As Brincas Carnavalescas são uma antiga tradição performativa da região de Évora.
"Esta forma dramática, parente de outras tradições performativas nacionais e internacionais (Floripes do Minho, Papeladas de Valongo, Danças dramáticas da Terceira, Tchiloli de São Tomé, Bumba meu Boi e Cavalo Marinho de múltiplas regiões do Brasil) é constituída por um grupo de homens e rapazes que vai soltando décimas, numa cadência ritmada bem audível e, dessa forma, co(a)ntam uma antiga história (Fundamentos). Pelo meio, um trio de faz-tudos desafia e intromete-se com a assistência, contrastando nítidamente com o aprumado figurino dos restantes performers: calça, casaco e chapéu escuros atravessados por fitas de seda coloridas pespontadas com flores de papel. Uma marcha lenta evolui coreograficamente em torno de um estandarte, coordenados pelo Mestre, ao som do acordeão e percussões, desembocando num círculo perfeito.
A visão "pretérita", ou seja, o peso imemorial da tradição com que alguns definem as Brincas como tendo sido muito características da região, mas como algo em desaparecimento ou já perdido, sobrepõe-se claramente ao que ano após ano vamos ainda assistido no 'aqui e agora", teimosamente realizado pelo Grupo de Brincas dos Canaviais (um dos poucos grupos em actividade!) que as preparam e ensaiam durante as longas noites frias de Inverno na Casa do Povo dos Canaviais.
Independentemente da narrativa em questão, que introduz a diferenciação ao nível temático e de personagens, existem figuras que se mantém e que adquirem uma centralidade que lhes confere a "identidade" de fundamento de brincas: o Mestre (apresentador das Brincas, ensaiador e detentor do saber), o Bandeira (porta Estandarte do Grupo), o Acordeonista e os Faz-tudo.
Duma forma geral os participantes/actores evocam e apropriam-se das personagens através dos figurinos e adereços que usam. A criação da"figura"é realizada com o recurso a formas simples de fácil identificação, quer individualmente quer de grupos. Recorrem ao uso de adornos e objetos: coroas, chifres, chapéus, espadas, cruzes e chocalhos, mantos e xailes.... E o uso da máscara impera, mesmo que, como ocorre nas Brincas, ela seja substituída por "óculos escuros", que aqui desempenham essa mesma função mediadora."
Isabel Bezelga
A estrutura de atuação das Brincas, nesta sessão que gravámos, foi a seguinte: O Mestre conduz o agrupamento na apresentação à comunidade. Após a música de abertura que sinaliza a chegada do grupo, o Mestre faz o pedido de atuação dirigido ao representante da comunidade ("Dono do Lugar" ou "Dono da Rua"). Dada a autorização começa uma contradança que termina com a colocação dos participantes em círculo fechado, ocupando as posições que cada personagem tem durante o desenvolvimento do espetáculo. O mestre inicia o prólogo que resume a proposta dramática. A peça desenrola-se mantendo o círculo. Os atores deslocam-se dentro do círculo de acordo com as suas intervenções e retomam o seu lugar quando terminam enquanto os Faz-tudo pontuam o espetáculo com intervenções quase contínuas que retiram o dramatismo às situações criadas. Finalizada a peça, o fundamento, o Mestre faz um apelo à doação a que se segue um entremez dos Faz-tudo enquanto se recolhem as moedas atiradas para o círculo pelos espectadores. Depois o porta-bandeira posiciona-se no centro da roda e segue-se o momento da "Décima à Bandeira" em que cada ator avança e numa décima resume o seu personagem terminando sempre com o nome do grupo/fundamento. Segue-se a última contradança após a qual o Mestre se despede do representante da comunidade. O grupo retira-se continuando a tocar e exclama em uníssono: "Até pró Ano".