Poema ao Pescador
És forte como o mar,
Feliz como a sereia.
És como peixe a nadar,
Fino, tal como areia.
Perspicaz como a gaivota,
Rápido como o peixe-espada,
Leve como a branca vela
Levada pela nortada.
O teu corpo musculado,
O jeito do teu andar,
Os teus braços calejados
Dos remos tanto puxar.
Tuas redes estão desertas
Mas olhas o mar de frente.
Para a faina, logo despertas:
Voltas ao mar novamente.
Pescador, homem rude!
Na tua face crispada,
Que esse encanto não mude –
Tens muito e não tens nada.
Uma vida de tormento
Para não pedir esmola.
Tanto peixe e tanto vento
Pra morrer junto da aiola.[1]
[1] Embarcação de pesca usada na região de Setúbal.