Quem morreu
Quem morreu, já não é nada.
Já não tem que saber
e passará a ser igual
ao que era antes de nascer.
Há quem não conheça a vida
porque a tristeza os percorre,
porque quem morreu já na memória
acabou com a sua lida.
Já não faz coisa mexida,
qualquer coisa admirada.
Porque a morte é uma malvada
mata oito e mata nove,
mas seja rico ou seja pobre
quem morreu já não é mai’(1) nada.
Há quem tenha nascido ao mundo,
mas nunca se viu vivente.
E dá que pensar a muita gente,
mas quem souber diz num segundo.
É um problema tão fundo
pra(2) quem não o souber ler,
mas quem bem compreender
pense bem neste assunto:
mais que amor será defunto.
E já não tem que saber.
Eu não gostava de ser eterno,
mas de morrer e ressuscitar
pró(3) ao fim de cem anos voltar
para eu ver quem era moderno.
Eu já apontei num caderno
esse problema afinal.
Inté(4) na história de Portugal
muito tenho lido eu,
mas parecido a quem morreu
passaremos a ser igual.
A quem o sangue parou,
decerto que faleceu,
mas o que na sua vida deveu
com a morte de outro pagou.
Tudo isto se aproximou
por o seu corpo se derreter.
Começa-se todo a desfazer
mesmo debaixo do chão.
Mas dêem-me esta explicação:
o que é que somos antes de nascer?»
Paulatino Augusto, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Mai’ – abreviatura oral de “mais”,
(2) Pra – abreviatura oral de “para a”.
(3) Prò – abreviatura oral de “para o”.
(4) Inté – até.