O Rapaz-Porco
Era uma senhora, também na' tinha filhos, e atão, um dia, disse:
– Ó Me' Deus! Quem me dera ter um filho. Nem que fosse um porco gordo!
Realmente ela teve esse filho – o porco gordo.
E, atão, o porquinho gordo, um dia 'tava à janela e viu passar um casamento.
Porco – Ó mãe! Que é aquilo que vai além?
Mãe – É um casamento, filho!
Porco – Ah! Atão, eu também quero casar!
Mãe – Ó filho! Atão tu és um porco gordo... Quem é que quer?
Porco – Quem é que quer?! A filha do sapateiro. A mais velha! Vai lá pedir ao sapateiro pa' me dar a filha!
Lá moeu a mãe. A mãe foi ao sapateiro, pa' dar a filha.
Mãe – Olhe, o meu filho quer que você case a sua filha. Que ele quer casar com ela.
Casaram. Mas ele, nessa noite, matou a filha!
No outro dia, a mãe chegou lá:
– Ó filho! Olha o que tu fizestes!
Porco – E agora quero casar, outra vez.
Mãe – Atão tinhas uma mulher – mataste-a. Agora queres outra?
Porco – Quero! Quero a filha do sapateiro, a do meio! Vá lá pedi-la, que ele... Ele dá-me a filha!
Lá foi lá a mãe chatear o sapateiro. O sapateiro muito zangado, mas lá lhe deu a filha.
E ele fez-lhe o mesmo! O porquinho gordo fez-lhe a mesma coisa!
Mãe – Ó filho, atão tu fizeste um trabalho destes outra vez!
Porco – E agora quero casar, outra vez!
Mãe – Não pode ser! Atão, já tiveste duas mulheres, mataste-as!
Porco – Mas vou casar com a filha do sapateiro, com a mai' nova!
Assim foi. Naquele dia casaram. Á noite, ele disse pra ela:
– És capaz de despir sete saias, enquanto eu dispo sete peles?
Moça – Vou tentar.
Ela despia uma saia, ele despia uma pele. Ao fim das sete, um príncipe lindo, lindo, lindo – encantado. Lindíssimo! E diz-lhe pra ela:
– Tu agora não contas o segredo! – Se a gente tiver um segredo, a gente vai contar já, não é? – Tu agora não contas o segredo a ninguém! Este segredo é só nosso!
Mas... Chegou lá a mãe dela (porque pensou que a filha 'tava morta e 'tava bem viva!):
– Ó filha, como é que foi!?
Moça – Não! Não posso contar.
Mãe da moça – Ah filha, mas é só pra mim!
Assim que ela contou à mãe, ele apareceu logo. Apareceu e disse:
– Agora, perdeste-me para sempre! E se me quiseres ir achar tens de ir correr mundo.
E ela, coitadinha, correu mundo. Correu, correu... Já tinha os pés já feridos e já tudo e não conseguia achar o príncipe encantado dela (que era lindíssimo). E atão, um dia, ela passou e procurou ao Sol se viu o príncipe. O Sol disse que não.
Procurou à Lua – também não. Também, ninguém viu. Procurou à prima da Lua:
– Também não vi.
E atão, olha, procurou ao Vento: "pode ser que o vento saiba". E atão procurou ao Vento. E o Vento disse:
– Olha, esse homem 'tá pa' casar amanhã! Eu passei lá hoje, fiz um grande pé-de-vento.
– Vento d'um cabrão! Vento de um corno! – Que é o que a gente, às vezes, costuma também dizer. Isto o conto é contado assim, né? – E atão, no fim, ficaram zangados comigo, que eu enchi-lhe os bolos de pó!
E atão no caminho, antes dela lá chegar, encontrou uma velhinha. E a velhinha disse:
– Olha, levas este faqueiro que ainda te vai ser preciso. E leva daqui esta toalha muito bonita, que também te vai ser precisa. – E assim foi. Ela foi.
E o senhor casou. E ela disse-lhe, quando lá chegou à noite, pa' senhora que tinha casado com o príncipe:
– Olha, a senhora deixa-me dormir uma noite co o seu marido?
2ª. Esposa – Ai! Ainda hoje casei e agora já vai dormir uma noite com o meu marido! Não. Ainda hoje casei! – E não quis.
Moça – Oh, mas eu dou-lhe esta toalha, que é tão bonita!
E disse assim a empregada:
– Ah! Deixe lá! Ela dá-lhe a toalha, que é tão bonita, e a senhora fica ca toalha.
E assim foi. Mas ela deu-lhe o chá das dormideiras, o senhor deixou-se dormir nunca mais (...) ela falava pra ele e ele não ouvia! Mas, por baixo, tinha um cocheiro (que era uma coisa de cavalos) e, atão, ela dizia pra ele:
– E não te lembras disto? Não te lembras daquilo? Na' te lembras assim? Na' te lembras assado?
E ele na' respondia, porque 'tava a dormir na' ouviu.
Mas o cocheiro, em baixo, ouviu e dizia assim:
– Ó patrão? Atão, o que é aquilo?! Esta noite era a sua mulher a falar e você na' ouvia? "Na' te lembras disto e daquilo? E disto e..."
E ele começou-se a recordar de tudo, do que é que tinha dito pa' outra senhora.
Porco – 'Tá bem!
Nesse dia, à noite, apareceu lá a mulher outra vez:
– Olhe lá, deixe-me dormir mais uma noite co seu marido!
2ª. Esposa – Já? Outra vez?! Você dormir mais uma noite com o meu marido? Atão, na' vê que não?
Moça – Mas eu dou-lhe este faqueiro! É muito bonito.
Mas a empregada – Ah! Dá-lhe o chá das dormideiras e ele fica lá a dormir à mesma.
E assim foi. E ela disse assim:
– Olha, beba lá o chá das dormideiras!
Porco – 'Tá bem. Põe aí que eu já bebo.
Mas ele despejou o chá pra dentro do penico e na' bebeu.
E ela falou com ele:
– Olha, na' te lembras disto?
Porco – Lembro.
Moça – Na' te lembras assim?
Porco – Lembro.
Moça – Na' te lembras assado?!
Porco – Lembro!
Tudo! Quer dizer, aquilo que ela dizia, ele lembrava-se de tudo.
Porco – Atão, 'tá bem. Depois já não abalas daí!
No outro dia, 'tava na hora do almoço, 'tavam a almoçar e disse assim:
– Ó padrinho! Eu tinha uma chave velha e agora tenho uma chave nova. O que é que pertence ficar a servir? É a chave velha ou a chave nova?
Padrinho – È a chave velha.
Porco – Tome lá a sua filha que eu na' me servi dela! – Entregou a filha ao pai (que na' se tinha servido) e ficou com a chave velha que era a mulher antiga.
E atão eles ficaram assim: felizes para sempre. E ficaram contentes! Mas ela correu muito, muito, muito... Primeiro que ela conseguisse chegar e apanhar! Mas lá na Graça de Deus, lá o apanhou!
Deus seja louvado e este conto 'tá contado!
Maria Bernardina, Mora, Junho de 2007