Apanha da cereja
Era um rancho de mulheres. A gente ia cedo, depois vinha almoçar, depois tornávamos a ir para lá outra vez… Era de sol a sol, naquele tempo era assim… Andavam mulheres do meu pai, andavam outras de outro lado... Depois elas cantavam ao desafio umas com as outras. Era alegre, no campo. Naquela altura era alegre. No tempo da cereja era muito alegre. As mulheres subiam pelas árvores acima e depois começavam a cantar umas com as outras. Vinham também do Casal das Eiras – eram velhas e novas; era raparigas novas e já pessoas de idade. Agora não, porque agora também não há povo para apanhar; porque as velhas, quer dizer, morreram, e as novas, está tudo empregado. E acaba-se. E há menos cerejeiras e mesmo a pouca que há, fica em cima das árvores porque não há quem apanhe. Naquele tempo a gente apanhava e mandava para Lisboa. Vinha aqui uma camioneta buscar a fruta e a gente manda para a praça de Lisboa.