[Perdizes para o almoço]
Era no tempo que se caçava todos os dias e que havia muita caça. Agora não há nada, só caçadores! E atão vão dois compadres e um era caçador e o outro não era. O compadre que era caçador matou duas perdizes e disse assim:
– Olha compadre, ontem matei duas perdizes.
Compadre – Ehh, compadre! Eu gosto tanto de perdiz!
Caçador – Gostas?
Compadre – Gosto. Gosto muito de perdiz. Até tenho pena de não ser caçador.
Disse o caçador:
– Bem, matei duas.
Chegou lá a casa e disse pa' mulher:
Caçador – 'Tive a dizer ao compadre que matei duas perdizes. E ele disse-me "Ai! Gosto tanto de perdiz!". Ó mulher, se calhar vou convidar o nosso compadre a vir comer uma perdiz mais a gente! Resquintas aí as duas perdizinhas, à moda da casa como tu sabes, e eu vou convidar o nosso compadre pra ele cá vir comer mais a gente.
Mulher – Atão, vá!
Caçador – E vou dar outra volta.
Mulher – Atão, não lhe disseste logo pra vir?
Caçador – Não. Eu na' sabia se tu querias fazer isso. Atão vá, eu vou dar outra voltita amanhã à caça, vou ver se mato mais uma peçazita, e passo por lá e convido o nosso compadre. Fazes cá as perdizes, que ó'pois vimos almoçar.
E atão assim foi, ela ficou a fazer as perdizes. Mas tinha lá uma vizinha muito gulosa! Deu-lhe o cheiro, era porta com porta, disse assim:
Vizinha – É vizinha, o que é que está a fazer? Ah, cheira-me tão bem! Ehhh! Que cheiro tão bom! Ai, que bem que me cheira!
Mulher – Olhe, melhor há-de saber a quem as há-de comer! 'Tou a fazer aqui duas perdizes –já tinha a mesa posta e tudo –, que o meu marido convidou o compadre para vir cá almoçar mais a gente, que ele gosta muito de perdiz.
Vizinha – Ai, vizinha! Desculpe, mas deixe-me provar um bocadinho! Ah! Cheira tão bem! Ó vizinha, deixa-me provar um bocadinho!
Mulher – Na', senhora! Isto é pa' gente almoçar mais o meu compadre. Se fosse sozinhos, até deixava.
Vizinha – Ai vizinha, mas eu tenho que provar!
Mulher – Ora! Eu na' quero as perdizes defeituosas, vizinha! É para vir o meu compadre almoçar...
O que é que ela fez? Arrancou logo uma perna à perdiz e toca a comer!
Mulher – Ai, Jesus me valha! Atão agora já tenho a perdiz defeituosa! Atão, o que é que eu ponho na mesa?!
Vizinha – Ah, vizinha! Coma também, senão vê-a ir! Coma, senão vê-a ir!
Vá de comer bocados!
Vizinha – Ah! Sabe tão bem!
Disse a mulherzinha assim:
– Se calhar sempre tenho que comer... Senão vejo-a ir! – Como ela dizia!
Vizinha – Ah, vizinha, sabe tão bem! Coma, vizinha! Na' faça cerimónia!
Toca a comer.
Mulher – Atão e agora o que é que eu hei-de...
Vizinha – Ora vizinha, o que é que tem?! A gente agora vamos comer a outra!
Começou a comer a outra! Eram duas, era uma a cada uma! Começaram a comer a outra!
Disse a mulher:
– Ai, Nossa Senhora! Atão agora tenho a mesa posta, na' tenho nada pò almoço! O que é que digo ao meu marido, que o meu compadre vem cá almoçar...
Vizinha – Ora vizinha! Na' se rale que eu venho cá pregar uma mentirinha! Quando eles chegarem venho cá pregar uma mentirinha!
Mulher – Mentirinha?!
Deitaram-se à perdiz as duas, comeram-na logo num instante! Aquilo sabia tão bem!
E atão acontece que assim que os viu vir, a mulher chamou a vizinha:
Mulher – Ah! Vizinha! Venha cá pregar a mentirinha, que já lá vem o me' compadre e o me' marido pa' não almoçar! Ai, Jesus me valha!
Disse ela assim:
– Eu, vizinha?! Ir pregar uma mentira à casa de uma vizinha!? Quando eu prego mentiras que seja na minha!
Nunca lá quis ir! A mulher agarrou-se à cabeça e disse:
– Ai, Nossa Senhora! Agora o que é que eu faço?! Ai, Jesus! Vou pôr ali o alguidar no quintal...
Entrou pa' porta do quintal.
Mulher – Vou ali pôr um alguidar e as facas e hei-de estudar a mentira pra quando o meu marido chegar... O compadre já além vem...
Mesa posta e o cheirinho das perdizes ainda lá estava, mas as perdizes... viste-las! Já se haviam sumido!
A mulher é que teve de estudar a mentira e disse assim:
– Olhe compadre, assente-se! Faça favor, a casa é toda sua! Assente-se! Anda cá marido, vamos lá ali ao quintal.
Chamou o marido.
Caçador – Atão, o que é que queres?!
Mulher – Ó homem, vem lá ali amolar as facas. É uma vergonha, não temos uma faca que corte! – Ele foi lá pò quintal.
O compadre, coitadinho, ficou ali a olhar para as paredes e pa' mesa, mas as perdizes não as via, e disse assim:
– Atão, o compadre 'tá a fazer o quê?
Mulher – Ai, compadre! Nossa Senhora! Vossemecê fuja! O compadre 'tá a amolar as facas e diz que é para lhe cortar uma orelha! É para lhe cortar as orelhas!
Compadre – Ai! Nossa Senhora, mas atão o que é que deu no compadre?!
Mulher – Olhe! 'Tá a amolar as facas que é para lhe cortar as orelhas!
Compadre – O compadre?!
Mulher – Fuja enquanto é tempo, antes que aconteça o desastre!
Começou a fugir o compadre e a mulher foi dizer ao marido:
– Olha marido, o nosso compadre já fugiu com as perdizes!
Ela é que 'teve de estudar a mentira!
Mulher – Fugiu cas perdizes!
O homem largou as facas e foi a correr.
Caçador – Ó compadre! Dá cá nem que seja só uma!
Compadre – Qual uma, nem duas! Quem quiser orelhas, corte as suas!
E o homem fugiu, fugiu...
Caçador – Ó compadre, por amor de Deus, dê-me cá homem! Dá-me nem que seja só uma!
Compadre – Qual uma, nem duas! Quem quiser orelhas, corte as suas!
Nunca ninguém mais o apanhou e, coitadinho, o compadre ficou sem perdizes... E elas comeram-nas!
E bendito louvado, o meu continho está acabado e desculpem se na' é do vosso agrado!
Luísa de Jesus, 76 anos, Amieiras (conc. Mora), Junho 2007.