MEMORIAMEDIA

e-Museu do Património Cultural Imaterial e Memória

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Expressões Orais

Contos, cantos, lendas, adivinhas, provérbios e outras expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial.
Conteúdos organizados por concelho/informante.

 

nome:
Luísa de Jesus
nascimento:
1931
freguesia: Mora
concelho:
Mora                                        
distrito:
Évora
registo: 2007
 
 

Inventário PCI
O Carnaval

Mora

"O Carnaval" -

O número de ovos a partilhar numa refeição de açorda motiva uma zanga séria entre um casal e traz consequências funestas e hilariantes a toda a comunidade.

Luísa de Jesus; Mora; Concelho de Mora, Évora

Registo 2007.

Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson: AT 1365 D*  Quem Comerá o Terceiro Ovo?

 

Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Julho de 2007.
Transcrição

O Carnaval

 

A senhora foi passar o Carnaval em casa do filho. Marido e mulher. Só tinham um filhinho! Dantes o Entrudo, aqui há cinquenta e seis anos, na' queira saber como era! Aquilo eram perus mortos, eram filhoses, era arroz-doce e peru morto e guisado, aqueles assados de peru! Aquela coisa muito boa! A mulher passou lá os dias todos mais o marido na do filho. Depois veio toda atabarrotada com tanta carne... Aquilo eram filhoses (feitas assim como os guarda-chuvas sem varetas) e arroz-doce e azevias... Na' queira saber!

Quando acabou o Carnaval vieram-se embora, quem de lá não é e lá não mora, teve que s'ir embora! Veio de lá muito abatarrotada e, olhe, acontece que chegou cá a casa, disse assim pò marido:

– Ó marido! Que é que hei-de fazer pò almoço?!

Marido – Olha uma açordinha! – É o me'mo que o meu marido diz quando a gente vem de qualquer lado que eu na' tenho comer!

E disse assim a mulher:

– Uma açordinha! Atão vá... Eu ponho três ovos a cozer e fazemos uma açordinha.

Disse assim o marido logo... Espírito santo de orelha!

– Atão somos só dois e pões três ovos?!

Mulher – Eu como dois!

Ele ficou logo azedo!

Marido – Atão? Somos só dois e agora pões três ovos...

Mulher – Atão, eu cá como dois!

Chegou-se à hora da açorda, ela foi fazê-la. Assim foi. Descascou os dois ovos pra ela e o marido só um ovito. E ele disse assim:

– Olha lá! Atão se partisses o ovo ao meio, cada um comia um e metade!

Mulher – Não! Quero comer dois!

Teimou. Tanto discutiram, tanto discutiram (por caso do raio do ovo! Se fosse eu punha meia dúzia, já na' havia briga). Olhe, ele deu-lhe cá um murro! No sítio mortal, aqui por uma fonte... Ela caiu pò chão, ficou morta! Parecia que ficou morta, mas ficou atordoada e aguentou-se assim.

E dantes iam logo tratar da boda! Fazer logo o funeral! (Por isso é que a gente antes 'tá vinte e quatro horas, pra ver se revivemos). Ele foi tratar do funeral, logo do caixão e daquilo tudo e dizer às pessoas... Mas nunca disse que lhe tinha dado um murrozinho com vontade! Acontece que veio a família toda (que ela já na' via há que tempos), veio tudo ao funeral da mulher. E foi assim uma coisa de surpresa...

Até um coxo foi ao funeral.

– Oh, senhor! Fulana morreu! Ai que desastre, aquela senhora morreu tão de repente!

Coxo – Atão eu sou coxo, mas vou também ao funeral!

Lá no cemitério, abriram-lhe o caixão (como é hábito, pra tudo ver) e foi me'mo a hora de ela acordar! Viu tanta gente (que ela há tanto tempo que na' via da família), começou-se a rir! Sabe o que o maroto do homem disse?! O malandreco?!

– Atão agora... – Ele estava com o olho nela. – Atão agora 'tás-te a rir?! Olha, a despesa 'tá feita! Tens que ir!

Ela ainda mais se ria! Via as pessoas...

Marido – Atão, agora 'tás-te a rir?! A despesa 'tá feita, tens que ir!

Mulher – Ai, credo!

A mulher lembrou-se! Saiu do caixão.

Mulher – Hei-de comer dois! E hei-de comer dois! E hei-de comer dois! – Lembrou-se que era do ovo! – Hei-de comer dois!

O acompanhamento abalou todo a fugir. E 'tava lá um coxozinho que foi em muletas.

E ela dizia:

– Hei-de comer dois! Hei-de comer dois!

O coxo dizia assim:

– Ai, de mim! E d' outro! Eu já sei que sou comido! Qual será o outro? Ai de mim! E de outro! – E coxeava e abalava... – Ai de mim! E d' outro! Eu já sei que sou comido, qual será o outro?!

O pessoal todo a fugir... E bem-dito, louvado, o meu continho 'tá acabado! E desculpe se na' é do seu agrado!

 

Luísa de Jesus, 76 anos, Amieiras (conc. Mora), Junho 2007.

 

Caraterização
Identificação
Tradições e expressões orais
Manifestações literárias, orais e escritas
O Carnaval
1931
Luísa de Jesus
Contexto de produção
Contexto territorial
Mora, Casa da Cultura de Mora
Mora
Mora
Évora
Portugal
Contexto temporal
2007
Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Mora e escolas
Património associado
Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
ativa

Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Mora. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas. Participam em iniciativas do Fluviário de Mora e da Casa da Cultura. Destacam-se as seguintes actividades desenvolvidas desde 1999:

 

- Encontro de Contadores e Histórias - 1999 a 2005

- Ti Tóda - Conta-me eum conto, estafeta de contos - 2001 a 2004

- As lendas vão à escola - 2005

- O Talego Culto - 2007

- O Talego ambiental - 2007 a 2008

- Comunidade do Canto do Lume

Português
Equipa
Maria de Lurdes Sousa
José Barbieri
José Barbieri

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