A Poesia Alentejana
«A poesia alentejana
é pra ser dita ou cantada.
Quando é escrita e lida
é sempre prejudicada.
Escrever bem não é poesia
é cultura aprendida.
É uma parte da vida
aprender o que não sabia.
Mas ser poeta é teoria
onde muita gente se engana.
É uma vocação humana,
que não se pode mudar.
Mas é pra se dizer ou cantar
a poesia alentejana.
Escrita, perde a beleza.
Perde a nacionalidade
e baixa de qualidade.
Deixa de ser surpresa.
São dotes que a natureza
dá a uns tudo, a outros nada.
E só a pessoa dotada
pode e sabe apresentar.
A poesia popular
é para ser dita ou cantada.
Ouçam com atenção
as guitarras a tocar.
E os poetas a mostrar
toda a sua vocação.
Mantendo uma tradição
que na’(1) pode ser perdida!
Jamais será esquecida
sendo palavras do autor.
Mas perde muito de valor
quando é escrita e lida.
Quem escreve quer emendar
o que na’ sabe fazer.
E de bem que quer escrever
começa a prejudicar.
Que a poesia vulgar,
bem ou mal interpretada,
tem que ser ouvida e julgada
por poetas corajosos.
Porque escrita por curiosos
é sempre prejudicada.»
Eusébio Pereira, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Na’: abreviatura oral de “não”.