Amiga, diz-me a verdade
«Amiga, diz-me a verdade.
Não enganes meu coração.
Diz-me decerto se és minha
e se eu sou teu ou não.
A certeza de ser teu
eu gostava já de saber.
E se tu me quisesses dizer,
muito contente ficava eu.
Foste a mulher que me apareceu,
mas foi à minha vontade.
Eu peço com caridade
a todos os todos os santos que houver:
queres ou não ser minha mulher?
Amiga, diz-me a verdade.
Sejas pura e radical.
Eu peço-te neste momento.
Se na’(1) me quiseres pra esse intento
eu nunca mais te falo em tal.
Eu quero saber afinal
qual a minha a situação.
Eu digo com honra e brasão,
com carinhos de amor,
faz-me este favor:
na’ enganes meu coração.
Eu estou muito interessado,
como tu bem sabes e vês.
E atão(2) sejas mulher cortês
na’ me tragas enganado.
Se te puseres ao teu lado
eu nunca te deixo sozinha.
É o maior gosto que eu tinha
digo isto com prazer.
Quando me tornares a escrever
diz-me decerto se é minha.
Eu conto sempre contigo.
E espero por ti todos os dias.
E por aquilo que tu me dizias
nunca deixo de ser teu amigo.
Como dizia, ainda te digo:
és a minha perdição.
Mas temos de dar um apertão
e um abraço como manda a lei,
porque assim só, não sei
se eu sou teu ou não.»
Luís Ricardo, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Na’ – abreviatura oral, de uso informal e coloquial, de “não”.
(2) Atão – regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que significa “então”.