Quando olhas pra um velhinho
«Quando olhas pra(1) um velhinho,
nunca o vejas com desdém.
Essa é a tua figura,
que um dia fazes também.
Nunca tenhas ilusão
que na’(2) chegas a ser velhote.
Só quem cedo encontra a morte,
só esses pra lá na’ vão.
Mas se tens na vida duração,
mesmo a passo miudinho,
preenches o teu caminho.
E chegas ao fim do contrato
e tens na frente o teu retrato
quando olhas para um velhinho.
Vês um velhinho na rua
e encostado ao seu cajado
e com o corpo já vergado.
Essa figura é a tua.
Porque a vida contínua
e a velhice pra ti vem.
E quando vejas esse alguém,
mete na tua memória
que é um marco da nossa história,
nunca o vejas com desdém.
Quando um novo um velho ver,
vê um membro da sociedade.
E vencido pela idade
e com o queixinho a tremer.
Já sem dentes pra comer,
a caminho da sepultura.
Mas é um retrato na moldura
pelo tempo já vencido,
e depois de o teu percorrido,
essa é a tua figura.
Respeita o pai, se és filho
faz o que ele te pedir.
Que mais tarde pode vir
pra ti o mesmo sarilho.
Encostado a um andarilho
e para se deslocar para além,
pla idade ou não que tem,
é a figura que faz.
Mas não te julgues ser um ás,
tu um dia fazes também».
Horácio Luís Pereira, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Pra: abreviatura oral de “para a”.
(2) Na’: abreviatura oral de “não”.