Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

As encruzilhadas

nome:
Ilda Martins Branco
ano nascimento:
1939
freguesia: Salvada
concelho:
Beja                                    
distrito:
Beja
data de recolha: Outubro 2010
 
 

Dados de inventário
  • As encruzilhadas
  • Beja

    “As encruzilhadas”- Dois homens zangam-se por cauda de umas partilhas, voltam a encontrar-se numa encruzilhada, numa sexta-feira à noite…

    Ilda Martins Branco; Salvada; Ano de nascimento: 1939; Concelho de Beja.

    Registo 2010.

Transcrição
  • Encruzilhadas

    «Na'(1) acredito em bruxas. Não tenho medo delas. Na' penso nelas. É como o medo: o medo há pequinino(2), há grande, há maior. O medo é conforme nós o fazemos.

    Mas houve uma coisa quando eu era solteira, lá na minha aldeia, houve uma garreia(3) entre dois homens numa venda(4).

    E um disse prò(5) outro:

    - Deixa estar que ainda te hei-de de encontrar! Ainda te hei-de encontrar numa encruzilhada(6), duma estrada. (...) - Por causa de uma partilha(7).

    (...) E o outro ficou c' aquilo(8) na cabeça.

    - *'Pera lá*(9)! Eu trabalhando no monte(10), eu passo a esta encruzilhada. E eu, quando passo lá, já é de noite, e o bicho vai-me lá esperar... E ele vai-me lá dar uma boa sova.

    (...) Mas *po' sim, po' não*(11), lá no monte onde estava, uma noite, pensou assim:

    - 'Pera lá... Eu vou arranjar aqui... (...) um porróte(12). Por o sim, por o não(11), eu vou levar isto, porque se ele 'tiver(13) à minha espera aí na estrada, ou lá onde ele disse, falou numa encruzilhada, pode me 'tar à espera de lá, de mim.

    Bem, aquilo passou uma noite ou duas e na' aparecia ninguém. Na' chegava o dia, porque ele tinha que ter um dia escolhido.

    Muito bem que vinha, numa sexta-feira, andando, vê um vulto (...). Da encruzilhada. Um vulto. Diz ele assim:

    - Ah! Malandro! (...) É ele que está aí... É ele que está ali! (...) Ma'(14)... Eu agora vou e na' faço mai'(15) nada... (...) Dou-*le*(16) uma porrada! Que o enrolo logo! - Pensou aquilo!

    (...) Mas quando ia a chegar ao pé do vulto, levou um coice(17)! (...) No peito. (...) Derrubou-o logo! (...) Ele endireitou-se e agarra a moca e dá-le em dar porradas. - Mas viu que não era uma pessoa! (...) Viu que era um animal! Que estava ali! - Assim que se pôde safar...

    Ele, o outro, ficou deitado com as mocadas(18) que apanhou. E ele foi pra(19) casa.

    Ele, no outro dia, foi pro(5) trabalho.

    À noite, na venda...

    - Ah! O Fernando nunca foi trabalhar...

    - O que é que aconteceria?

    - Nunca foi, nunca apareceu lá ao trabalho. (...)

    Na' disse nada, mas pensou assim:

    - 'Pera lá! O meu cunhado, faltar ao trabalho?! Alguma coisa se passou.

    Foi pra casa. Chegou a casa, disse assim:

    - Escuta lá! Atão(20)? O marido da tu' mana, nunca foi trabalhar, atão? 'Tá doente?

    - Ah! Parece que caiu, ficou mali(21), e a minha irmã teve que perder o dia, pra ir com ele ao hospital!

    Diz ele assim:

    - Caiu e ficou mal! Atão, teu irmão disse-me isto *assim, assim*(22); fez-se em burro, em tal parte...

    Olhe, conforme era as mocadas, assim eram os vergões(23) que ele tinha.

    Ilda Martins, Beja, Outubro de 2010

    Glossário:

    (1) Na' – não (houve supressão da acentuação e do o para reproduzir pronuncia popular, uso coloquial).

    (2) Piquenino – pequenino.

    (3) Garreia – discussão, briga.

    (4) Venda – taberna, mercearia da aldeia ou estabelecimento modesto onde se vendem refeições mais baratas.

    (5) Prò/Pro – para o (contração da preposição pra com o artigo ou pronome o; uso popular e coloquial).

    (6) Encruzilhada – lugar onde vários caminhos se cruzam (dois ou mais).

    (7) Partilhas – determinação do que cabe a cada pessoa numa divisão de bens materiais (herança, lucros, património).

    (8) C' aquilo – com aquilo (houve supressão de om para manter a pronúncia).

    (9) 'Pera lá! – Espera lá! – expressão que, no caso, denota a realização de uma conjectura, de uma suposição, uma pausa para colocar as ideias em ordem ou estabelecer um plano.  Houve supressão do es para manter a pronúncia, uso coloquial.

    (10) Monte – regionalismo do Alentejo - «Cada herdade, com raríssimas excepções, contém uma casa ou edifício denominado monte - talvez por ser construído sempre no alto duma colina ou ondulação do terreno, - no qual, além da parte destinada à habitação do proprietário e do seu feitor, ou guardas, existem os celeiros, as arrecadações da ucharia ou dos aparelhos agrícolas, as cavalariças, o forno, a abegoaria, etc. Em algumas herdades há, ainda, outras casas, alugadas aos jornaleiros ou criados da lavoura, designados então por caseiros, - termo de sentido bem diverso do que lhe compete ao norte do Tejo, onde significa feitor.» (Gonçalves:1921:128-129).

    (11) Po' sim, po' não / Por o sim, por o não - pelo sim, pelo não (para prevenir, para acautelar).

    (12) Porróte – bordão, cacete com ponta arredondada.

    (13) 'Tiver – estiver (pronúncia popular do verbo "estar" conjugado, uso coloquial).

    (14) Ma' – mas (supressão do s para reprodução de pronúncia, uso coloquial).

    (15) Mai' – mais (houve supressão do s para reproduzir a pronúncia, uso coloquial).

    (16) -Le – lhe (pronome, registo popular e modo informal).

    (17) Coice – pancada dada com as patas traseiras por um animal (que assenta as quatro patas no chão).

    (18) Pra – para (redução da preposição "para", sua forma sincopada,usadano registo popular, informal).

    (19) Mocadas – pancadas.

    (20) Atão – então, regionalismo de Portugal, de uso coloquial.

    (21) Mali – mal (houve acrescento do i para manter a pronúncia popular).

    (22) Assim, assim (disse-me isto) – isto e aquilo; desta e daquela maneira;

    (23) Vergões – lesões na pele deixadas por uma pancada.

    Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:

    Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares doAlentejo. Porto: Campo das Letras p.100.

    Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.

    Fradinho, Manuel Gomes. (1933). Maneiras de dizer alentejanas. Revista Lusitana, Volume XXXI, Lisboa: Livraria Clássica Editora, p. 111.

    Gonçalves, Luís da Cunha. (1921). A vida Rural do Alentejo. Breve estudo léxico-etnográfico. II - O regime da propriedade rural. A terra e a habitação. O lar e a alimentação. Sistema usual de explorar a terra. Os salariados e os salários. Horário do trabalho rural (pp.128-136). Academia das Sciencias de Lisboa. (1926). Boletim da Classe de Letras (Antigo Boletim da Segunda Classe). Actas e Pareceres Estudos, Documentos e Notícias. Volume XV. 1920-1921. Coimbra: Imprensa da Universidade (p.128-129).

    Nunes, José Joaquim. (1902). Dialectos algarvios. Revista Lusitana, Volume 7, Lisboa: Antiga Casa Bertrand, p.125.

    Pombinho Júnior, J. A. (1935). Vocabulário alentejano — (Subsídios para o léxico português) — (continuado do vol. XXVI, pág. 83). Revista Lusitana, Volume XXXIII, Lisboa: Livraria Clássica Editora, p. 168.

    Ribeiro, José Diogo. (1930). Linguagem popular de Turquel. Revista Lusitana. Volume XXVIII. Lisboa: Livraria Clássica Editora. P.230.

    http://aulete.uol.com.br;http://michaelis.uol.com.br;

    http://www.ciberduvidas.com;

    http://www.infopedia.pt;http://www.priberam.pt

Caracterização
  • Lendas: Lendas do Sobrenatural: Lobisomens

     

    Classificação: Isabel Cardigos (CEAO/Universidade do Algarve) em Setembro de 2011

    Fonte da classificação: base de dados online www.lendarium.org Ver aqui APL 2063, também da zona de Beja

     

     

     

     

     

     

     

Identificação
  • As encruzilhadas
  • Ilda Martins
  • 1939
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Junta de Freguesia da Salvada através da Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Actualmente sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja.
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias que participam em iniciativas do Município de Beja. São convidados na iniciativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Filomena Sousa
Arquivo
  • 11/45:31-53:00-57:14
  • 1/Beja2011/Beja2

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