A bruxa e o peixe
Conta uma senhora que já morreu… Era a Tia Manas. E era muito velhinha… E ela, coitada, tinha um genro no meu barco. Um barco ainda de boca aberta. E aquela mulherzinha morava aqui à beira da Senhora da Lapa, mas vinha à praia… bem, com a coisa de eu lhe dar um peixinho para a ceia dela; ela e o genro. E para eu lhe dar um peixinho; e eu dava sempre um peixinho à senhora, prontos… e ela contava. Bem, a gente não tinha rádios nos barcos. A gente ia cedo para a praia, assentava-se na areia à proa dos outros barcos. Quem sabia trabalhar, levava uma meia para fazer, ou uma camisola ou uma coisa qualquer; quem não sabia, punha-se a contar histórias. E então a velhota contou esta. A respeito de a gente dar… Que ela dizia assim:
- Tu, minha menina, Nosso Senhor te ajude… Tu dás sempre tanto peixinho… Mas olha, minha menina, dá, que o Senhor ajuda-te. E olha que, a certas pessoas, não digas que não! Dá, nem que seja pouco. Eu vou-te contar aqui uma coisa, nossa menina, passada por mim! -ela assim.
Mas já uma senhora com 90 anos naquele tempo! Isto já vai há quarenta anos, portanto já hoje tinha 130 anos!
- O meu homem andava no mar numa catraia… -catraia era da pesca do alto; não era lancha, era catraia. - Uma vez chegou o barco, nossa Desterra… uma formosura de capatões, gorazes, chernes… Nós, todos contentes, faz uma pequena ideia…
- Pois, está claro…
Chegou aquela mulher à beira do barco e disse assim para o Mestre:
- Eu quero aquele capatão para a minha ceia.
E ele:
- Mas tu queres quê?! Eu que sou o mestre e dono do barco, não como capatão, e vais comer tu? Vai-te mas é a andar! Ainda se quisesses uma cascarra! Ou um cação!
- Não me dás? Ainda hás de me mandar a casa. -[palma]… por a areia acima.
A mulher do Mestre, quando se apercebeu, e essa Tia Manas, disse:
- Ai, João… O que fostes fazer, João… Desses-lhe o capatão, João! Olha que ouve-se dizer cá que ela é bruxa…
- Quero lá saber! Olha, se ela é bruxa, a minha mãe é feiticeira!
O homem, com aquela coisa… Venderam o peixito. Era logo o dinheiro repartido na hora. Vendia-se o peixe, recebia-se o dinheirinho […] e todas ali assentadinhas: tanto para a isca, tantos homens, tantas partes – era o dinheiro ali logo todo repartidinho, cada qual levava o seu dinheirinho para casa.
O barco, ao outro dia, foi para o mar. Nem um peixe dentro do barco. Já andavam assim já três ou quatro ou cinco dias, sem o barco tomar um peixe! O Mestre, desesperado. A Tia Manas:
- E eu, nossa Desterra, cheia de fome! Porque quem vai buscar uma cesta fiada à loja, outra cesta eles não dão!
- Mas vem à loja…
- Ah, não tomou mas, quando tomar, venho pagar…
Como pagava, ainda lhe fiou duas ou três cestinhas. Aquela mulher do pescador que fazia? Ia buscar a cesta, o coiso para levar na cesta, que era o farnel para lhes levar, e ela trazia alguma coisinha a mais, que era para eles comerem em casa. Está a compreender?
A Tia Maria Manas viu que o barco, três, quatro dias, não apanhou nem sequer um peixe, e os outros barcos cheios de peixe, disse para a Mestra do barco:
- Tu achas que isto está bem assim? Eu acho que isto que não está bem. Não está bem. Esta mulher… Não te disse que a mulher que era bruxa? Eu disse-te, tu não quiseste acreditar!
- Ó Tia Maria Manas, e agora como vamos fazer?...
- Como vamos fazer? Olha, temos ir rogar, a ver o que é que se passa.
- Fui eu com a Mestra… -ela a contar. - Fui eu com a Mestra, cachopa… -que ela falava assim. - Fui eu com a Mestra, nossa cachopa… A uma mulherzinha, que estava ali à beira de Nosso Senhor dos Milagres, chamava-se Ana. Ti Ana!
- Que quereis?
- Ó Ti Ana, valha-nos nesta nossa aflição, Ti Ana! Passou-se… O barco anda, anda, anda, para o mar e para a terra, nem sequer um peixe traz! Estamos cheiinhos de fome… Eu tenho onze meninos, todos pequeninos… Quero fazer uma panela de corda, não tenho uma panela ao lume…
A mulher disse:
- Olha, cachopa, ide à casa dela e pedi-lhe que deixe o barco pescar. Porque é que o teu homem não lhe deu o capatão?
- Ai, sabes como são homens… Eu, se estivesse à beira, eu dava-lhe…-por este ponto, por aquele…
- Só tens uma coisa a fazer: ide-lhe pedir a ela para deixar o barco pescar, porque senão nada feito.
Diz a Mestra:
- Eu não vou, antes quero morrer.
Diz:
- Tu queres morrer?! Se nós não formos, morro de fome eu com os meus filhos! Temos que ir.
Diz:
- Tia Maria Manas, vá você. Vá, por as almas, que eu não quero ir…
- Ai, tens que vir comigo, tu é que és a Mestra do barco. És a Mestra, tens de ir comigo.
A mulher, com penas ou com glórias, lá foi. Chegou lá, diz ela:
- Que quereis aqui?
- Ó fulana… Eu venho tão cheia de fome… Deixa-me o barco pescar, pelas almas…
- O teu homem… O teu homem é este, o teu homem é aquele…
- Ó fulana… Não te aflijas, minha amiga. Enche-me o barco de pescar, que todos os dias que ele vier do mar eu mando-te aqui um peixe.
- Eu disse isso ao teu homem, mas ele não queria acreditar! Eu disse-lhe! Olha, não tenho nem um peixe nas cavernas! -era as cavernas do barco.
Diz ela, diz a Tia Maria Manas, de joelhos:
- Ó minha menina, por as almas do Purgatório, estou cheiinha de fome! Eu não tenho nada para botar corda ao lume, deixa o barco pescar…
-Vá-se embora. Tia Manas. Vá-se embora. Eles por daqui a nada começam a pescar. Vá-se embora.
A mulher veio-se embora:
- Ai, Deus queira que sim… Ai, Nossa Senhora…
Chega o barco à terra… Ao outro dia, que eles iam hoje e só vinham amanhã, passavam a noite no mar. O barco trouxe um ror de peixe. A mulher chegou à beira do homem, disse:
- Ó desgraçado! O capatão maior que tens aqui, dá aqui à Tia Maria Manas para levar à fulana, desgraçado! Nós podíamos estar tão bem e estamos desgraçados por tua causa! Sabes que aquela mulher que é bruxa, desgraçado? Foi passado isto… -começou a contar.
E o homem disse:
- Sim senhora. A partir dessa hora, foi que… -eles sabiam as horas pelo sol, os pescadores sabiam -…começámos a pescar.
- Então, desgraçado, tu sempre que vás para o mar, de vez em quando manda-lhe um peixe, ou nunca mais pescas.
Diz a Tia Maria Manas:
- Minha menina, fui eu que fui levar o capatão. Cheguei lá… Fulana!
- Que quer?
- Anda aqui, minha menina. Olha, tenho este capatão, foi o maior capatão que apanhou.
- Então, tomaram alguma coisinha?
- Diz que tomaram. E tu, minha menina, não faças mal ao barco, minha menina. Que eu te juro: sempre que o barco vá para o mar, logo que eu possa, eu trago-te aqui.
Diz ela:
- Não, para esta semana não traga. Depois para a semana ou daqui a algum tempo, se me quiseres trazer um peixinho, traz-me, que eu não faço mais mal ao barco.
Diz ela:
- A desgraçada parece que ia em vento na proa do barco para o barco não pescar!
Histórias que se contam. Era as histórias que se contavam.