Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Lagartos

nome: Lagartos
projecto: Os gestos dos sabores
local: Portugal
acervo: Associação - As idades dos sabores
contacto: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
 

Esses bolos figurativos, outrora comuns, tornam-se cada vez mais raros, mas na cidade alentejana de Castelo de Vide ainda é possível encontrar um dos seus exemplos mais curiosos: os folares em forma de lagarto. Como todos os folares, fazem parte dos alimentos de festa que vêm pôr fim às privações e jejuns da Quaresma.

A massa destes folares é semelhante à que se faz um pouco por todo o Centro e Sul do país: doce e aromática, enriquecida com ovos, gordura e leite e suficientemente firme para ser moldada à mão.

Em Portugal, os folares com formas animais encontram-se sobretudo no Alentejo, embora essa tradição também exista noutros países da Europa do Sul. São comuns os folares que representam aves, pela sua associação directa ao ovo, símbolo da fertilidade e da renovação da vida, mas também não são raros os répteis, como o lagarto de Múrcia, o dragão e o dinossauro das ilhas gregas, ou a réplica da serpente mítica dos sicilianos.

A figura de um réptil como suporte de um folar é intrigante. Lembremos, contudo, que a Páscoa cristã coincide com a Primavera, a estação em que a natureza desperta do sono do Inverno. Eram muitos os ritos pagãos que celebravam essa passagem da morte para a vida, evocando a fecundidade da terra através de símbolos fálicos, como a cobra e o lagarto. Os folares em forma de réptil parecem esconder esse simbolismo. Não é por acaso que se destinam apenas aos rapazes, enquanto as raparigas recebem folares que geralmente representam a fertilidade feminina, como a galinha rodeada de pintainhos ou as bonecas grávidas, com um ovo na barriga.

Os folares são bolos carregados de significado. Numa linguagem simbólica comum aos povos do Mediterrâneo falam-nos do enorme desejo de exorcizar a morte e de perpetuar a vida, mas também da importância de reforçar os laços sociais através da partilha, pois destinam-se sempre a ser oferecidos. De tal forma que o termo folar designa, nalguns locais, qualquer oferta ritual de alimentos feita por altura da Páscoa.

 
  Receita

Ingredientes:

(Para a massa)
2,5 kg de farinha
100 de fermento de padeiro
2 colheres de sopa de fermento em pó
250 g de manteiga
250 g de banha
2 colheres de sopa de  erva-doce
4 ovos
250 ml de leite
1 colher de sopa rasa de sal

(Para decorar)
Ovos cozidos com casca de cebola
Amêndoas de Páscoa
Feijão-frade
Fitas coloridas
Calda de açúcar

Confecção:
Deitam-se 500 g de farinha num alguidar, junta-se o sal, a erva-doce e o fermento diluído num pouco de água morna. Mistura-se e amassa-se durante uns minutos, juntando a água suficiente. Adicionam-se os ovos e o açúcar e continua a amassar-se. Quando os ingredientes estiverem totalmente incorporados, regam-se com a manteiga (ou margarina) e a banha previamente derretidas. Envolve-se bem e junta-se o leite. Mistura-se de novo e adiciona-se a farinha restante e o fermento em pó. Amassa-se durante mais algum tempo e podem começar a tender-se os lagartos.
Retira-se um bocado de massa e rola-se sobre uma bancada polvilhada com farinha, conferindo-lhe uma forma cónica. Dispõe-se num tabuleiro untado e espalma-se a parte mais larga, para formar a base da cabeça do lagarto. Coloca-se um ovo cozido por cima e cobre-se com uma rodela de massa, que forma a parte superior da cabeça. Ata-se uma fita na zona que corresponde ao pescoço, sem apertar demasiado.
Com uma tesoura, efectuam-se quatro cortes laterais no «tronco» do lagarto, para formar as patas. De seguida fazem-se pequenos golpes no dorso e na cauda, para imitar as escamas da pele. Enfeitam-se as «costas» com amêndoas de Páscoa e pincelam-se os lagartos com ovo batido. No lugar correspondente aos olhos colocam-se feijões-frades.
Levam-se os lagartos a cozer em forno quente (200º C na resistência superior e um pouco menos na inferior) durante cerca de 20 minutos. Depois de cozidos, pincelam-se com uma calda de açúcar em ponto baixo. Para finalizar, ata-se uma nova fita em volta do pescoço – geralmente verde – e faz-se um laço.

 

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