Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Recolhas Etnográficas

  • Maria Fernanda Serineu Bacalhau

  • Nascimento: 1961

  • Residência: Reside na Freguesia da Sé – Portalegre

  • Actividade profissional: Funcionária Administrativa.

  • Função no GFCB: Comissão Técnica, cantata e apresentações.

  • Entrevista: 2010/2/8_ Portalegre_Sede do GFCB

"Recolhas de danças, fundamentalmente, já é muito difícil arranjar. Mesmo muito difícil. Poderá haver ainda uma memória ou outra, mas depois a capacidade de execução já não existe. O que temos feito incidir mais (não deixamos de persistir na tentativa de encontrar uma dança, uma cantiga, mas dificilmente já conseguimos), o que vamos continuando e ainda conseguimos fazer é recolhas de trajes fundamentalmente. Trajes, utensílios, mais algumas questões, mais alguns aspectos de tradição oral – de contos, de lendas, das pequenas histórias, etc. –, mas fundamentalmente por aí, porque as danças já não é muito fácil. É muito complicado já

Para fazer as recolhas temos uma ficha tipo com espaços para recolher toda a informação e depois utilizamos outros meios, os meios que temos de audiovisual que conseguimos ter à disposição e vamos para o terreno. Primeiro contactamos, procuramos estabelecer alguma relação de abertura e de à vontade com as pessoas, de proximidade, ou por conhecimento de alguém que é amigo, que é familiar, que estabelece uma primeira ponte, e depois vamos à conquista do conhecimento!

E depois trazemos, normalmente, aquilo que é possível trazer. A minha experiência maior é ao nível dos trajes – pode ser uma peça, pode ser um traje completo que por vezes… Há várias… Cada caso é um caso. Há várias modalidades, chamemos-lhe assim, que são peças que nos são emprestadas que podemos fotografar, que podemos filmar, que podemos inclusivamente reproduzir com uma costureira ou um alfaiate, que depois temos que devolver. E conseguimos ficar com o registo de tudo: quando é que se utilizava o traje, quem é que o utilizava, em que época o utilizou, para fazer o quê, quais eram as cores dos tecidos, quais eram os tipos de tecidos, a qualidade dos tecidos, que adornos ou que utensílios se utilizavam. Registamos o máximo possível dessa informação.

E a partir daí, depois fazemos reprodução. Temos vários casos. Temos um caso, por exemplo, um fato de casamento de São Julião que nos foi emprestado durante um fim-de-semana. Nada mais do que esse tempo, para podermos fotografar. E então valemo-nos desse fim-de-semana: fotografámos o traje, pedimos a um alfaiate que tirou-lhe os moldes e devolvemos o traje. Temos o traje reproduzido. Temos outro que nos foi cedido, um traje de casamento de uma senhora, que nos foi cedido durante o tempo que precisámos. Foi levado à costureira, a costureira tirou moldes, reproduziu com o fato em presença. Por vezes, temos apenas uma fotografia! Também temos alguns casos desses. A fotografia e a memória de quem possui a fotografia que nos permite que registemos todos os pormenores (a cor dos tecidos, a qualidade dos tecidos, quando é que utilizava) por memórias. Estou a lembrar-me do caso de uma senhora que agora tem setenta e cinco, setenta e seis anos, e que se lembra de como a avó vestia aquele traje e deu-nos possibilidade de copiarmos uma fotografia que possui – fotografia é a preto e branco, daquela época a preto e branco –, mas ela tem na memória as cores do tecido, a qualidade do tecido e isso tudo ficou registado e temos o traje também reproduzido. Depende das situações.

Nós temos uma dificuldade tremenda em arranjar exemplares antigos de fatos de trabalho. E isto tem uma explicação. A roupa no trabalho gastava-se até ao fim! Acabavam em trapos para lavar o chão, outra qualquer coisa lá em casa. É extremamente difícil encontrar uma peça que fosse usada antigamente e que ainda exista. Há uma coisa ou outra, mas é o mais difícil. Os fatos que eram usados em momentos mais especiais, esses ainda perduram porque ficaram guardadinhos nos baús e ainda é possível encontrar alguma coisa. Há de tudo um pouco, há a nossa procura no sentido de encontrar ali porque nos parece que há-de haver ali qualquer coisa que nos interessa, mas também por vezes nos aparece alguém que diz: – eu tenho isto. Tomem lá que vocês não têm e quero dar ou quero emprestar ou quero… – Porque também é um factor de orgulho para a própria pessoa ou para a família ver reproduzido algo que foi da sua própria história. Isto é extremamente interessante. Mas temos de tudo um pouco, mas encontramos mais peças dos fatos de casamento, dos fatos que eram usados nas festas porque eram usados apenas naqueles momentos e eram guardadinhos. Os que se usavam no dia-a-dia dificilmente aparecem. Calçado aparece muita coisa por descrição. Peças antigas de calçado muito dificilmente porque gastavam até ao final."

 

 

 

 

 

 


 

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