A inventariação do PCI e o MEMORIAMEDIA
A importância atribuída à inventariação nos processos de valorização e salvaguarda do PCI tem suscitado um debate crítico ao qual o projeto MEMORIAMEDIA não é alheio. Entre os temas mais discutidos estamos particularmente atentos às seguintes questões:
• Pode o processo de inventariação reduzir “a cultura de determinada comunidade (…) a expressões culturais particulares sem considerar as dimensões económicas, hierárquicas, de parentalidade ou simbólica do grupo estudado”? (Isnart, 2013: 125);
• É possível exprimir a complexidade do real através de fichas de inventário? (Isnart,2013) 29 . Poderão outras metodologias, mais qualitativas, promover uma visão mais holística da manifestação cultural? (Grenet, 2013);
• “Sendo o inventário adequado ao estudo de bens fixos (objetos, sítios ou monumentos) também se ajusta à natureza dinâmica das expressões culturais imateriais?” (Bortolotto, 2011c: 10).
Resumindo, é importante refletir sobre o papel dos inventários nos processos de patrimonialização da cultura imaterial e perceber se a inventariação está ou não Em França a “ênfase colocada na elaboração de inventários chegou a ser apelidada de 'fétiche de la fiche'” (Isnart, 2013: 125) a ser sobrevalorizada enquanto uma das principais formas de estudo, difusão e salvaguarda do PCI (Bortolotto, 2011c; Grenet, 2013; Isnart, 2013).
Segundo o n.º1 do art.º 6.º do Decreto-Lei n.º 139/2009, que estabelece o regime jurídico português de salvaguarda do PCI, “a salvaguarda do património cultural imaterial realiza-se, fundamentalmente, com base na inventariação“, daí que este procedimento seja entendido como essencial e um primeiro passo para todo o processo de patrimonialização.
Consideramos que a utilização desta técnica extensiva justifica-se na medida em que a inventariação permite um “levantamento participado, sistemático, actualizado e tendencialmente exaustivo das manifestações do património cultural imaterial”, como acrescenta o n.º 2 do mesmo artigo, e com o qual concordamos. À partida o recurso exclusivo a metodologias intensivas, como por exemplo estudos monográficos, não permitiriam avançar, num primeiro momento do processo, com o conhecimento alargado (nacional, regional ou local) das manifestações que as comunidades identificam como património cultural imaterial.
Entendemos, porém, que os atuais inventários hipermédia devem ser utilizados como ferramentas capazes de albergar (em ficheiros, links e registos audiovisuais associados) o conhecimento produzido segundo diferentes metodologias, agregando aos dados síntese e descritivos da expressão cultural uma produção de conhecimento mais elaborada.
No caso do MEMORIAMEDIA o processo de inventariação passa pela pesquisa em campo e pela utilização de metodologias complementares, não limitando o inventário ao preenchimento de fichas de dados. Um dos trabalhos mais estimulantes do projeto é a realização de documentários e registos etnográficos que implicam a utilização de metodologias qualitativas e de técnicas específicas.
Por outro lado, associam-se aos diversos campos do inventário diários de campo, artigos científicos, criações fotográficas, entrevistas, recensões críticas, monografias e outras formas de conhecimento da autoria das equipas de investigação, fornecidas pelos protagonistas das manifestações culturais ou da autoria de outros investigadores e/ou entidades que se dedicam ao estudo de determinada expressão cultural.
O Inventário é, nesta perspetiva, entendido e utilizado como uma ferramenta, um meio para sistematizar o conhecimento elaborado segundo diferentes métodos que se complementam mas não se substituem. Não é um fim ou uma metodologia isolada é um instrumento de trabalho de fácil consulta que permite criar pontes entre dados síntese, análises e estudos complexos, documentação e recursos hipermédia relacionando património cultural imaterial, material e natural. Este é o objetivo do projeto na inventariação das manifestações que trabalha.
Filomena Sousa