Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

A raposa e o lobo

nome:
José Manuel
ano nascimento:
1920
freguesia: Brotas
concelho:
Mora                                          
distrito:
Évora
data de recolha: 2007
 
 

Dados de inventário
  • A raposa e o lobo
  • Mora

    "A raposa e o lobo" -  Uma raposa consegue comer a manteiga do seu compadre lobo e escapa às culpas do seu acto enganando-o uma segunda vez.

    José Manuel ; Brotas; Concelho de Mora, Évora

    Registo 2007.

Transcrição
  • A raposa e o lobo

     

    «A raposa foi sempre um bicho muito velhaco. É um dos bichos mais velhacos que existem e então tentou enganar o lobo.

    O lobo escondeu uma panela de manteiga lá no meio do mato, bem escondidinha, para a raposa não dar com ela. Mas a raposa, muita esperta, descobriu onde estava a panela. Descobriu onde estava a panela e então, um dia, chega ao pé do lobo e diz-lhe assim:

    Raposa: – Ó compadre lobo, tu emprestas-me os teus sapatinhos para ir ter com um afilhado?

    E o lobo diz assim:

    Lobo: – Empresto.

    Emprestou-lhe os sapatinhos e a raposa foi lá à panela da manteiga. Destapou aquilo tudo e – toca, toca, toca – comeu, encheu a barriga! Veio de lá e disse-lhe:

    Raposa: – Olha compadre lobo, cá tens os teus sapatinhos e obrigado!

    Diz-lhe o lobo assim:

    Lobo: – Ó comadre raposa, então e como é que se chama o teu afilhado?

    Raposa: – Ora, compadre lobo, é um nome muito esquisito! Não se pode dizer, é muito esquisito!

    Lobo: – Ah! Não me digas que não se pode dizer o nome que prantaste ao teu afilhado!

    Raposa: – Não, olha se eu te digo: "Comecete".

    Lobo: – Ai, que nome tão bonito! "Comecete"?! Um nome muito bonito!

    Bom, ao fim de uma temporada, diz-lhe a raposa outra vez:

    Raposa: – Ó compadre lobo emprestas-me os teus sapatinhos, que vieram-me fazer um convite para ir ter um afilhado outra vez?

    Lobo: – Empresto!

    Bom, ele lá lhe emprestou os sapatinhos, a raposa lá foi ter um afilhado outra vez... Vem de lá, diz-lhe o compadre lobo outra vez:

    Lobo: – Ó comadre raposa, então como é que se chama o teu afilhado?!

    Raposa: – Ai, tem um nome muito esquisito! Um nome tão feio!

    Lobo: – Então, mas não se pode dizer?!

    Raposa: – Pode.

    Lobo: – Então como é que se chama?

    Raposa: – "Meiete".

    Lobo: – Ai que nome tão bonito que tu arranjaste para o teu afilhado!

    Aquilo passou, ao fim de uma temporada, a raposa outra vez:

    Raposa: – Ó compadre lobo! Tens que me emprestar os sapatinhos! Então vieram fazer-me outro convite para ter outro afilhado! Ah, compadre lobo, você se calhar não tem nenhuns sapatos...

    Lobo: – Não, eu empresto-lhe os sapatos!

    Lá foi a raposa. Chegou lá à panela da manteiga, comeu o resto! Veio de lá e disse-lhe:

    Raposa : – Vá, toma lá os sapatinhos compadre, que eu já... Agora já não me são precisos.

    Lobo: – Então como é que se chama...? O nome do teu afilhado? Como é que se chama?

    Raposa: – Ai, compadre! Tem um nome tão feio!

    Lobo: – Então, mas como é que se chama?

    Raposa: – "Acabete"!

    Lobo: – Ai, que nome tão bonito que tu arranjaste para o afilhado!

    Bom, lá ao fim de uma temporada, diz o lobo assim para a raposa:

    Lobo: – Ó comadre raposa! Hoje vamos ter um jantar!

    Raposa: – Ah, sim?!

    Lobo: – Vamos!

    Abalaram os dois todos seletras. Chegaram lá onde a panela estava escondida e o lobo vai dar volta àquilo...Já lá não tinha nada! E diz-lhe o lobo assim:

    Lobo: – Ah! Comadre raposa! Tu é que me vieste comer a manteiga!

    Raposa: – Não! Não fui! Não fui, não! Oh compadre lobo não fui!

    Lobo: – Foste, foste! Porque olha os afilhados – um era "Comecete", outro era "Meiete" e outro era "Acabete" e foste tu que comeste a manteiga!

    Raposa: – Não fui! Não fui! Olha, vamos fazer um contrato: está muito calor, vamos além para aquela soalheira, e deitamo-nos à soalheira. Esse que lhe suar o rabo, é que comeu a manteiga!

    Lobo: – Bom, está bem!

    O lobo anuiu, aquilo muito bem! Chegou lá, deitou-se ali na soalheira e a raposa também, ali ao lado dele. Dali a nada o lobo deixou-se dormir. Assim que se deixou dormir, a raposa foi, alçou a perna – trás! – mijou para o rabo do lobo! Disse-lhe assim:

    Raposa: – Ó compadre lobo! Ó compadre lobo! Tu é que comeste a manteiga!

    Lobo: – Não!

    Raposa: – Foi! Vê lá se não estás todo suado!

    Ora o lobo foi ver, estava todo molhado! Ela tinha-lhe mijado para o rabo! Estava todo molhado, disse assim:

    Lobo : – É verdade! Então... mas... Tu é que...Eu não comi a manteiga e estou todo suado!

    Raposa: – Não sei! Olha foste tu é que a comeste!

    Pronto, esta está acabada!»

     

    José Manuel, 87 anos, Brotas (conc. Mora), Junho 2007

Caracterização
    • Fábula.
    • Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson: ATU 15 A Raposa Finge ir a um Baptizado.

       Classificação segundo o sistema de Aarne-Thompson: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Junho de 2007.

Identificação
  • A raposa e o lobo
  • José Manuel
  • 1920
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Mora, Casa da Cultura de Mora
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Mora e escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Mora. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas. Participam em iniciativas do Fluviário de Mora e da Casa da Cultura. Destacam-se as seguintes actividades desenvolvidas desde 1999:

    - Encontro de Contadores e Histórias - 1999 a 2005

    - Ti Tóda - Conta-me eum conto, estafeta de contos - 2001 a 2004

    - As lendas vão à escola - 2005

    - O Talego Culto - 2007

    - O Talego ambiental - 2007 a 2008

    - Comunidade do Canto do Lume

Equipa responsável
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa
Arquivo
  • 29/25:39 - 30:37
  • 1/Mora 2011/Mora4

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