A Taberna
Olhe, era um senhor que tinha uma taberna e o senhor era já assim de uma idade muito avançada, coitadinho, e na' lhe aparecia, lá pela semana adiante, quase ninguém! Bebiam era vinho ao copo.
E atão ele tinha uma bela filha, uma bela donzela! E o que é que acontece? Ela andava a estudar. E chegava ao sábado e ia logo lá à taberna ver o pai.
Filha – Atão, pai?! Esta semana ganhou pò pãozinho?
Taberneiro – Ora filha! Uma semana muita ruinzita! Uma semana muito gelada...Já sou velhote! Isto é preciso é a gente ter calão! Eu já sou velhote! Isto já ninguém faz caso de mim!
Filha – Deixe que eu agora ao sábado e ao domingo... Vai ganhar pò pão e pà sopinha e pra tudo!
Assim foi. A gaja era muito boa! E atão ia lá pò café.
Andava um matulão a querê-la! Um gajo todo fadista(7)! Que ela também era fadista! E atão o gajo olhava sempre lá pà taberna a ver se ela lá estava. Andava a querê-la! E vai, viu-a lá ao sábado. Até se estremeceu!
Disse pò colega:
– Olha! O dono da taberna já tem ali a donzela! E ando a querê-la! Vamos lá! Vamos pra lá!
Ora eles viram-nos lá, começaram a ir muitos!
– Vá! – Vinha o copo.
Ela vinha logo aviá-los! Vá de comer um tremocinho e vá daí a nada:
– Outro copo!
– Outro copo!
Ora chegou às tantas, o gajo 'tava bêbado! 'Tava perdido de bêbado! O que é que ele faz? Já não podia beber mais, disse assim:
'Tou cheio até aqui ao estreitinho! Já na' posso beber mais um copinho!
Tenho caminho a direito pr'andar. Mas na perna levo o defeito, vou sempre a cambalear!
Chego a casa, olho pra luz, fecho os olhos, catrapuz!
E já na' posso mais olhar! Mas ainda na' perdi as esperanças
de com a donzelazinha, lá da taberna, ir casar!
E havemos de ter muitos filhinhos, pra vidinha boa, com ela passar!
E bem dito louvado o meu continho 'tá acabado!
E sempre casou com ela! Pelo jeito... Telefonaram-me a dizer que ele se casou depois!»
Luísa de Jesus, 76 anos, Amieiras (conc. de Mora), Junho 2007