A apanha da cereja
"Andei dezasseis anos a apanhar cereja. A gente ia todas lavadinhas, todas com os cabazes com muitas fitas penduras, à monda. No outro trabalho do campo a gente não ia tão limpas como ia para a cereja. A gente ia limpas na mesma, não é? Mas para a cereja, levava-se aquele cabaz com um ramo de fitas pendurado pelo cabaz abaixo. Todas contentes!
O primeiro ano que eu fui para lá fui ganhar dezassete escudos o dia. [As fitas no cesto] era para enfeitar! Calçava-se umas meias por cima umas das outras. Enrolava-se… Enrolava-se assim tudo e depois à noite puxava-se para cima, que era para a gente irmos todas bonitas. É muito giro. Para os outros trabalhos do campo a gente não fazia isso, para a cereja é que era assim.
Tinha um avental cor-de-rosa com um folho todo à volta, com uma rameira para trás ainda mais com um folho de renda… E assim é que a gente ia. E era lenço na cabeça! Agora é um chapéu. E era lenço na cabeça, que a gente ia com aquele lenço atado ao alto. É pá, cantava-se muito! De uns cerejais para os outros! Para as outras!"