Documentário sobre Mariana Bicho e Ilda Martins, duas prodigiosas narradoras tradicionais do concelho de Beja. Um conjunto de cantigas, contos, orações, lendas e romances foram ditos frente às câmaras num ambiente de partilha e de transmissão de conhecimentos. Realçamos neste documentário uma deliciosa conversa sobre um lobisomem.
Nesta seção, no menu lateral, pode aceder ainda a todos os vídeos sobre a tradição oral em Beja.
Com a colaboração da Biblioteca Municipal de Beja e da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, o projecto MEMORIAMEDIA entrevistou Olivia Brissos de Beringel (2006), Mariana Bicho e Ilda Martins da Salvada (2010), Edvige Raquel de Baleizão e Idalina Cocito de St. Clara de Louredo (2010), no concelho de Beja.
Um conjunto de cantigas, contos, orações, lendas e romances foram ditos frente às câmaras num ambiente de partilha e de transmissão de conhecimentos. O que agora se apresenta na secção dos “cantos, contos e que mais…” dedicada ao concelho de Beja é o que estas contadoras aprenderam há muitos anos num quotidiano de trabalho, em momentos de lazer e em celebrações religiosas.
Edvige Rafael tinha 9 irmãos e “lá em casa” quem contava histórias era o pai. “Como não havia rádio nem televisão” o pai contava as histórias por episódios, “todos os dias contava mais um pouco”, como se de uma novela se tratasse. Era ele quem inventava as histórias que Edvige tornou mais curtas e continuou a contar, primeiros aos filhos e netos, agora em escolas e bibliotecas. Os contos tradicionais aprendeu-os com a avó.
Segundo Mariana Bicho e Ilda Martins, eram as mulheres mais velhas que ensinavam às mulheres mais novas as regras e a moral, os trabalhos, as cantigas, os contos e as orações. Quando se referem às “mais velhas”, mesmo sem personalizar, fazem-no com reverência e respeito. Foi com elas que aprenderam tudo e recordar essas aprendizagens é lembrar momentos marcantes das suas vidas.
Mariana Bicho nunca aprendeu a ler nem escrever e, segundo ela, como “tudo tem um porquê na nossa vida”, nunca foi à escola porque o pai era moleiro e criou-a junto do Guadiana. O rio ficava muito longe das povoações e, naquela altura, “moça sozinha não podia ir para a escola ”. Não sabia ler nem escrever mas decorava tudo o que ouvia e lhe interessava. Ainda hoje recorda inúmeros romances novelescos como é o caso da “Rosinha costureira” e “A bela Infanta”.
O percurso destas mulheres é idêntico - ou não estudaram ou fizeram a 3ª classe, depois foram trabalhar no campo, guardaram porcos, tenderam pão, ou fizeram outros trabalhos rurais. Nasceram, viveram e aprenderam tudo o que recordam nesta região. Olivia Brissos, que conta uma versão de um dos contos mais correntes em Portugal – “Corre, corre cabacinha” – (Cardigos, 2010), lembra ainda os tempos em que se recebia em “comedias”, quando em troca do trabalho recebiam farinha, queijo, toucinho ou pão.
Filomena Sousa (MEMORIAMEDIA)
2011