A montaria do javali resulta de um esforço coletivo que envolve uma logística particular e um conjunto de especialidades cuja origem podemos associar ao modo de vida de comunidades coletoras. O javali pode fornecer uma quantidade apreciável de carne. Sendo um animal gregário, uma estratégia de caça combinada entre batedores e caçadores pode resultar na morte de diversos animais, compensando o esforço coletivo.
O evento inicia com os preparativos de receção dos caçadores. A partir das 5 da manhã, um pequeno grupo de organizadores reúne-se na sede e prepara uma série de comidas para alimentar os participantes antes do início da caçada, pois esta prolonga-se por várias horas. Estas comidas revelam a sua origem mediterrânica - Açorda d'Alho com Ovos, Fatias Douradas, Sardinhas Estivadas na brasa, Guisado de Galinha e Guisado de Javali. Por volta das 7 horas começam a chegar os participantes que se inscrevem na caçada. Entretanto vão chegando os matilheiros com as respetivas matilhas de cães pisteiros, ensinados para perseguir e sinalizar a caça.
Alguns membros da associação, os postores, vão trocando informações com o coordenador da caçada que organiza a distribuição dos caçadores ao longo das "portas", lugares fixos espaçados 200 metros ao longo dos caminhos da área da batida, que cobre cerca de 500 hectares. As "portas" desenham uma armadilha no terreno onde os caçadores esperarão o aparecimento dos javalis acossados pelos batedores e respetivas matilhas.
Por volta das 10 da manhã, com instruções precisas de colocação, os postores transportam os caçadores em carrinhas abertas até aos locais designados, enquanto 4 matilhas e matilheiros são largados em locais situados na borda da área de caça. A partir daí as matilhas são dirigidas para o centro da área batendo a caça em direção aos caçadores.
No terreno reina o silêncio pontuado por latidos dos animais. Cerca de uma hora após o início da caçada, ouvem-se os primeiros tiros. A partir de um monte central a equipa de coordenação usa rádios para comunicar com os batedores. Este trabalho era antes assegurado por tocadores de trompa e outros instrumentos que usavam um código de sinais sonoros. Ao fim de duas horas havia 10 javalis mortos (segundo os caçadores, a caçada estava a correr bem). Duas equipas encarregam-se de recolher os animais mortos.
De volta à sede, nos Morenos, os animais são descarregados e imediatamente se procede ao desmembrar e ao corte, com todos os caçadores a colaborar na transformação dos animais em pilhas de carne. Toda a carne é distribuída equitativamente em montes que são tantos quanto os participantes. Só depois da distribuição os participantes podem sentar-se a comer e a trocar as histórias da caçada.
Entre os participantes nesta caçada estavam rapazes e raparigas que acompanhavam os pais e avós e que disseram querer continuar esta atividade. Percebe-se, por alguns testemunhos destes jovens, que o fascínio por verem o "trabalho das matilhas" e a "morte limpa do bicho" são dois dos motivos para quererem ser caçadores. A presença de mulheres e raparigas caçadoras é revelador de como esta atividade está a deixar de ser uma coutada masculina.
A caçada foi filmada em Morenos, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Tavira, com a colaboração do Clube de Caça e Pesca dos Morenos e do seu presidente Fernando de Jesus. O Clube de Caça e Pesca dos Morenos foi constituído em 1998 e atualmente tem cerca de 37 associados. Gere a Zona de Caça Associativa- ZCA dos Morenos, com uma área de cerca de 1254 hectares. Este território abrange as freguesias de Tavira, Santa Catarina da Fonte do Bispo e Luz de Tavira e Santo Estêvão. Na ZCA dos Morenos, entre outros animais, caçam-se espécies sedentárias como lebre, coelho, perdiz, javali.