Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Textos de cariz profano

São sete os “textos de cariz profano” recolhidos pelo Dr. António Maria Mourinho, mas apenas cinco são considerados para estes dados1. Apresentamos de seguida os respectivos títulos:

T1. A pintura de S. Brás

T2. Verdadeira tragédia do Marquez de Mântua e do Imperador Carloto Magno

T3. Famosa comédia dos sete Infantes de Lara

T4. Vida de Roberto do Diabo

T5. Um dia de Inverno

É de referir que dois destes textos, A pintura de S. Brás e Um dia de Inverno, são da autoria de um mirandês, Basílio Rodrigues. Um deles, a Verdadeira tragédia do Marquez de Mântua, é de Baltazar Dias. Tem, por isso, origem nacional, em um dos autores da chamada escola vicentina. Os restantes dois, embora sem autor, descendem da tradição ibérica e europeia, enraizando-se nas lendas, nas histórias, nos romances e nos mitos de cariz cavaleiresco, heróico ou simplesmente fantástico.

Relativamente às ocorrências lexicais, que se podem conferir no quadro seguinte, podemos constatar que a “massa lexical” é relativamente similar em T1, T3 e T4, sendo significativamente menor em T2 e T5.

  Total T1 T2 T3 T4 T5
Ocorrências 41.613 16.296 6.099 12.090 18.045 5.379
Formas Diferentes 11.225 2.979 1.470 2.284 3.046 1.446

Contudo estas informações sobre a quantidade pouco ou nada nos dizem sobre a qualidade do léxico. Por isso, mesmo sem entrarmos numa análise muito aprofundada, gostaríamos de deixar mais algumas observações, qualitativas, sobre estes textos, reveladas pela análise estatística do vocabulário.

Estas anotações são as que podemos retirar da leitura do “vocabulário preferencial”2, no qual podemos agora descobrir a temática dos textos, identificando as linhas condutoras que se destacam em cada um. Neste conjunto de textos o vocabulário foi compactado, pelo que a análise textual e discursiva de cada um exigiria um estudo discriminado de cada variável (texto). Ficamos, por isso, com esta abordagem genérica, preliminar, que mais não pretende do que abrir perspectivas para investigações futuras. Vejamos o início desse vocabulário, limitando-o a cerca de cem ocorrências3:

Pintor (25,410); Roberto (19,905); Gonçalves (16,216); S. Brás (13,660); dinheiro (13,509); nota (13,252); capote (13,158); Mateus dos Anjos (13,144); Crespim (11,756); Manuel Calejo (11,658);  Maria  dos  Reis  (11,559);  Pitágoras  (11,358);  Rogério  (11,358);  duque  (11,091); Lucrécia (10,945); Mateus Gonçalo (10,732); Barnabé (10,624); Fala Só (10,405); Cércio (10,068);  ermitão  (9,953); pelejar  (9,740);  agora (9,622); ho (9,599); lá (9,553); almirante (9,289); infantes (9,232); Mudarra (9,232); Rei Velasques (9,232); o (9,109); administrador (9,039); cá (8,729); ministro (8,530); Dona Sancha (8,451); duquesa (8,451); Gonçalo (8,313); professor  (8,173);  Rei  Almançor  (8,173);  embora  (8,169);  cavalo  (8,157);  santo  (7,977); Mateus (7,961); ducado (7,739); falar (7,560); muito (7,546); mulher (7,494); Miranda (7,312); Leopoldo (7,279); Normandia (7,279); Valdevinos (7,279); eu (7,218); mouros (7,153); Calejo (7,119); Rei Velasco (7,119); pagar (6,997); cão (6,955); cinquenta (6,955); João de Alfredo (6,955); ninguém (6,733); caloteiro (6,616); sargento (6,616); mãe (6,570); sai (6,570); olha (6,468); tablado (6,458); afogar (6,439); grão (6,439); mouro (6,439); igreja (6,417); criada (6,413); diabo (6,344); traição (6,331); pimpão (6,301); António Branco (6,258); cavaleiro (6,258); Lázaro Freixo (6,258); taberneira (6,258); tasco (6,258); quero (6,191); nem (6,172); Dona Alambra (6,071); pai (6,061); filho (5,978); recolhem-se (5,974); tem (5,930); penitência (5,929); imperador (5,903); Capitão mouro (5,878); Cucharum (5,878); Fernão (5,878); vou (5,877); embaixador (5,843); rapaz (5,825); capela (5,730); pontífice (5,730); vai (5,706); Maria Valentina (5,679); Vilar Seco (5,679); dama (5,531); vergonha (5,530); são (5,487); Castela (5,472); Dom Carloto (5,472); taberneiro (5,472); Velasques (5,472); vidraça (5,472); toca (5,412);  cara  (5,309);  recolhe-se  (5,263);  Alamar  (5,258);  Alfredo  (5,258);  Marto  (5,258); Princesa moura (5,258);  você (5,258); bem (5,228); olhai  (5,070);  confissão (5,055); não (5,053); mandou (5,040); Almançor (5,034); António freixo (5,034); Borgonha (5,034); cabra (5,034); Carlota (5,034); fulminante (5,034); vale (5,010); fazendo (4,990); nosso (4,986); pinga (4,983); criança (4,977); todos (4,879); fazer (4,846); Alípio (4,800); Basílio (4,800); detenção (4,800); duqueza (4,800); Elvira (4,800); Firmino Lobo (4,800); mordomos (4,800); pagão (4,800); amanhã (4,799); arranjar (4,754); cadeia (4,743); valor (4,731); isso (4,715); então (4,657); fiquemos (4,629); cabeças (4,618); Alberto (4,599); Conde Aro (4,553); Januário (4,553); Reinaldo (4,553); separam-se (4,553) …

O que podemos observar? Constata-se, em primeiro lugar, que a maioria do vocabulário presente nesta lista é constituído pelas designações das personagens e protagonistas dos diferentes textos: o Pintor, Roberto, Gonçalves, S. Brás, Mateus dos Anjos, Crespim, Manuel Calejo, Maria dos Reis, Pitágoras, Rogério, Lucrécia, Mateus Gonçalo, Barnabé, Fala Só, Mudarra, Rei Velasques, Dona Sancha, Gonçalo, Rei Almançor, Mateus , Leopoldo, Valdevinos, Calejo, Rei Velasco, João de Alfredo, Diabo, António Branco, Lázaro Freixo, Dona Alambra … São portanto eles os elementos temáticos fundamentais destes Autos.

A temática de cada um dos textos emerge também, neste vocabulário, a partir de outras formas que nos remetem para cada um deles4: “dinheiro” (A pinturade S. Brás); “capote” (Um dia de Inverno); “ermitão” (A vida de Roberto do Diabo); “ho” (Verdadeira tragédia do Marquez de Mântua); “nota”5 e “infantes” (Os Sete Infantes de Lara).

Se atentarmos numa divisão segundo as categorias da gramática tradicional, verificamos que também os verbos, mesmo considerando o que se encontram apenas no infinitivo, nos reenviam, tematicamente, para cada um dos textos: “pelejar” e “falar” (Vida de Roberto do Diabo e Sete Infantes de Lara); “falar”, “afogar” e “arranjar” (Sete Infantes de Lara); “pagar” (A pintura de S. Brás).

Também a toponímia marca presença no cabeçalho deste vocabulário, destacando-se os topónimos como Cércio, Miranda, Normandia, Castela, Borgonha,… uma pequena amostra que nos remete para o carácter simultaneamente local e universal, bem característico do TPM.

Finalmente, porque se pretende apenas deixar algumas notas breves sobre o vocabulário destes textos, vemos aparecer, destacados, os deícticos “agora”, “lá” e “cá”, reveladores da importância conferida à deixis temporal e espacial. “Agora” é, sem dúvida, a forma com mais peso estatístico neste vocabulário. Uma breve pesquisa pelos diferentes textos mostra-nos que esta forma tem uma distribuição idêntica nos diferentes textos.

Vejamos alguns contextos de utilização:

Agora já molhei a boca

Refresquei o paladar

Vou dar-vos um prévio anúncio

Do que vamos representar.

(A pintura de São Brás)

Agora vou a caçar

A distrair pensamentos

Que esta ribeira tem

Ocultos muitos portentos.

(Os sete infantes de Lara)

Agora vejo-me aqui

Nesta tão grande espessura

Que nem eu me vejo a mim

Nem sei da minha ventura.

(Verdadeira tragédia do Marquez de Mantua)

Agora vou-lhe falar

No jardim que é o seu passeio

Para que se não agonie

E que não tenha receio.

(Vida de Roberto do Diabo)

 

Do ponto de vista semântico-pragmático o valor desta partícula exigiria um estudo mais aprofundado, que tivesse em conta as suas utilizações concretas nos diferentes (con)textos. Contudo, de uma forma genérica e como atestam os exemplos citados, podemos dizer que o seu uso temporal, sobretudo quando colocado no início da frase, marca uma relação contrastiva entre dois intervalos de tempo ou duas acções. Assinala uma progressão discursiva marcada por contrastes e peripécias, mas convoca igualmente um discurso afectivo e de proximidade relativamente ao sujeito da enunciação. E este último aspecto parece-nos de particular importância para compreender as razões pelas quais estes textos têm merecido os favores e a adesão do público.

Paradoxalmente, esta partícula acaba por ter um valor relevante em textos em que o tempo ou, melhor dizendo, a sequencialidade temporal, parece não constituir nem uma preocupação nem o aspecto mais importante destas narrativas. Pelo contrário, ela denuncia um discurso marcado pelas dimensões do novo, do inesperado e do imediato, como estratégias em que se procura captar a atenção do auditório, “prometendo-lhe” que agora algo de diferente vai acontecer.

Também  o  peso  estatístico  das  partículas  “lá”  e  “cá”  denuncia  a  importância, conferida, nestes textos, à localização espacial e afectiva.

MARIA-DOS-REIS

Eu não durmo nem descanso

Tudo em mim são lembranças

Pensando nas duas crianças

Que deixámos lá em casa.

 

Meu caro amigo Calejo

Se soubesses como me vejo

Toca-me por cá cada sopa

Nem no nosso tempo de tropa

Vejo-me cá em tais trabalhos

Ó Calejo estes cércios

São uns bandalhos.

(A pintura de S. Brás)

Anda cá infanta querida

Que a mim estás desejando

Saberei o que te passou

Neste momento e quando.

(Os sete Infantes de Lara)

 

GONÇALO

Vem cá filho dos meus olhos

Eu te quero conhecer

Fruto das minha estranhas

Que me entrega esta mulher.

(Os sete Infantes de Lara)

 

 

Agora ireis correndo

Os povos que eu vos mandar

E me trareis os meninos

Que tenho lá a criar.

(Os sete Infantes de Lara)

 

Por isso vai-te sobrinho

Juntar-te com teus manos

Que lá vai o Conde e tropas

Contra esses africanos.

(Os sete Infantes de Lara)

Se o "aqui" convocaria o espaço de proximidade onde se desenrola a acção representada no tablado, "cá" e "lá" remetem-nos para um jogo ambivalente. É uma estratégia especular que transporta o público numa viagem ao real e ao imaginário, num movimento contínuo de sedução entre o texto, o tablado e o jogo teatral.

 

 

1. Como já tivemos ocasião de referir a Cena policiana e o Auto de Rodrigo e Mendo serão apenas objecto de edições digitalizadas.

2. É um “vocabulário de predilecção”, que reflecte a temática do texto no sentido e tem uma forte densidade e uma intensidade calculadas. Ver André Camlong,. Méthode d’analyse lexicale, textuelle et discursive, Paris, Ophrys, 1996, p. 128.

3. Em rigor, o vocabulário preferencial corresponde às formas cujo peso lexical é ≥ 1,96. Contudo, não sendo nosso objectivo fazer aqui uma análise textual e discursiva dos textos quisemos apenas deixar uma pequena amostra introdutória do trabalho que se pode vir a realizar.

4. Em muitos casos não se trata de “vocabulário particular” (exclusivo) de cada texto, mas apenas de vocábulos que, pela leitura e pelo conhecimento que temos de cada texto, nos permitem estabelecer uma relação directa com cada um.

5. Refere-se à palavra utilizada neste texto para introduzir as didascálias.