Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Chouriças e chavianos

nome:
Adélia Augusta Pires Garcia
ano nascimento:
1933
freguesia: Caçarelhos
concelho:
Vimioso
distrito:
Bragança
data de recolha: Outubro 2010
 
 
 

Dados de inventário
  • Chouriças e Chavianos
  • Vimioso

    "Chouriças e Chavianos" - É pedida uma chouriça a uma mãe e, perante a negação da dádiva, é feita uma travessura na tentativa de a obter…

     

    Adélia Augusta, 1933. Caçarelhos.

    Registo 2010.

Transcrição
  • Chouriças(1) e chavianos(2)

     

    Ainda me alembra(3) outra! [Risos]. Outra vez, era um *dia de Todos os Santos*(4) e cá costumavam fazer uma festa. A mocidade. Um pedia uma chouriça à mãe, outro um bocado de barbaro(?) (…). E diz ele prà(5) minha avó:

     

    - Ah, mãe! Dá-me uma chouriça, para fazer uma chorra(?).

    - Ai, não queres? (…) Não! Não te dou chouriça nenhuma!

     

    Ele, filha da mãe… E dormiam em cima! (…) Na despensa tinha as chouriças e em cima era onde dormiam os meus avós.  E ele, de noite, às escuras, mordeu… Mordeu um carrelo(6) de chavianos, pensando que eram chouriças! Pa’(7) le(8) tirar a chouriça.

     

    (…) A minha avó foi a dar um chaviano e a cozê-lo.

     

    - Bô!(9) Ai! Parece que ‘tão rateados! Ai! Algum diabo de algum rato vine(10) aos chavianos!

     

    Foi! Foi algum rateado de algum rato! Quando foi a ver, era mordidos dele! Mordeu os chavianos todos para roubar a chouriça! [Risos]. (…) Ó’ pois já tinha passado já muito tempo… Por conta, por conta… Deu por conta, mas… Pronto, já passou…Aquele diabo (…) fazia!

     

    Adélia Augusta Pires Garcia, Caçarelhos (Vimioso),Outubro de 2010

    Glossário:

    (1) Chouriças – chouriços.

    (2) Chavianos – chouriço de sangue feito de gorduras e sêmeas ou pão ralado.

    (3) Alembra – alembro (verbo transitivo, intransitivo e pronominal). Uso popular que remete para o verbo lembrar.

    (4) Dia de Todos os Santos – feriado dedicado aos santos e mártires cristãos (quando católico comemorado a 1de Novembro).

    (5) Prà – “para a” (contração da preposição pra com o artigo ou pronome a; uso popular e coloquial).

    (6) Carrelo – o mesmo que carramelo: amontoado de algo disposto em pilha.

    (7) Pa’ – “para” (em próclise, usado de modo informal e coloquial).

    (8) Le – ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).

    (9) Bô! – «interjeição. Não me digas! Pode lá ser! Não acredito! (Freixo de Espada à Cinta).» Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p. 68.

    (10) Vine – veio (de acordo com os seguintes exemplos: «vinheste– vieste.» (Barreiros, Fernando Braga. (1937). Apêndice ao «Vocabulário Barrosão». Revista Lusitana Volume XXXV, Lisboa: Livraria Clássica Editora, p.295) ou «Vénem - veem» Teixeira, Abade de Tavares. (1910).Vocabulário trasmontano (Moncorvo). Revista Lusitana, Volume XIII, p. 126.

     

    Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:

    Barreiros, Fernando Braga. (1937). Apêndice ao «Vocabulário Barrosão». Revista Lusitana Volume XXXV, Lisboa: Livraria Clássica Editora, p.295.

    Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri.

    Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri.

    Fernando Braga. (1917). Vocabulário barrosão. Revista Lusitana, Volume XX, Lisboa: Livraria Clássica Editora, p. 144.

    Lopo, Joaquim de Castro. (1895). Linguagem popular de Valpaços. Revista Lusitana. Volume III. Livraria Portuense, P.326.

    Moreno, Augusto C. (1897-1899). Vocabulário transmontano (Mogadouro e Lagoaça), Revista Lusitana, Volume V, Lisboa: Antiga Casa Bertrand, p.36

    Nunes, José Joaquim. (1902). Dialectos Algarvios (Lingoagem do várlavento) (Conclusão). Revista Lusitana: Arquivo de Estudos Filológicos e Etnológicos Relativos a Portugal, (1ª Série), Volume VII, Lisboa: Antiga Casa Bertrand.  pp. 250

    Teixeira, Abade de Tavares. (1910). Vocabulário trasmontano (Moncorvo). Revista Lusitana, Volume XIII, Imprensa Nacional de Lisboa, p. 126.

    Vasconcelos, José Leite de/Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. Dicionário de Regionalismos e Arcaísmos (DRA). Em linha, URL/PDF, http://alfclul.clul.ul.pt/clulsite/DRA/resources/DRA.pdf, p.720.

    http://aulete.uol.com.br; http://www.infopedia.pt; http://www.priberam.pt; http://pt.wikipedia.org; http://www.junior.te.pt; http://www.ciberduvidas.com; http://clubehistoriaesvalp.blogspot.com.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

Caracterização
    • Caso/ episódio da infância
Identificação
  • Chouriças e Chavianos
  • Adélia Augusta
  • 1933
  • Trabalhadora agrícola reformada
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Caçarelhos, Vimioso, casa de Francisco Augusto
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Vimioso
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Residentes do concelho de Vimioso que são convidados para iniciativas do Município e Biblioteca de Vimioso. Principais actividades desenvolvidas que estas manifestações culturais:

    Sons e Ruralidades em Vimioso

    ANAMNESIS - Encontro de Cinema, som e tradição oral.

    Feira de artes, ofício e sabores

    (ver links em documentação)

Equipa responsável
  • José Barbieri e Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa
  • José Barbieri - realização do documentário (ver link em documentação)


 

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