A fome
O meu pai contava que, no tempo da fome (realmente ele falava um bocadinho da fome… pouco) as pessoas que trabalhavam no campo (tudo trabalhava de enxada, não é? A cavar e enfim, de volta do campo), só comiam tremoços. Diz que era por todo o lado onde eles paravam, onde eles passavam, montes de cascas de tremoços. Era o que as pessoas mais comiam para se alimentar. Era só tremoços.
Depois, no outro ano (foi só um ano), no outro ano a seguir, já as pessoas cultivavam. Em vez de vender, já guardavam – porque acho que o Salazar tinha dito que livrara o povo da guerra, mas não o livrava da fome. Tudo o que as pessoas produziram, venderam. E tudo, foi tudo embora. Eles corriam os moinhos aqui à volta à procura de farinha para fazer pão e não havia; não havia nada. Foi tudo, tudo; foi tudo embora. Foi um ano terrível.
Georgino Rodrigues ,2010, Maceira ,Torres Vedras