais tarde, quando saiu este mestre Reigota é que entrou para mestre da banda. (...) Como este Armindo, embora tivesse poucas habilitações, mas era um mestre que servia! Quer dizer, para os serviços que a banda tinha servia, não é? E então quando a actual direcção resolveu mudar de mestre magoou-me muito. E fui eu o único músico, quando se estava a realizar uma reunião para resolver o problema do mestre, que apareceu para dizer que vissem bem o que iam fazer que o mestre Armindo, embora não tenha as habilitações suficientes para ser um grande mestre, mas tem sido um bom mestre da banda e está aqui há tanto ano e tantos aprendizes que ele fez!

E então esta direcção resolveu mandar vir o actual regente. O Sr. Ruivo… eu não sei bem o nome dele, mas sei que se chama Sr. Ruivo. Ainda toquei algum tempo debaixo da sua regência, não é? E verifiquei, realmente, que tinha umas habilitações excepcionais

E aproveito agora a dizer, embora eu não tivesse aceitado a vinda deste mestre novo, eu tenho que dizer agora que este mestre é um grande mestre! E que a banda, não é? Está mais bem preparada teoricamente. Não há dúvida. Teoricamente. Porque no tempo do mestre Armindo, quer dizer, não era aquela perfeição nem ele tinha aquela capacidade para chegar ao ponto de que os músicos agora da Banda Euterpe têm com o mestre actual que está.

Como disse eu não saí por qualquer motivo contra o mestre, apenas o meu estado de saúde já não me permitia, não é? Mas houve muitos músicos que saíram por causa, por assim dizer, problemas com o mestre… Uns de uma maneira, outros de outra. Havia problemas e saíram. Tanto que a banda agora é quase toda nova.

Rapazitos novos. A direcção depois diligenciou aprendizes. Que neste momento, segundo tenho ouvido falar, a banda tem quarenta e cinco elementos… [Quarenta e sete]. Quarenta e sete? E são, mais de metade, são rapazinhos novos, não é? Todos já feitos na mestria deste sargento."

 

 

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