O mosquito grande (O mosquito a pastar)
Os meus pais eram pobres, viviam sempre a trabalhar, vá. Nós éramos três irmãos…
O velho lá andava a trabalhar, e tal, e tinha um irmão que era rico.
[Irmão rico:] - Óh! Ó pá! Não sei o que é que fazes ao que ganhas! Andas sempre na miséria… Mas que vida é a tua?!
[Irmão pobre:] - Ó pá! Eu bem trabalho! E bem faço pa’(1) vida, mas não resulta, semos(2) muitos! E o ordenado é pequenino…Mas o que é que hei-de eu fazer? Se tivesses aí algum dinheiro que me emprestasses… Era favor… Eu pago…
[Irmão rico:] - Pronto, eu empresto-te o dinheiro. Toma lá! Mas, daqui até tal tempo, tens que me entregar o dinheiro!
[Irmão pobre:] - Sim, senhor! - Atão, o meu pai lá bem fazia, mas ele é que não chegava!
Bom, quando chegou a altura de pagar, diz-lhe o irmão assim:
[Irmão rico:] - Atão? Já arranjaste o dinheiro pa’ me pagares?
[Irmão pobre:] - Ó irmão! Ele *não chegou pàs encomendas*(3)! Mas como é que há-de ser?!
[Irmão rico:] - Bom, olha(4), eu perdoo-te o dinheiro… Se tu me deres já uma mentira maior que o Padre-Nosso, eu perdoo-te a dívida.
[Irmão pobre:] - Óh!
[Irmão rico:] - Ou tu ou os teus filhos!
Bom, ele era me’ padrinho(5). Bom, leva lá o meu irmão… Vai ao meu pai e ele diz assim:
[Irmão rico:] – Atão(6), diz lá a mentira maior do mundo. - Óh! O meu pai não soube dizer…
[irmão do afilhado:] - Não sei dizer isto, nem o que é aquilo… - E eu ao meu irmão também não disse!
[Irmão rico:] - Não sabe!
Diz-me assim o meu padrinho: - Atão e tu?
[Afilhado:] - Olhe, ó padrinho…
[Irmão rico:] - Não sabe de nada…
[Afilhado:] – Olhe, esta noite vinha de Alcafozes(7) e na nossa herdade andava lá um mosquito a pastar… Um mosquito que andava a pastar que aquilo é que foi uma gadanha(8) a comer tudo o que apanhava!
[Irmão rico:] - Óh! Não me digas que era assim tão graúdo(?)!
[Afilhado:] - Ah! Aquilo era um mosquito! Era uma coisa enorme! Eu sei lá o que aquilo era, pá! Um grande mosquito!!!
[Irmão rico:] - Atão, mas como é que aquilo era?!
[Afilhado:] – Era um mosquito grande! Grande! Grande! Grande! Olha, não te digo nada! O mosquito era grande, tão grande que batia cas(9) asas no céu e ia com os colhões(10) de rastos!
Manuel Diogo, Idanha-a-Nova, Setembro de 2010
Glossário:
(1) Pa’ – abreviatura de “para” (usadade modo informal e coloquial).
(2) Semos – somos.
(3) Não chegou pás encomendas – não chegou para tudo o que era preciso.
(4) Olha - escuta! Ouve! Presta atenção!
(5) Padrinho – aquele que foi testemunha de baptismo; o que deu o nome a alguém; o protector.
(6) Atão - regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que significa “então”.
(7) Alcafozes – localidade e freguesia do no concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, situada na zona raiana, já perto de Espanha.
(8) Gadanha – foice com que se corta feno e sega cereais, no caso, foi como uma máquina a comer, limpar e cortar tudo o que encontrava.
(9) Cas – abreviatura oral, de uso informal e coloquial, de “com as”.
(10) Colhões – palavrão, tabuísmo, para designar “testículos”.
Para a execução deste glossário consultaram-se: Simões, Guilherme Augusto. (2000). Dicionário de expressões populares portuguesas. 2ª. edição, (Dicionários D. Quixote; 34 ). Lisboa: Publicações D. Quixote, p.478.
www.priberam.pt;
http://aulete.uol.com.br;
http://www.infopedia.pt;
http://www.ciberduvidas.com;
http://ciberduvidas.sapo.pt;
http://alcafozes.com