Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

A mulher do maioral

nome:
Mariana dos Santos Pacheco (Mariana Bicho)
ano nascimento:
1938
freguesia: Salvada
concelho:
Beja                                           
distrito:
Beja
data de recolha: Outubro 2010
 
 

Dados de inventário
  • A mulher do maioral
  • Beja

    “A mulher do maioral”-Uma mulher tem o padre por amante e o seu marido de nada desconfia…

     

    Mariana Bicho; Salvada; Ano de nascimento: 1938; Concelho de Beja.

    Registo 2010.

Transcrição
  • A mulher do maioral(1)

     

    Um môral(2)! Coitado, andava guardando as ovelhas… Era môral de ovelhas! E ficava lá toda a noite ao pé do gado.

     

    E o que é que a mulher dele faz? Ia todos os dias à missa, deu em dormir com o padre! Era amiga(3) do padre!

     

    O desgraçado na’(4) apanhava nada…Até que ele um dia, diz assim:

     

    - Oh! Atão(5), mas eu na’ vou nenhum dia à missa… Eu tenho que ir à missa. A minha mulher vai direitinha pò(6)Céu e eu fico cá!

    Bom, chegou lá – e o homem (…) chamava-se Domingos – ela já ‘tava(7) toda composta, toda perfumada pra ir à missa. Viu vir:

    - Atão, onde é que vens?!

     

    - Ai mulher, vou à missa! Olha, hoje deixei as ovelhas lá presas e vou à missa.

     

    - Ah sim, marido?

     

    - Sim. Vou à missa.

    Chegou, ele olhou, olhou, na’ a viu. Mas viu-o a ele e fez-lhe assim [com um aceno de cabeça lhe disse]:

    - Olá, Ti(8)Domingos-ovelha!

    Ele voltou pra casa, disse assim à mulher:

    - Olha lá, mulher? Sabe o que o senhor padre me disse?! “- Olá, Ti Domingos ovelha!”

     

    - Ah, sim?! Ah!!! Disse-te isso?

     

    - Disse!

     

    Bom, no outro dia, ovelhas presas outra vez. Foi com ela. Viu…

    - Ai, marido! Ontem na’ fui à missa, mas hoje tenho que ir! Tenho que ir descompor o senhor prior!

     

    Chegou – ela doía-lhe uma perna, na’ podia ter ido à missa! – e atão lá ia ela toda coxa. O que é que ela faz?

    - Olha! Ai marido, tens que me levar às caveritas(9)!

     

    Lá foi o desgraçado do môral com ela às caveritas. Uma bicha daquelas, sem prestar pra nada! [Risos]. Lá foi ela.

    Bom, chegaram lá (…) olhou, viu os dois. E fez-lhe assim:

    - Olá, Ti Domingos-ovelha.

     

    - Olhe lá, senhor padre Cabrita!

    Pai da minha Marianita,

    estragador dos me’s(10) lençóis,

    comidor(11) dos me’s perus,

    pai dos me’s filhos todos!?

    Chamar Domingos–ovelha ao me’ marido?

    Chama Domingos-cornêlha(12)!

    Que dá três voltas

    por detrás das orelhas!

    Cabrão que me trouxe,

    cabrão que me alevante(13)

    que nas costas dele

    me hei-de de ir montar!

     

    - Oh, mulher! Na’ digas tantas coisa ao senhor prior! - [Risos]. Coitado! Sem entender nada! Do que ela dizia…

    - Atão, marido?!

     

    - Na’ digas mais coisas mulher! Na’ descomponhas o senhor prior!

     

    Coitado, tã’(14) inocente sem ver nada… [Risos].

     

    Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010

     

    Glossário:

    (1) Maioral – «chefe dos pastores da mesma herdadehttp://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa-ao/maioral

    (2) Môral – môral (contracção de maioral «principal pastor do gado. No ms. 1º. acha-se escrito moural. Num doc. do sec. XIII, publicado pelo snr. Gabriel Pereira nos seus Doc. da cidade de Evora, lê-se mayoral de gaados (pag.28).» Vasconcelos, J. Leite de. (1890-1892). Dialectos alentejanos. Revista Lusitana. Volume II, Livraria Portuense, pp.22-23.

    (3) Amiga – amante.

    (4) Na’ – não (pronuncia popular, uso coloquial).

    (5) Atão“então”, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial.

    (6) – “para o”, forma sincopada de prò (contração da preposição pra com o artigo ou pronome o), uso popular e coloquial.

    (7) ‘Tava – “estava” ( pronúncia popular do verbo “estar” conjugado).

    (8) Ti – o mesmo que tio. Forma de tratamento que, em Portugal e sobretudo na província, no campo, é usada para homens de certa idade e de condição modesta.

    (9) Caveritas – cavalitas ( hipótese pelo contexto e pela acção).

    (10) Me’s – meus (supressão da vogal u para reprodução da pronúncia).

    (11) Comidor – comedor.

    (12) Cornêlha«Cornêlhas, aneis de pano, recheados de lã, que se enfiam nos cornos dos bois para que o aperto da firma, ao preencher o jugo e milhêlhas, não vá ferir os bois na base dos cornos. Vid. apeiros.» Azeredo, Álvaro de. (1908). Apontamentos sobre a linguagem popular de Baião. Revista Lusitana, Volume XI, Lisboa: Imprensa Nacional, pp. 192.

    (13) Alevante – levante (verbo levantar).

    (14) Tã’ – tão (de tal maneira, em tal grau).

     

    Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:

    Azeredo, Álvaro de. (1908). Apontamentos sobre a linguagem popular de Baião. Revista Lusitana, Volume XI, Lisboa: Imprensa Nacional, pp. 192.

    Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares doAlentejo. Porto: Campo das Letras. p.31, 128.

    Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.124.

    Chaves, Luís. (1916).Folclore de S.ta Vitória do Ameixial. Volume XIX. Lisboa: Livraria Clássica Editora, p.320.

    Pires, A. Tomás. (1907). Vocabulário alentejano. Revista Lusitana. Volume X, Lisboa: Imprensa Nacional, p.96.

    Santos, Felício dos. (1897-1899). Linguagem popular de Trancoso. Revista  Lusitana. Volume V, Lisboa: Antiga Casa Bertrand, p.170

    http://aulete.uol.com.br; http://ciberduvidas.sapo.pt; http://michaelis.uol.com.br; http://www.ciberduvidas.com; http://www.infopedia.pt; http://www.priberam.pt

     

     

     

     

     

     

Caracterização
  • Conto jocoso: Ciclo do Marido Tolo: Boggs *1424, Domingos Ovelha (Wife has husband carry her on his back to lover where she makes fun of husband).

     

    Classificação: Isabel Cardigos (CEAO/Universidade do Algarve) em Setembro de 2011.

    Fonte da classificação: Isabel Cardigos, Paulo Correia, J. J. Dias Marques, Catalogue of Portuguese Folktales, “F.F. Communications nº 291 “ Academia Scientiarum Fennica, Helsínquia, 2006. Elaborado a partir dos catálogos internacionais, nomeadamente o “Aarne-Thompson” (The Types of the Folktales, “F.F.C. nº 184, Helsínquia1961) e a recente reformulação de Hans-Jörg Uther, The Types of International Folktales: A Classification and Bibliography, “F.F.C. 284-286”, Helsínquia 2004.Foi utilizada a reformulação portuguesa ampliada, ainda inédita. Neste caso, foi adoptada a classificação de Ralph Boggs, Index of Spanish Folktales, “F.F. C. nº 74”, Helsínquia, 1930.

Identificação
  • A mulher do maioral
  • Mariana Bicho
  • 1938
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Junta de Freguesia da Salvada através da Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Actualmente sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja.
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias que participam em iniciativas do Município de Beja. São convidados na iniciativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

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