Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

O Mãos-largas

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nome:
Custódia Mariana
ano nascimento:
1927
freguesia: Cabeção
concelho:
Mora                                 
distrito:
Évora
data de recolha: 2007
 
 

Dados de inventário
  • O Mãos-largas
  • Mora

    "O Mãos-largas" - A avareza que corre numa família conduz a uma fatalidade, mas a bondade de uma menina quebra esse ciclo e logo um milagre acontece e quem é mau transforma-se em bom.

    Custódia Mariana; Cabeção; Concelho de Mora, Évora

    Registo 2007.

Transcrição
  • O Mãos Largas

    Era uma vez um homem que lhe chamavam os Mãos Largas. Aliás, Mãos Largas é pra quem dá tudo, né? E ele na' dava nada. E ó'pois por isso é que lhe puseram aquela alcunha. Era os Mãos Largas.

    Quer dizer que ele vivia assim uma vida boa e tudo lhe batia à porta a pedir coisas. E ele dizia assim:

    – As minhas mãos nunca há-dem de dar nada!

    E as pessoas, coitadinhas:

    – Ah! Mais temos esta necessidade, esta e aquela...

    – Na' quero saber. As minhas mãos nunca há-dem dar nada! – Na' dava nada a ninguém.

    Mas já tinha um filho pequeno. Já ensinava o rapazinho a estender as mãos, pra ele dizer que as mãozinhas dele que também nunca haviam de dar nada. E depois, aquilo era uma coisa difícil... O homem já devia ir de uma certa idade e, passado tempo, já o filho era grandinho, morreu.

    Ficou o filho. Mas o filho herdou aquilo do pai. Sempre com as mãozinhas assim, dizia sempre. Nunca se dava nada naquela casa (e que tinha uma casa própria com sacos com moedas de oiro e coisas assim) queria era amealhar pò filho. Mas na' queria que o filho desse nada!

    Bem, o rapaz foi crescendo e começou a gostar de uma rapariga e a rapariga a gostar dele, mas os pais diziam-lhe assim:

    – Ó filha, atão é uma gente que na' dão nada a ninguém! Ó depois, quer dizer, que desgraça é essa?! A gente gosta tanto de dar e eles não. Na' dão nada a ninguém.

    – Mas... Há-de ser o que Deus quiser.

    E casou com ele. Ah! Aquilo era sempre a baterem à porta... E como ele era muito bom, ia pedindo, e ele dizia logo assim:

    – As minhas mãos nunca há-dem dar nada! E fora daqui. Fora daqui! – Punha as pessoas fora dali. Como ele estava bem, era a imitar o pai lá na casa onde havia os sacos do ouro.

    Bem, aquilo foi-se passado, passando e as pessoas iam pedindo, mas iam sempre cas mãos vazias porque ele na' dava nada. E atão, a rapariga começou a ter desgosto, a sofrer com aquilo.

    Depois nasceu uma menina. E a menina nasceu sem mãozinhas – a mãe da menina desmaiou logo. Ficou assim. Quer dizer que a criada da casa (as criadas foram proibidas de contarem que a menina que na' tinha mãozinhas – pra ele na' saber! Senão havia de ser o bom e o bonito!

    E depois, a criada lá tratava da menina e a mãe morreu c 'aquele desgosto da filha sem mãozinhas! E o que ia muito sofrer por causa do pai. Morreu. E depois a criada é que tomou conta dela, da menina. Depois ele estranhava, mas ela é que alimentava a criança e tudo e aquilo ia-se passando.

    Um dia, ele viu que a filha que na' tinha mãos! E depois, assim que viu que a filha que na' tinha mãos, se era mau, ainda se tornou pior! Ainda disse:

    – Agora é que ninguém me vê nada! Agora é que eu na' dou nada a ninguém! Quem é esse Deus que me dá uma filha sem mãos?! – E começou a desprezar a menina. E a criada, era como mãe da menina.

    Quer dizer, passou-se tempo. E a menina, pla janela, via ir as outras meninas pa' escola, via aquelas coisas e a menina chorava e dizia assim:

    – Na' tenho mãozinhas! – Tinham que lhe dar de comer, com uma colher! – Na' tenho mãozinhas!

    Mas a menina na' sabia lá daqueles problemas dele ser assim tão ganancioso.

    – Na' tenho mãozinhas para pegar em nada, nem pa' comer nem nada! – E chorava e dizia – Sou muito infeliz. Fiquei sem a minha mãezinha e fiquei sem as minhas mãozinhas!

    E depois, um dia, 'tava assim muita neve, muito frio, muito vento, era já quase meia-
    -noite e bateram à porta com uma grande força. E ele foi lá e disse assim:

    – Quem é esta...? Quem são vocês?! Vocês são umas pessoas miseráveis...

    – Ai, a ver se tinha aí um cantinho... Uma casinha... Ou um barracãozinho... Ou assim um celeiro ou uma coisa assim onde eu pudesse pernoitar com a minha mulher porque ela vai ser mãe.

    – Fora daqui, miseráveis! Eu nunca dou nada a ninguém! Nem empresto nada a ninguém, nem nada. Fora daqui! Fora daqui!

    E a criada a ouvir mais a menina. E, a depois, a criada disse assim à menina:

    – Se quiser eu vou pas traseiras e vou agasalhar aquele casal, porque a senhora já 'tá me'mo pa' ser mãe. E vou levá-los lá pró celeiro – uma casa grande que 'tava disponível.

    E foi pas traseiras e foi espreitar as pessoas – iam num burrinho muito magrinho, muito pobrezinhos... E entraram pra lá. E atão o homem – eram um casal – começou logo a fazer um berçozinho numas palhinhas, 'tava lá uma vaquinha e 'tava lá uma mulinha. E, na manjedoura, juntou umas palhinhas e começou a fazer um bercinho! Pa' deitar depois a criança quando nascesse. Ó'pois a criada foi dizer:

    – Ai! Aquilo é uma pobreza franciscana! Uma pobreza muito grande. Vamos levar umas roupinhas pa' agasalhar a criança quando nascer e agasalhar a mãe. – A criada levou tudo quanto quis pas traseiras e fez tudo sem ele dar por isso. Ele na' deu por nada.

    Bem, quer dizer que, depois, a rapariguinha, muito contente por fazerem aquela boa acção, e à meia-noite foi lá espreitar pra ver se já tinha nascido a criança. E a criança já tinha nascido. E era um menino. E ela disse prà menina:

    – Olha, 'tá aqui o me' filhinho.

    E ela disse assim:

    – E eu posso-lhe pôr aqui – ela na' tinha mãos! Eram só uns cotunhozinhos! – Posso pôr o seu menino aqui nos meus bracinhos?

    E depois ela disse assim:

    – Sim.

    E a Maria, que era a mãe do menino pôs-lhe aqui o menino nos bracinhos. E depois a menina começou a chorar! E as lágrimas caiam em cima da cara do menino. E dizia assim:

    – 'Tou a chorar porque sou mais infeliz do que tu. Tu tens tuas mãozinhas e eu não! – O menino tinha mãozinhas e ela não!

    E a depois a menina ficou assustada porque começou a sentir uma coisa a sair aqui dos cotunhozinhos e começou-se a formar umas mãozinhas. Até dizem que foi o primeiro milagre que Jesus fez. Que ele era filho de Nossa Senhora! E, atão, a criancinha começou a ver formar-se umas mãozinhas, uns dedinhos, a formar-se tudo e ficou fascinada com uma coisa daquelas. E a criada e tudo! Nessa noite, nem dormiram! Ela mais a criada nem dormiram de todo. Ela queria só olhar pràs mãos porque julgava que as mãos que lhe abalavam(17)! Que fugiam! Mas, no outro dia, foram lá já eles tinham abalado. Já Maria e José tinham abalado e levado o menino. Já lá na' estavam.

    E, atão, ela, coitadinha:

    – E já tenho mãozinhas! – Mas 'tava sempre com medo, elas na' lhe desaparecessem!

    E atão o pai começou a estranhar. Começou a ver a criadagem tudo muito contente, tudo muito feliz e tudo. Disse assim:

    – O que é que se passa aqui nesta casa?! O que é que se passa aqui nesta casa?! Parece que há aqui tanta alegria... O que é?

    E depois fizeram-lhe aquela surpresa. Quando estavam à mesa, a menina foi, sentou-
    -se à mesa também (porque 'tava proibida de se sentar à mesa, q'o pai odiou a criança! Por ela na' ter mãozinhas! Sem ela ter a culpa). E depois a menina sentou-se à mesa, e a criada já tinha ali o pratinho dela e tudo arranjado, e o pai olhou assim e viu que a filha que 'tava com mãozinhas e co talher a comer! E depois pôs-se a gritar uns gritos tresloucados:

    – Mas quem é que deu as mãozinhas à minha filha?! – Quer dizer que virou-se. – Quem é que deu as mãozinhas à minha filha?!

    E a filha disse-lhe assim:

    – Foi um casal que passou aí, que o pai os abandonou. E aos pais lhes chamou miseráveis e aos pais lhe chamou tudo. E que acolhemos ali no... Mas já lá na' está... Já na' lhe vão lá... O pai já na' lhe vai lá fazer mal porque eles já lá na' estão. Mas foi o filho dessa senhora, dessa mulher que teve o menino é que fez este milagre de me dar as mãozinhas.

    – Mas não é possível!!! Como a minha filha já ter mãozinhas?! E...

    Quer dizer, virou-se de tal maneira que disse assim:

    – Eu vou dar metade da fortuna toda que tenho. Vou espalhar por todo o lado dinheiro e espalhar tudo que tenho ali tudo. E vou a ser uma pessoa feliz, uma pessoa... – como devia de ser!

    Quer dizer que o conto foi assim: foi uma maravilha porque ele converteu-se e a filha ficou cas mãozinhas e ela era já feliz porque ia pa' todo o lado, pegava em tudo e foi sempre uma menina feliz. E acabou-se.»

    Custódia Mariana, Cabeção (Mora), Junho de 2007

     

     

Caracterização
    • ATU 706 (var.) A Menina Sem Mãos [conto maravilhoso transformado em conto de exemplo].

     

    • Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Junho de 2007.
Identificação
  • O Mãos-largas
  • Custódia Mariana
  • 1927
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Mora, Casa da Cultura de Mora
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Mora e escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Mora. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas. Participam em iniciativas do Fluviário de Mora e da Casa da Cultura. Destacam-se as seguintes actividades desenvolvidas desde 1999:

    - Encontro de Contadores e Histórias - 1999 a 2005

    - Ti Tóda - Conta-me eum conto, estafeta de contos - 2001 a 2004

    - As lendas vão à escola - 2005

    - O Talego Culto - 2007

    - O Talego ambiental - 2007 a 2008

    - Comunidade do Canto do Lume

Equipa responsável
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa
Arquivo
  • 31/19:09 - 31:13
  • 1/Mora 2011/Mora6

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