Não pareço aquilo que sou
«Eu estou velho e estou cansado
que eu sou pai e bisavô.
Mas não sou aquilo que eu pareço
e nem pareço aquilo que sou.
Quem em tempos me conheceu
sabe que isto que é verdade.
Hoje ‘tou(1) sentindo a saudade
desse bem que já foi meu.
Escondo alguém como eu,
que fez história do resultado,
fosse mal ou bem passado,
ainda hoje quem me dera!
Já não pareço o que era
que eu estou velho, estou cansado.
Eu sou aquela pessoa
que os anos mandam em mim,
estou no princípio do fim
porque a idade não perdoa.
E a minha voz quando soa
mostra bem o que mudou.
E alguém que me acompanhou,
nos meus tempos de rapaz,
sabe a diferença que faz
ser pai ou bisavô.
Há grandes transformações,
até na mentalidade,
mas tudo é filho da idade,
não posso ter ilusões.
Já não tenho pretensões
àquilo que eu gosto e conheço.
De tudo quanto eu mereço,
já nada ou pouco espero,
porque eu na’(2) sou quem eu quero.
Eu na’ sou aquilo que eu pareço.
Tantas horas que eu passo
a falar só e comigo,
porque se eu não faço o que digo,
também não digo o que faço.
E sempre que posso desfaço
tudo quanto se passou.
Mas o tempo não perdoou,
deu-me uma imagem diferente.
E por isso, para muita gente,
não pareço aquilo que sou.»
Eusébio Pereira, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) ‘Tou: abreviatura oral de “estou”.
(2) ‘Na’: abreviatura oral de “não”.