Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

O mosquito a pastar

nome:
Manuel Diogo
ano nascimento:
1922
freguesia: Zebreira
concelho:
Zebreira
distrito:
Castelo Branco
data de recolha: Setembro 2010
 
 
 

Dados de inventário
  • O mosquito a pastar
  • Idanha-a-Nova

    "O mosquito a pastar" - Uma boa mentira sobre um mosquito valeu o perdão de uma dívida.

    Manuel Diogo, Ano de nascimento 1922.

    Idanha-a-Nova

    Registo 2010.

Transcrição
  • O mosquito grande (O mosquito a pastar)

     

    Os meus pais eram pobres, viviam sempre a trabalhar, vá. Nós éramos três irmãos…

     

    O velho lá andava a trabalhar, e tal, e tinha um irmão que era rico.

     

    [Irmão rico:] - Óh! Ó pá! Não sei o que é que fazes ao que ganhas! Andas sempre na miséria… Mas que vida é a tua?!

     

    [Irmão pobre:] - Ó pá! Eu bem trabalho! E bem faço pa’(1) vida, mas não resulta, semos(2) muitos! E o ordenado é pequenino…Mas o que é que hei-de eu fazer? Se tivesses aí algum dinheiro que me emprestasses… Era favor… Eu pago…

     

    [Irmão rico:] - Pronto, eu empresto-te o dinheiro. Toma lá! Mas, daqui até tal tempo, tens que me entregar o dinheiro!

     

    [Irmão pobre:] - Sim, senhor! -  Atão, o meu pai lá bem fazia, mas ele é que não chegava!

     

    Bom, quando chegou a altura de pagar, diz-lhe o irmão assim:

     

    [Irmão rico:] - Atão? Já arranjaste o dinheiro pa’ me pagares?

     

    [Irmão pobre:] - Ó irmão! Ele *não chegou pàs encomendas*(3)! Mas como é que há-de ser?!

     

    [Irmão rico:] - Bom, olha(4), eu perdoo-te o dinheiro… Se tu me deres já uma mentira maior que o Padre-Nosso, eu perdoo-te a dívida.

     

    [Irmão pobre:] - Óh!

     

    [Irmão rico:] - Ou tu ou os teus filhos!

     

    Bom, ele era me’ padrinho(5). Bom, leva lá o meu irmão… Vai ao meu pai e ele diz assim:

     

    [Irmão rico:] – Atão(6), diz lá a mentira maior do mundo. - Óh! O meu pai não soube dizer…

     

    [irmão do afilhado:] - Não sei dizer isto, nem o que é aquilo… - E eu ao meu irmão também não disse!

     

    [Irmão rico:] - Não sabe!

     

    Diz-me assim o meu padrinho: - Atão e tu?

     

    [Afilhado:] - Olhe, ó padrinho…

     

    [Irmão rico:] - Não sabe de nada…

     

    [Afilhado:] – Olhe, esta noite vinha de Alcafozes(7) e na nossa herdade andava lá um mosquito a pastar… Um mosquito que andava a pastar que aquilo é que foi uma gadanha(8) a comer tudo o que apanhava!

     

    [Irmão rico:]  - Óh! Não me digas que era assim tão graúdo(?)!

     

    [Afilhado:] - Ah! Aquilo era um mosquito! Era uma coisa enorme! Eu sei lá o que aquilo era, pá! Um grande mosquito!!!

     

    [Irmão rico:]  - Atão, mas como é que aquilo era?!

     

    [Afilhado:] – Era um mosquito grande! Grande! Grande! Grande! Olha, não te digo nada! O mosquito era grande, tão grande que batia cas(9) asas no céu e ia com os colhões(10) de rastos!

     

    Manuel Diogo, Idanha-a-Nova, Setembro de 2010

    Glossário:

    (1) Pa’ – abreviatura de “para” (usadade modo informal e coloquial).

    (2) Semos – somos.

    (3) Não chegou pás encomendas – não chegou para tudo o que era preciso.

    (4) Olha - escuta! Ouve! Presta atenção!

    (5) Padrinho – aquele que foi testemunha de baptismo; o que deu o nome a alguém; o protector.

    (6) Atão - regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que significa “então”.

    (7) Alcafozes – localidade e freguesia do no concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, situada na zona raiana, já perto de Espanha.

    (8) Gadanha – foice com que se corta feno e sega cereais, no caso, foi como uma máquina a comer, limpar e cortar tudo o que encontrava.

    (9) Casabreviatura oral, de uso informal e coloquial, de “com as”.

    (10) Colhões – palavrão, tabuísmo, para designar “testículos”.

    Para a execução deste glossário consultaram-se: Simões, Guilherme Augusto. (2000). Dicionário de expressões populares portuguesas. 2ª. edição, (Dicionários D. Quixote; 34 ). Lisboa: Publicações D. Quixote, p.478.

    www.priberam.pt;

    http://aulete.uol.com.br;

    http://www.infopedia.pt;

    http://www.ciberduvidas.com;

    http://ciberduvidas.sapo.pt;

    http://alcafozes.com

     

     

     

     

Caracterização
    • Conto: ATU 1920C  Uma Mentira Maior que o Padre-Nosso

     

    Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) 2011.

Identificação
  • O mosquito a pastar
  • Manuel Diogo
  • 1922
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Idanha-a-Nova, Biblioteca Municipal de Idanha-a-Nova
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Idanha-a-Nova
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Residentes do concelho de Idanha-a-Nova em festas e romarias locais e em iniciativas do Município, Centro Cultural e Biblioteca de Idanha-a-Nova. Principais actividades desenvolvidas e que promovem estas manifestações culturais:

    Festas e Romarias

    Romaria da Nossa Senhora do Almortão

    Romaria de Nossa Senhora da Graça

    Festa do Divino Espírito Santo

    Os Mistérios da Páscoa

    Festa das Cruzes Monsanto

    Festa do Espírito Santo Ladoeiro

    Festa de Nossa Senhora da Conceição Penha Garcia

    Projectos

    Projecto Oralidades

    Festivais

    Festival de acordeonistas e tocadores de concertinas

     

    (Ver links em documentação)

Equipa responsável
  • José Barbieri e Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa
  • José Barbieri - realização do documentário (ver link em documentação)
Arquivo
  • K7-56/04:30 - 06:50
  • 1/Idanha-a-Nova2012/Idanha-a-Nova2

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