Os dois velhos e a morte
Em certa aldeia do Norte habitavam dois velhinhos (talvez em Trás-os-Montes, Alto Douro) e já tinham mais de noventa anos de idade. Lembravam-se da mocidade e esperavam breve morte.
Pouco podemos viver – dizia o bom do velhinho.
Deus queira que eu morra adiante,
pa’ não sentir tristemente,
a falta do teu carinho.
Ouvindo isto a velhota, disse ao marido assim:
Se a morte breve vier,
e, se consciência tiver,
leve-me primeiro a mim!
Mas terminou esta conversa já alta noite à hora morta.
Mas quando iam para se deitar,
começaram a escutar
e ouviram bater à porta.
Bateram vezes sem conta, até que pergunta o velho em voz forte:
Quem está aí a bater?
E então ouviram dizer:
Venha abrir! Que é a morte.
A porta, pra morte entrar, ir abri-la nenhum quer.
Então lá diz o marido:
Tenho aqui um pé dorido,
vai lá tu abrir mulher.
A mulher cheia de medo e dizendo baixinho ao ouvido:
Ai, que martírio o meu!
Mas que grande dor que deu!
Vai lá tu abrir marido!
E a porta nada de se abrir.
E a morte o que faz depois?
Era forte e estava irada,
entrou com a porta fechada,
chegou lá, levou logo os dois.»
Edmundo Manuel, 77 anos, Mora (conc. Mora), Junho 2007